récita IV

 récita IV



019

há uma linguagem
de quem compreendeu
que o amor não é escolha
é geografia do corpo
é o lugar onde se nasce
sem ter pedido para nascer

os demônios nos ombros
as flores órfãs
o elefante de patas longas
caminha sobre os sonhos

pois o que toca
é essa confissão final
essa urgência em sangrar
para não enlouquecer
de ser quem se é

porque a ferida
é o único lugar
onde a gente ainda respira
quando tudo mais sufoca

wasil sacharuk


020

ouço a voz que se desdobra
primeiro ferida
depois néctar
depois o sangue que salva
é a voz de quem conhece
o peso exato da contradição
de quem habita simultaneamente
a recusa e o desejo
a morte e a ressurreição

reconheço o ritmo que pulsa
quando o corpo aprende
que amar é uma loucura necessária

wasil sacharuk


021

meus demônios habitam meus ombros
como corvos que conhecem meu nome
observam-me devorar espinhos
quando a revolta queima por dentro
o céu chove chumbo
o ouro que brilhava nos olhos vira cinza
eu grito para que meu próprio eco
me confirme vivo
meus demônios quando sorriem
minha fúria se dissolve
sentam-se comigo
pequenos e estranhos
para escutar o canto selvagem
que brota de minhas entranhas

wasil sacharuk


022

dança
mas não a dança graciosa
dança entre as flores apodrecidas
entre as raízes que se enroscam
em umbrais esquecidos
entre as chamas que consomem tudo
cobriremos de concreto o que era verde
e os pássaros levarão suas sementes
para o túmulo esquecido

wasil sacharuk




um algo

 um algo 

preciso que a poesia
imersa no estranhamento
me conte as novidades
eleve meu autoconhecimento
me afaste da minha rotina
duvide das minhas verdades
desvende o extraordinário
garimpado entre as latrinas
dispare flashes aleatórios
em camadas de significados
talvez uma palavra inusitada
 talvez um toque surpreendente

wasil sacharuk 



 

A morte não é um clichê - oficina de criação

 A morte não é um clichê


Antes de mais nada, importa dizer que os familiares estavam inconsoláveis, de coração inundado de tanta tristeza. Alguns já estavam de olho na fortuna incalculável, afinal, as relações familiares são uma caixinha de surpresas. 

A capela onde ocorreu o velório estava literalmente tomada de amigos que distribuíram abraços calorosos aos entes queridos da falecida, provocando um ruído ensurdecedor.

Morreu de fato após um ataque fulminante que detonou o seu pobre coração. A morte é infalível e todos dizem que ela fez por merecer. Era pessoa de poucos amigos. Bem, para morrer basta estar vivo, já dizia o mestre. Agora jazia lá, com o olhar fixo no teto. 

Ela lançou farpas para todos os lados, enquanto fez uma série de colocações infelizes com requintes de crueldade. Agiu sem pensar, a todo vapor. Gerar polêmica era sua especialidade, batia  de frente com as pessoas, pois era uma fonte inesgotável de criar confusões e tecer duras críticas ao comportamento alheio. Contudo, na vida real, ela trabalhou muito para suprir suas necessidades básicas e respirar aliviada.

Acumulou grande fortuna por meio da sua atuação impecável de importância vital, correndo por fora e tocando para frente seus projetos de avançada tecnologia. Seus negócios prosperaram do Oiapoque ao Chuí. Pelo trabalho incansável obteve estrondoso sucesso. Trilhando o caminho, se tornou uma líder carismática que sempre conseguiu indicar uma luz no fim do túnel. Todos agora lamentam pela carreira meteórica que a transformou numa vítima fatal do estresse cotidiano. Realmente, uma perda irreparável. Ela era um verdadeiro tesouro.

Mas, a pergunta que não quer calar é: por que foi tão maledicente se, via de regra, tinha todos os meios materiais para conquistar sua felicidade? O dinheiro pode preencher uma lacuna na sua existência. Apesar da conta bancária recheada, tinha um coração frio que, a cada dia, sofria prejuízos incalculáveis. Por fim, a vida pregou uma peça e lhe aplicou uma sonora vaia.

Mesmo estando todos visivelmente emocionados, intimamente sabemos que a justiça tarda mas não falha. 

wasil sacharuk



A ESTÉTICA DOS DESADORNOS DE WASIL SACHARUK

Estética: A Matéria sem Filtros

A proposta estética de Sacharuk reside na desconstrução do "belo" tradicional. O poeta estabelece um compromisso ético e estético com a crueza.  Seus poemas são povoados por elementos de forte presença tátil e peso físico — ferro, gesso, mármore, sal, vísceras, sangue. Há uma recusa sistemática à metáfora etérea ou puramente intelectualizada. O poema se constrói como um objeto concreto, quase geológico.

O cotidiano claustrofóbico: Elementos simples do dia a dia (como o balanço de roupas no varal ou a travessia de uma rua) são carregados de uma tensão latente. A realidade ordinária é constantemente tensionada pelo fantasma da finitude e da incomunicabilidade.

Espiritualidade telúrica: O sagrado em sua poesia não ascende aos céus; ele se enterra. É uma espiritualidade que se manifesta na carne, no apodrecimento, na persistência da matéria e no confronto estoico com a morte.

O Corte e a Fragmentação

Os versos de Sacharuk rejeitam a simetria métrica tradicional. Eles se estruturam sob a lógica da fratura: curtos e isolados. Muitas vezes, uma única palavra ou uma imagem breve ocupa uma linha inteira, funcionando como um bloco isolado de sentido. Isso obriga o leitor a uma leitura verticalizada, onde o espaço em branco da página (ou da tela do blog) ganha peso de silêncio.

O ritmo na poesia de Sacharuk é ditado pelo corpo e pela necessidade de oxigênio. Não há a cadência regular da canção, mas sim a irregularidade do batimento cardíaco ou da respiração sob pressão.

A apneia: O ritmo simula a falta de ar. O poema se desenvolve em blocos de emissão rápida de voz, seguidos por suspensões abruptas. O silêncio entre os versos não é apenas uma pausa de leitura, mas uma interrupção física do fluxo de ar.

Sincopamento e Spoken Word: Na transposição do texto para a voz (comum em suas récitas acompanhadas de trilhas sonoras densas ou experimentais), o ritmo ganha contornos de jazz ou de rap alternativo. A palavra falada não se submete à música; ela disputa espaço com ela, criando uma polirritmia onde a voz hesita, acelera ou se arrasta de forma imprevisível.

Repetições rituais: O uso de anáforas (repetição de palavras no início de versos sucessivos) funciona como uma batida de metrônomo, ancorando o poema em uma pulsação obsessiva que acumula tensão até o desfecho.

A linguagem de Sacharuk é feita de matérias-primas brutas: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Não há distância lírica aqui. As imagens não fluem com elegância; elas cortam, rasgam, perfuram. Essa escolha de vocabulário não é casual—é uma recusa deliberada ao refinamento ornamental, uma insistência em confrontar o leitor/ouvinte com substâncias reais, densas, inescapáveis.

Ao recusar o adorno, Wasil Sacharuk transforma o poema em um corpo exposto: um organismo feito de ossos fonéticos, músculos rítmicos e uma respiração que se recusa a simular uma harmonia que não existe na experiência humana.

Wasil Sacharuk oferece uma poesia sem ornamento, que recusa o conforto da abstração lírica. Sua estética é a do enfrentamento direto com a morte, o desejo, a matéria. O ritmo é respiratório, vocalizado, visceral. Os sons cortam mais do que acariciam. E em tudo isso há uma dignidade radical—a recusa de mentir, de embelezar o insuportável. 

Sua obra constitui um exercício de escavação existencial, um mergulho sem adornos na crueza da experiência humana.

AS MUSAS NA POESIA DE WASIL SACHARUK


A obra de Wasil Sacharuk revela uma relação visceral e quase anatômica com suas musas. Elas não são figuras etéreas ou idealizadas no sentido clássico; são entidades de carne, sombra e resistência, que forçam o poeta a um confronto constante com sua própria finitude e crueza.  São de Natureza Selvagem, rebelde e autossuficiente e têm por função provocar a transmutação do poeta através da dor e do desejo.  Um embate de forças onde "quem é caça" e "quem é caçador" se confunde.

A Musa como Espelho e Sombra

Psicologicamente, a musa em Sacharuk não serve para o consolo, mas para a desestabilização. Ela é frequentemente retratada como uma força autônoma que "conhece a própria sombra e não a nega" (Inteira ou não é).

Há uma recusa clara à musa-objeto. A mulher descrita pelo poeta "não se traduz nos versos alheios" e "é inteira ou não é". Isso indica uma projeção psicológica de alguém que busca no outro uma completude que não aceita fragmentações ou submissões.

Dualidade Arquetípica (Hera e Hades): 

Em poemas como Récita I, a relação é descrita como uma "foda sem hierarquia nem divindade". As musas transitam entre o sagrado e o profano, o acolhimento e a violência. Elas são, simultaneamente, a "brisa leve" que acarinha e a "ave carnívora" que bica até verter sangue (Dono das Horas).

Enfrentamento da Morte: 

A musa é a parceira no "sapateado sobre cacos de vidro". Ela compartilha com o poeta a lucidez cruel de que o amor é uma forma de resistência em um mundo que "metaboliza o pó".


A Estética do Desadorno

Literariamente, as musas de Sacharuk são o motor de uma linguagem que ele mesmo define como brutal e desadornada. Elas exigem uma poesia que recusa o "ângulo reto" (Hipotenusa).

As musas são associadas a elementos táteis e densos: sangue, gesso, ferro, sal e vísceras. Elas não inspiram rimas fáceis, mas "lapsos poéticos" que habitam a realidade de forma diferente.

A Metáfora da Escultura:

Em Camille, a musa é invocada como uma escultora (referência a Camille Claudel). O poeta pede para ser recriado na "pedra mais fria", sugerindo que a influência feminina em sua obra é um processo de desbaste, de corte e de entalhe verdadeiro.

Dialeto Singular: 

A comunicação com a musa ocorre através de uma "linguagem desaprendida" ou de "emissões úmidas". O amor é um "pacto de sangue" que goteja pelos cantos da boca, transformando a lírica em um evento sensorial e eletromagnético (Chuva e Raio).

As musas de Wasil Sacharuk são, em última análise, a personificação da própria poesia dele: pelada de roupas, crenças e ciências, existindo apenas na verdade nua do impacto entre dois corpos e duas estranhezas.

récita III

 récita III 



015

um sussurro nasce
quando a solidão se torna festiva
quando o que caminha sobre nós
não pesa
 mas germina

tu vens assim
não como afirmação
mas como pergunta
que o corpo entende antes da boca

teu amor não é o meu
é o que atravessa o rio seco
e encontra nas águas evaporadas
uma razão para continuar

wasil sacharuk 



016

as correntes que plantei nos meus pés
não te prendem
elas enraízam
da raiz brota a seiva que não me pertence
ainda que eu tenha acreditado
que eu era teu dono

teu corpo
sangue
tua essência repartida em postas
para alimentar meus demônios

o que vertes de ti não me pertence
mas cada gota que cai
carrega meu nome
minha culpa
minha impossibilidade
de amar sem destruir

wasil sacharuk 


017

na noite das constelações caladas
o grito ainda encontra ouvidos
és o rio manso rio que dobra os braços
e também és o fim que se faz início
a chuva chega fora de estação
temporã e serôdia
trazendo vida onde a vida era extinta
e reconheço a minha vastidão
feita do teu fragmento
que permanece em mim
pequeno e luminoso
como orquídea que brotou
em solo impossível

wasil sacharuk 


018

menina
ahhhh menina!
moras em mim
numa chama inquieta
como em mim
mora a sina
obsoleta e chinfrim
de querer ser poeta
teu poeta!

wasil sacharuk 




SACHARUK - LIRA RESSONANTE Full - poesia falada spoken word



SACHARUK - LIRA RESSONANTE

A Eloquência que Perfura o Concreto

🖋️✨Wasil Sacharuk nos entrega uma performance visceral de Spoken Word que desafia o óbvio. Entre "flores esquizofrênicas" e "águas benta atômicas", o poeta nos conduz por um labirinto de emoções reais e sem filtros.

É poesia que não aceita encosto, que desafina para ser verdadeira e que encontra beleza até no solo impossível.

Wasil Sacharuk não apenas recita; ele exorciza. Através de uma performance que transita entre a impertinência e a vulnerabilidade, o poeta nos convida a abandonar conceitos pré-moldados para mergulhar em uma estética onde a palavra é, ao mesmo tempo, arma e cura.

Começa com uma afirmação de independência e não-conformidade, desafiando o espectador a aceitar o "jeito impertinente" do eu lírico. Em seguida, a obra mergulha em imagens surreais e naturais — dunas de areia, orquídeas esquizofrênicas e rios secos — para falar de criação, amor e a própria desilusão com a figura do "poeta fada".

A performance é marcada por uma musicalidade constante. Wasil utiliza o ritmo e as pausas para enfatizar o peso das palavras, alternando momentos de fala direta com trechos cantados que elevam a carga emocional. O cenário e a trilha sonora criam uma atmosfera de "embriaguez criativa", onde o "labirinto dos verbos" se torna o palco principal.

"Se minha eloquência perfura o concreto pré-moldado da tua essência, reinventa teus conceitos."

"Cultivamos orquídeas e outras flores esquizofrênicas." — A beleza que nasce do caos e do incomum.

"Teu amor não é o meu, é o que atravessa o rio seco." — A resiliência e a alteridade no afeto.

"Minha impossibilidade de amar sem destruir." — Uma confissão crua sobre a natureza humana e seus demônios.

Wasil Sacharuk foge da hipocrisia e do "confete" social para entregar uma poesia que "derrama sem régua". É um conteúdo essencial para quem busca uma arte que não pede licença para existir. 🎥👇




#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #ArteIndependente #PoesiaViva #Cultura #PerformancePoetica

lira ressonante

 lira ressonante 


bebo no córrego aguaceiros e néctar - caminhos clandestinos ocultos nos poros e viro-te os potes ao encantamento dos verbos imperativos intransitivos e declinados ao encontro perdido no labirinto da embriaguez

deito na fluidez branca das tuas dunas de areia  - faço brisa do mar reentrâncias - a musa inspira 

deusa fêmea indelicada corruptora das filosofias -  tenho tua lira ressonante na ponta da minha língua 

wasil sacharuk




cueiros pandos

 cueiros pandos

andei por aí
de cueiros pandos
perdido no encanto
da velha diamba

ah poderia ser bamba
se um dia o pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida

quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
não faço prece
odeio hipocrisia
desencano desafino
acho tudo normal

logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega

já contei a história
consulta tua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido no encanto
da velha diamba

de onde ninguém volta
lá a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo engov
palavra verso estrofe

wasil sacharuk



flores de sexta-feira

 flores de sexta-feira

incidem na parede
  palavras e coisas
pelos campos criativos 
onde cultivamos orquídeas
e outras flores esquizofrênicas
de sexta-feira

 o sol incide tão cheio
no quarto pela janela
entremeada pela cortina
a parede branca é uma tela
as sombras das nossas mãos
imitam voos de aves meninas

wasil sacharuk




notas: 

 "Flores de Sexta-feira" é uma delicada e instigante exploração da criatividade e da percepção, misturando o concreto do cotidiano com o abstrato da imaginação. Através de imagens sensoriais e uma linguagem sugestiva, o poema nos convida a observar o poder transformador da mente.

 "o sol incide tão cheio no quarto pela janela entremeada pela cortina". Essa luz solar, filtrada pela cortina, cria um ambiente propício à introspecção e à brincadeira da imaginação. A "parede branca é uma tela", um espaço em branco que aguarda ser preenchido pelas projeções da mente.

É nesse palco improvisado que a magia acontece: "as sombras das nossas mãos imitam voos de aves meninas". As mãos, que são ferramentas de criação e expressão, projetam sombras que se transformam em seres alados. O termo "aves meninas" sugere leveza, inocência e a pureza da imaginação que ainda não foi cerceada. É um ato de pura brincadeira e invenção, transformando algo tão simples como a sombra em uma dança de formas e significados.

"Flores de Sexta-feira" é uma ode à capacidade humana de encontrar beleza e significado nas coisas mais simples. O poema celebra a liberdade de imaginação, onde o sol, uma parede branca e as sombras das mãos se unem para criar um espetáculo poético que transcende a realidade imediata e nos convida a brincar com as formas e os sentidos do mundo.
 



concreto

 concreto

se minha eloquência
perfura o concreto
pré-moldado da tua decência
reinventa teus conceitos
não julga o meu jeito
pois sou mesmo assim
tanto impertinente
no fim
posso ser incoerente

eis que não me compete
 conformar ao teu gosto
pois não desejo confete
sequer quero encosto

wasil sacharuk




engano

 engano

inocente eu pensava
que poeta via coisas
do mundo das fadas
e dos quintos infernais
aquelas que reles mortais 
não podem ver

imaginava que descrevia
sentimentos do seu objeto
traduzido nos versos da poesia

que capturava tons e cores
amores e imagens
descrevia sabores
de sentimentos vivos

e ainda acreditava
que os olhos fechavam
para ver as paisagens
que os olhos abriam
para saber os motivos

wasil sacharuk






Naquele dia

  Naquele dia

Lembro quando a natureza, naquele dia de maio, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre as telhas, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas. De meros brinquedos, agora serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo fez-se nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.

wasil sacharuk






récita V

récita V

não me fales
da perfeição
sequer das ruínas
eu as sei
se sou fênix
a reunir resistências
ruínas contam
memórias das coisas
meus significados são coisas
eu sou coisa
que nem mesmo sei

,........

galga indomada
potra sem cilha
estribo ou sela
ancas escarranchadas
galopa desenfreada
corpo afora

.............

o benquererte
testou a complacência
da maré
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk



de fastidio

 de fastidio

não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
dos anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

não reverencio o espectro
que oculta o mote obscuro
desses b∆ndidos eloquentes
sob um ar circunspecto

não compartilho do dialeto
que pronuncia minha gente
seus argumentos obtusos 
e preceitos inconsequentes 

não acredito nos pr€sid€nt€s
seus vassalos e seus abusos
nem nos puxassacos repletos
de burrice condescendente

não me considero esperto
além do que é aparente
tenho certos traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk




coruja

 coruja

nem Capitu
Isaura sequer
Helena nem cogito

olhos literários
brilham por querer
encantam emocionam
são sempre bonitos

e teu olhar de coruja
na poesia ilumina
meu abismo infinito

wasil sacharuk





sombras gasosas

  sombras gasosas


meus versos de emboscadas
respiram nas nebulosas
bebem o leite das vias
viajam no espaço poesia

meus versos sem rosas
movem coisas paradas
param coisas movidas
misturados às prosas

meus versos acendem dias
nas imbatíveis porfias
são fugitivos das trovas
trevas da noite calada

meus versos são derrocada
cascata de rimas leprosas
galáxia de estrelas vadias
das dores da afta e azia

meus versos de veias nervosas
assaltam à mão armada
poeiras que não dizem nada
sinapses de sombras gasosas

wasil sacharuk


as viúvas de gramsci

 



as viúvas de gramsci

desfez-se a distância
entre as lembranças
e o firmamento
não há mais lamento
restaram vinganças
as podres memórias
de militância

a história
redunda em vergonhas
falsas beligerâncias
artimanhas

percorre simplória
pela linha do tempo
entre tolos eventos
extremidades do fio
da ignorância

e as viúvas de gramsci
valsam impunes
com a ganância

wasil sacharuk



bússola

 bússola🧭

só queria que sudeste 😁😜
para mim o teu sul👁️
porém tu nordeste🚫🙀
e ainda disseste:📢🌬️🌪️
não no meu centroeste🔏🚫
nem depois da minha norte✝️⚰️🪦
hoje só dou minha bússola🚬🧭🛞🛟

wasil sacharuk



pro-piroxîtono

 pro-piroxîtono


bicho errático trôpego
cego afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça  fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

wasil sacharuk





libertino

 libertino


busquei minhas letras 
nas fontes da ideia
dos desejos e amores
 fiz versos concisos
escandi pelas grades da cadeia
rimei com a vida de improviso

de estrofes tortas fiz a teia
com um longo fio de verso liso
saí derramando sangue da veia
libertino e solto como o riso

comecei suspirando rima cheia
desenhei uma métrica boca e meia
 joguei num contexto impreciso
e agora espero que alguém leia
se ler que não faça cara feia
e acaso se goste deixe aviso

wasil sacharuk









orégano rosa

 orégano rosa


ignoro-te catarse poética
poema quando arrebenta
irrompe epiléptico
canais entrecruzados
fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

sou vivente de bom coração
mas não carrego alma bucólica
provo da náusea do cotidiano
com natural sofreguidão
risco versos cibernéticos
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

improviso o intento
de confessa manipulação
fantasia sofismo retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

cada poesia tem sua rubrica
e não é isenta de posição

wasil sacharuk



trapiche das noites

 trapiche das noites


 rasgo na noite de luz
 trilha traçada na água
 rumo para os devaneios
instiga enquanto seduz
afasta a ira e a mágoa

desenho de lua na areia
talvez fosse nova ou cheia
mundo marcado no meio
pelo caminho de madeira
o velho trapiche é esteio

navegam mistérios à deriva
naquela laguna tão viva
que acaricia os lamentos
beija a testa dos anseios
com doces sopros de vento

sempre que a noite incendeia
a praia ilumina, mancheia
reflete em cada um dos veios
daquela estrutura altaneira
atracadouro de tantos segredos

wasil sacharuk



pão

  pão

plantarei o trigo em solo fecundo
a ostentar a alva pele de cordeiro
quiçá limparei os pecados do mundo
da massa fermentada serei padeiro

espírito servido ao café da manhã
que sacia o amor no estilo caseiro
com hóstias brioches e croissants
o divino calor que emana do cheiro

da casquinha crocante da eucaristia
sovarei o cereal com força e poesia
obterei água e sal em plena comunhão

na mistura de letras dessa ladainha
o bromato se eleva sutil na farinha
engendra o milagre da multiplicação

wasil sacharuk




colher de pau

 


colher de pau

bati ovos até nevar
e ela sentiu a aeração
daquela textura
conferiu a consistência
lambeu a doçura

caiu de beiços
na pontinha açucarada
na sequência
 espargi leite fresco
na tigelinha melada

wasil sacharuk



nuanças verdes

 nuanças verdes


debaixo daquela árvore
a sombra lembra o desígnio
tal um signo
feito fantasma
luz do espírito
ou apenas miasma

debaixo de árvores
enterram-se as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
daí brotam raízes
as fracas e as fortes

debaixo daquela árvore
há um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
porém dá na mesma
um sonho pisoteado
desfaz-se que nem lesma

debaixo de árvores
riscam os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas

wasil sacharuk



fé de outro

  fé de outro 

sou vivente 
de pouca fé
e não sou tapete
pra cristão bater pé
sei muito bem como é
melhor ir descrente pra frente
do que ir crente de ré

wasil sacharuk



cruzes e pedras

 cruzes e pedras


trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
esmoreceu tanta luz
a renascença das trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz
quem teve medo de fome
carregou muita pedra

orações e lamentos
largados ao vento
os vazios do amor
em sentenças e nomes

o suor de labor
e a lágrima da dor
nada mais que intentos 
para outra rima pobre

wasil sacharuk

yasar koç





sejas o brasileiro

 sejas o brasileiro 


sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer

nada adianta
bancar o cidadão
que não és
nada adianta
ser destro ou canhestro
quando tua fuça
só aponta para baixo
nada adianta
discutir economia
quando não sabes 
fazer uma conta "de mais"

catas moedas numa caneca
entre teus pés infestados
de frieira e de fungo
feito paspalho moribundo
enquanto passas pano
para todo esse bando
de políticos vagabundos

sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer

wasil sacharuk



três macaquinhos



três macaquinhos

você não vê
as marcas do escarcéu
condena o ateu
condena o incréu
não
você não vê
sequer vejo eu

você nunca sabe
quando fudeu
entrega tudo a deus
que também nada sabe
muito menos
sei eu

você que não ouve
os gritos nesse bordel
os argumentos do réu
não
você não ouve
sequer ouço eu

você não entende
o que aconteceu
nem no inferno
e nem no céu
que não se entendem
nem eu

você que não fala
e vive nessa Babel
em pleno apogeu
não
você não fala
sequer falo eu

wasil sacharuk



o descrente

 o descrente


A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

wasil sacharuk









antirrábico

 antirrábico


aprende o tom da fala
e o olhar opaco dos justos
modelos da sensatez

olha bem suas caras
ouve os discursos
investiga os porquês
dos que não se envergonham
da própria obscuridade

percebe o entrecorte
que separa as vaidades
dos respiros ociosos
cospe tua cachaça
sobre a estupidez
dos crentes raivosos

não lamentes o desprezo
o negacionismo escroto
bate palmas que os loucos
dançarão orgulhosos

wasil sacharuk



"carbonos coloridos

  

comandante chegou conduzindo corporação. Camburão corria cheio carregando criaturas com capacetes comportando caixote contendo centenas carabinas. Cão cheirador chegou crispado, cheirando calças, cheirando chinelos, cantos, caixas. Confederados chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas,  cara cara com cidadãos. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Cidadão, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo coberto com celofane. Conduziram cidadão chegando cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.


"carbonos coloridos

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo"

wasil sacharuk









decomposição

 


decomposição

a peste no papel
poisa sem culpa
sépia envergado
palavras soltas
de esperanças perdidas
escolhas envelhecidas
cagadas de moscas
cabeças e patas
rimas açucaradas
rabiscos de caneta
outono das letras
estação das baratas

wasil sacharuk



o velho cu acentuado

 o velho cu acentuado

meteu com tudo
um acento agudo
no u do seu cu
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo
falou que no cu não se bota acento
a menos que o cú referido
seja por força de xingamento

wasil sacharuk



paradoxo

 paradoxo


esse mundo
é assim mesmo
cheinho de gente
com suas estranhezas
tantas diferenças
tantas crenças
goste eu disso ou não
de tão plural
até mesmo assusta
encerra a abstração
da similitude
incrível magia
que não me deixa saber
o que afinal eu sou
ao preço de ser diferente

wasil sacharuk



outro sentido



outro sentido

eu nada sei
acerca do amor
como anda no tempo
cultiva orquídeas
e orbita os planetas
sob a mira do sol

aprendi nada mais
que dezenas de formas
de florir nessa terra
em seus vários quintais

agora estou cansada
tão cansada
da existência enfadonha
do peso dos meus ossos
desse cheiro de carne

preciso que o amor
pregue asas em minhas costas
e talvez as mesmas coisas
vistas lá de cima
ganhem outro sentido

lá de cima
lá de cima
existe um além
outras cores
outro sentido

wasil sacharuk










decrépita

decrépita 


a poesia está velha
e a rima anda renga
nas estrofes banguelas
sobre amor cardiopata
e das paixões guenzas
sob o olhar catarata

wasil sacharuk



da falsa comiseração

 da falsa comiseração


uma vez por ano, os biscuits eram recolocados na estante e queriam parecer vivos. Tinham olhares de vidro apontados para o centro do estábulo de palitos de picolé colado sobre a colina de isopor. O cenário não emprestava sentido ao antinatural e descabido. Salvaguardados três reizinhos engraçados que carregavam presentes e calçavam chinelas azuis diante de uma vaca de gesso que olhava para o lado enquanto outra pastava fiapos de celofane verde. O bebê repousava petrificado sobre uns trapinhos velhos pronto a percorrer viagem de dois milênios pelas vielas escuras das almas penitentes.

wasil sacharuk




deixei de poupar energia

 deixei de poupar energia


sabes da luz
que apagaste em mim?
pois acendi novamente

dispenso as penumbras
as maquinações imundas
sou por fim
um poeta diferente

sabes da luz?
              acendi!

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi

wasil sacharuk


coordeno orações

 coordeno orações


procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas

peço paixão
ofereces motivos
queres cristão
mas eu sou herético
peço-te vírgula
tu dás conetivo
depois pedes ação
e entrego-me sindético

leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação

o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações

a ti morena
tenhas certeza
escrevo meus versos 
para te possuir
e provar tuas belezas

wasil sacharuk


pífano perdido

 pífano perdido


pronto! pachorra paz
perdia ponto
perdia prumo

perseguia prudência
pedia providência
pedia perdão
pelos pecados

precisava paciência
passos perseverantes
parcimônia planejada
para partir paradigmas
para provar perspectivas

perspicaz
prescindia pensamentos
profundamente peculiares
particularidades pueris
palavras pescadas
para parir poesia

possuia
plenas prerrogativas
planejava propósitos
perseguia prodígios
porquanto procrastinava
produções pragmáticas

pretendia persuadir
provar pleno poder
preconizando premissas
pronunciando paradoxos

por pura pressa
produzia pensamentos
promíscuos
palavras portavam
perfídias perdidas

pronunciava
preditivas prosas
pareciam presságios
perversos
pessimistas
perplexos

pedia pela paz
pedido porém
pairava pretérito
ponderava preceitos
parecia pífano perdido
propagando pífios prelúdios

wasil sacharuk


Os demônios do esquecimento

  Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo distante. Nelas, soaram os gritos da agonia, reproduziram o assassínio das crianças e a tomada das terras raras, cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas e clamou tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos em sangue inocente.  

Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio, oriunda das maquinações do clérigo ocultista. 

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação semelhante as de outras formas humanas sempre que assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais.  Veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder junto aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura desprezava os ruídos da fala. Adentrava a mente dos homens quando desejava, enfim, nutria-se do esquecimento que os acometia.

O velho abade sussurrou um madrigal consagrado à deusa das vertentes e logo viu irromper o dragão que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Incorrupta, a maravilha criada pelo abade não serviu a outro que não o seu artífice.  Pelos dias do outubro se estendeu a vingança do clérigo.

Sem que o percebessem, o dragão bestial perpassou as portas das memórias humanas até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente sob o signo ígneo da serpente e consagrou a morte das lembranças.

O mestre Gerard negociou com os demônios personificados nas três faces da criatura o final da tragédia. Como trégua, o abade aceitou a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia. De cada qual, faria verter as memórias pelo breu do esquecimento fatal. 

A criatura dos grimórios evocou um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Era necessária a consciência viva do passado algoz, a experiência dos caminhos malfadados. O futuro pedia pela lembrança do passado.

Gerard sentiu medo. Solitário diante do destino ingrato extirparia as cabeças de seus profetas ou, então, permitiria o esquecimento. E sua incapacidade de escolher fez deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estendiam secas e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitava o pensamento dos sábios e profetas. O sol evaporou as últimas lembranças. Proclamaram-se dias de desespero. O povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu pelas montanhas escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Oração foi o que lhes restou. Num transe místico rasgaram suas próprias carnes com as rochas pontiagudas, até seu sangue derramar sobre a terra.

No vale das memórias apagadas, o chão de sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve o aprendizado, nem as fórmulas da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

Gerard foi, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk




tua geometria

 tua geometria


o crop quadrado
orientação de retrato
teus membros oblongos
formam retângulos
sugerem perspectivas
perfazem mil ângulos
e ao centro emparelhados
dois bicos eriçados
te coroam os redondos

wasil sacharuk



notas: 

 "Tua Geometria"  utiliza termos geométricos para delinear uma figura humana de forma abstrata e objetiva.

O poema começa com uma linguagem que remete à fotografia ou à composição visual: "o crop quadrado / orientação de retrato".  Essa escolha de termos já introduz a ideia de que a figura será analisada em termos de suas proporções e delimitações.

"teus membros oblongos / formam retângulos". Os "membros oblongos" (alongados) naturalmente se assemelham a retângulos, uma forma básica e fundamental na geometria.
A ideia de que as formas "sugerem perspectivas / perfazem mil ângulos" amplia a complexidade da observação. Os "mil ângulos" reforçam a riqueza de detalhes e a capacidade da geometria de descrever a diversidade de formas e volumes presentes. Há uma sensação de que cada parte, cada linha, contribui para uma composição maior e multifacetada.

 "e ao centro emparelhados / dois bicos eriçados / te coroam os redondos". Essa é a parte mais enigmática e sugestiva. A menção a "dois bicos eriçados". A imagem é intencionalmente vaga, permitindo múltiplas interpretações e mantendo o foco na forma e não na identidade explícita. 

"Tua Geometria" se destaca pela sua originalidade. Ele nos faz olhar para além do óbvio, desafiando-nos a ver a beleza e a complexidade nas estruturas básicas que nos rodeiam. É uma obra que brinca com a abstração e a concretude, evidenciando como a matemática e a arte podem se entrelaçar na percepção.

adjunto de xingamento

 adjunto de xingamento 

meteu com tudo
um acento agudo
bem no olho do ú😬
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo🧐📚
que apresentou seu estudo:
"no cu não se bota acento
exceto se o cú referido
seja adjunto de xingamento"🙉

wasil sacharuk



anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...