carbonos coloridos

  

comandante chegou conduzindo corporação. Camburão corria cheio carregando criaturas com capacetes comportando caixote contendo centenas carabinas. Cão cheirador chegou crispado, cheirando calças, cheirando chinelos, cantos, caixas. Confederados chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas,  cara cara com cidadãos. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Cidadão, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo coberto com celofane. Conduziram cidadão chegando cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.


"carbonos coloridos

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo"

wasil sacharuk








mil palavras mudas

 mil palavras mudas


silêncios que emergem
da nascente das almas
onde palavras são tantas
sobre ideias insanas

silêncios salvam
silêncios servem
trabalham e se divertem
tanto sofrem quanto amam

são mudos quando plantam
bananeiras sem bananas
entre poemas sem mensagem
e tantas outras faltas

silêncios cavam
silêncios cobrem
se afogam depois emergem
tanto correm quanto andam

são mudos se debatem
significações exatas
às percepções mais humanas
contextos e artimanhas

silêncios falam
silêncios ouvem
pensam enquanto sentem
tanto morrem quanto calam

wasil sacharuk







cortejo das falenas

 cortejo das falenas


avistei tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
junto às borboletas falenas

ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
e o seio de mamas gêmeas
enfeitiçou-me aos olhos

seguiram desde os ombros
ao mar de areias morenas
aos teus gentis territórios
adentrei com gana pirata

poesia lasciva e obscena
vertida da boca insensata
lavou-te as feições sarracenas
com partículas de luzes aladas

ocultei nas palavras serenas
tuas tantas belezas fartas
dos encantos de formas helenas
descrevi figuras abstratas

wasil sacharuk






visionário

visionário

o instável momento precário
reluta mas pede a alforria
mas não passa de agrura
e prevalece a feroz criatura

para o ritual de todo o dia
colei uma foto no armário
ao lado do meu calendário
à esquerda dessa poesia

quero verdade mais pura
quero além da simples jura
quero uma doce rebeldia
quero toque mais refratário

nem sei se a mente depura
nem sei se tenho estrutura
nem sei se é outra mania
nem sei se me faço otário

aprendi a não ser solitário
e já sei consertar avaria
já sei cozinhar pra gastura
nem sei se a vida me atura

são as peças do meu relicário
instâncias de toda a ousadia
encantos de vã travessura
sem os toques da amargura

o que dizem que é utopia
fui buscar no meu dicionário
é um tipo de nó visionário
da mais perfeita alegria

wasil sacharuk





o corte

  o corte


conheço o corte 
das espadas
das batalhas de línguas 
nas janelas
vejo cores ocultas
sob as telas
navego nas rimas
enquanto nadas

conheço os atalhos 
das estradas
sobrevivo aos desvios
e mazelas
sou heroico nas lutas
e nas guerras
meu inferno faz frio
enquanto queimas

conheço o intento 
das palavras
sei andar nas tabelas
da retórica
leio a chama das velas
diabólicas
jogo flores nas covas
enquanto cavas

wasil sacharuk





casulo

casulo

o monstro que mora 
dentro de mim
nunca o vi
mas o reconheço
ele é meu fim
sou seu começo

que venha e seja
revele-se e me assuste
que me mate
ou me mude

que eu me renda
ao monstro que mora 
dentro de mim

wasil sacharuk







SACHARUK - VISIONÁRIO Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - VISIONÁRIO 

.

Onde moram nossos monstros e nossos silêncios?

Às vezes, a poesia nos encontra nos lugares mais sombrios e nos oferece uma lanterna feita de palavras. Assistir a Wasil Sacharuk é aceitar um convite para essa exploração interna. Ele nos fala sobre o monstro que nos habita, aquele que "nunca ouvi, mas o reconheço", lembrando-nos de que somos o começo de nossas próprias transformações.

 No palco da existência, onde as palavras muitas vezes falham, a poesia de Wasil Sacharuk surge não apenas como som, mas como uma incisão necessária. Em sua performance de spoken word, o poeta nos conduz por um labirinto de dualidades — entre o monstro interno e a doçura da rebeldia, entre o ruído da opressão e a eloquência do silêncio.

 VISIONÁRIO  é uma jornada por diferentes estados da alma. Começa com a aceitação do "monstro" interno, uma entidade que é, simultaneamente, fim e começo. Wasil explora a retórica como uma batalha ("conheço o corte das espadas"), onde a língua é a arma e a rima é o leito por onde se nada ou se queima. 

A obra transita para a fragilidade do presente no poema sobre o "estável momento precário", uma reflexão sobre a busca pela verdade pura em meio às avarias da vida. Há também um momento de profunda sensualidade e entrega à natureza ("Avistei-te pelas matas"), onde o corpo fêmea e a paisagem se fundem em cascatas de carícias. 

Contudo, os pontos altos da reflexão residem na análise do silêncio — que "salva, serve e trabalha" — e na crítica social magistralmente construída através de uma aliteração percussiva em "C". Neste último, a chegada do "Comandante" e a repressão são contrastadas com a "caixinha de carbonos coloridos", sugerindo que a arte (o desenho, a cor) é, para o sistema, uma prova de condenação.

"O monstro que mora dentro de mim / nunca ouvi, mas o reconheço. Ele é meu fim. Sou o seu começo."

"Silêncios que emergem da nascente das almas... silêncios salvam."

"Quero verdade mais pura. Quero além da simples jura, quero uma doce rebeldia."

"Cada canalice conduz consequência, converte castigo."

 Vale assistir a esta performance para entender que a poesia não está apenas no papel, mas no fôlego que sustenta a palavra e no vazio que o silêncio preenche. É um convite para olhar para o próprio "monstro" e encontrar nele a alforia.

Para quem ama literatura que provoca, incomoda e acolhe, este vídeo é obrigatório. É um lembrete de que, mesmo sob o corte das espadas e as batalhas de línguas, a rima e a sensibilidade são nossos maiores refúgios.

#WasilSacharuk #Poesia #Literatura #Reflexão #ArteEResistência #CulturaBrasileira #PoesiaParaAAlma #SpokenWordBrasil #Escritores #Versos #VidaPoética




não duvide

 não duvide


ja vi a palavra
               romper fortalezas
              sarar chagas tantas
             encurtar a distância
entre espíritos dissonantes
       simplificar o complexo
            e curvar os gigantes
           aliviar aos dementes
          serenar os intrépidos

vi também
      o amor verter límpido
   das pedras da nascente

wasil sacharuk



wasil sacharuk

Wasil Sacharuk ocupou um lugar interessante na poesia brasileira recente: ele não veio do circuito tradicional de grandes editoras e prêmios, mas de uma produção intensa, híbrida e muito marcada pela circulação digital. Isso o coloca na linha de frente de uma geração que pensa poesia não só como livro, mas como presença em rede, performance, voz e música.Sua atuação em grupos como a Nova Ordem da Poesia e projetos como Inspiraturas reforça um traço importante: ele não se isolava, mas se entendia como parte de uma comunidade de escrita, apostando em trocas, oficinas e formação de novos autores.

A contribuição temática de Sacharuk passa por três eixos fortes:

Crítica social e política: há uma recusa do conformismo, um desconforto com estruturas de poder, com desigualdade, com o automatismo da vida urbana e do trabalho.

Existencialismo ateísta: sua poesia frequentemente confronta a ideia de sentido transcendente, preferindo uma visão lúcida, às vezes dura, da finitude e do absurdo. Isso o aproxima de uma linhagem que vai de certos modernistas a poetas contemporâneos que desmontam o discurso religioso e metafísico.

Musa e afetos: ao mesmo tempo, há uma dimensão amorosa e erótica, mas quase sempre atravessada por ironia, consciência crítica e jogo de linguagem—não é um romantismo ingênuo, é um amor que sabe de suas contradições.

Essa combinação ajuda a construir uma voz que não separa o íntimo do político, nem o pensamento filosófico da experiência cotidiana.

Forma e experimentação: entre tradição e ruptura

Um ponto forte da contribuição de Sacharuk é a forma como ele dialogou com a tradição sem se submeter a ela:

Uso de formas fixas (sonetos, acrósticos, limericks): ele recupera estruturas clássicas, mas as preenche com temas contemporâneos, linguagem coloquial, humor e crítica. Isso cria um contraste produtivo entre forma “nobre” e conteúdo “desobediente”.

Valorização da musicalidade e da rima: em tempos de predominância do verso livre, ele insiste na sonoridade como eixo de sentido, não como ornamento. A rima, o ritmo e o jogo fonético são usados para intensificar o impacto crítico ou afetivo do poema.

Verso livre e experimental: ao mesmo tempo, não se prende a um único modelo; transita por poemas mais soltos, narrativos, fragmentários, o que mostra uma consciência de que a forma é escolha ética e estética, não regra fixa.

Essa versatilidade formal é uma contribuição importante: ela mostra que a poesia contemporânea pode ser múltipla sem perder coerência de voz.

Linguagem: entre coloquialidade, ironia e densidade

A linguagem de Sacharuk costuma operar em três registros que se cruzam:

Coloquialidade: expressões do cotidiano, fala comum, termos de trabalho, cidade, internet. Isso aproxima o leitor e quebra a aura de “poesia difícil” como algo distante da vida real.

Ironia e humor: há um uso recorrente de ironia, sarcasmo, trocadilhos, que funcionam como ferramentas de crítica e de desromantização. O riso aqui não é leve: é muitas vezes um riso que denuncia.

Densidade reflexiva: mesmo quando o tom é leve, o fundo é filosófico. Ele trabalha com perguntas sobre sentido, morte, tempo, memória, mas sem cair em jargão acadêmico—é uma filosofia encarnada na experiência.

Essa combinação contribui para uma poesia que é acessível sem ser rasa, e que pode dialogar tanto com leitores iniciantes quanto com leitores mais experientes.

Outro aspecto relevante da contribuição de Sacharuk é o modo como ele encarnou o poeta contemporâneo conectado:

Publicação massiva online: centenas de poemas disponíveis em blogs, redes, vídeos, ampliam o acesso e criam uma relação mais direta com o público.

Parceria com música e performance: sua atuação em projetos multimídia reforça a ideia de que a poesia hoje não está confinada à página—ela pode ser voz, som, corpo, vídeo.

Comunidade e formação: ao facilitar oficinas e participar de coletivos, ele ajudou a democratizar o fazer poético, tirando a poesia do pedestal e colocando-a como prática compartilhada.

Isso tudo contribui para um modelo de poeta que não é apenas autor de livros, mas agente de cena, alguém que movimenta e alimenta um ecossistema literário.

o vivente

 o vivente


tu vês lá?
o vivente
junto ao carvalho?

sentado ao chão
livro à mão
empresta sentidos à vida
e respostas para a morte

debaixo da copa crescida
 experimenta a sorte
a mente aberta num rasgo
causa múltiplos estragos
ao núcleo da consciência

 indaga filosofia
ressignifica a ciência
proclama poesia
e tu o vês sentado
tal inspiração
à luz da meditação

ao pé do carvalho
 molhado de orvalho
o vivente sopra sementes
de perguntas tantas

wasil sacharuk


notas:

"O Vivente" é um poema que convida à reflexão sobre a busca incessante do conhecimento e o impacto transformador dessa jornada. 

"vês lá? o vivente junto ao carvalho?". Essa interpelação cria uma atmosfera de cumplicidade e curiosidade, convidando-nos a observar. O carvalho, uma árvore milenar e robusta, simboliza a sabedoria e a perenidade do conhecimento. 

O vivente não está apenas lendo; ele "empresta sentidos à vida e respostas para a morte". Essa frase encapsula a profundidade de sua inquirição, que transcende o trivial e busca as grandes questões existenciais. A leitura e a meditação ("tal inspiração à luz da meditação") são os meios pelos quais ele explora seu mundo interior.

A expressão "a mente aberta num rasgo causa múltiplos estragos ao núcleo da consciência" é particularmente potente. "Estragos" aqui não tem uma conotação negativa, mas sim de ruptura e desconstrução de paradigmas antigos. É o impacto da epifania, do novo conhecimento que abala as estruturas pré-concebidas da mente. O vivente "indaga filosofia, ressignifica a ciência, proclama poesia", demonstrando uma abordagem multidisciplinar e holística do saber. Ele não se limita a um campo do conhecimento, mas os integra para construir uma compreensão mais vasta e complexa da existência.

"o vivente sopra sementes de perguntas tantas". O vivente, agora imbuído de novos questionamentos e reflexões, não guarda o conhecimento para si. Ele o dissemina, como sementes que se espalham para germinar em outras mentes. Isso sugere que o verdadeiro propósito da busca pelo conhecimento não é apenas encontrar respostas, mas também gerar novas perguntas, impulsionando um ciclo contínuo de aprendizado e descoberta.

O poema foi escrito para homenagear o poeta Adriano Aquele do Carvalho, em 2011. 






de fastidio

 de fastidio

não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
dos anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

não reverencio o espectro
que oculta o mote obscuro
desses b∆ndidos eloquentes
sob um ar circunspecto

não compartilho do dialeto
que pronuncia minha gente
seus argumentos obtusos 
e preceitos inconsequentes 

não acredito nos pr€sid€nt€s
seus vassalos e seus abusos
nem nos puxassacos repletos
de burrice condescendente

não me considero esperto
além do que é aparente
tenho certos traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk




amor com Tchaikovsky

 amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
num dia perfeito 
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti 
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
a minguar-te inteira 
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
e acordes na boca 
para beijar os contornos
das tuas dunas de areia

wasil sacharuk



antropófaga

 antropófaga


faminta
ela vinga nas matas
encara o vento
o olho do sol
mastiga raízes
engole os frutos absurdos
que repelem a dor

indelicada alquimia
dos elementos
esparadrapo e unguento
para chagas e cicatrizes

antropófaga
bebe um copo de sangue
e insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até uma próxima aurora
quando raiar novo amor

wasil sacharuk



bemóis


bemóis 

tu ave
    fá sol
     na primavera
   se bem sabes
esperas

tu nota
        faminta
      em bemóis
        na primavera
                     fás sóis
       sem entraves

         tua pauta
      fac simile
das urdiduras
         em claves
                  e tons

         imitas o som
           das coisas
       dos lugares
      do coração
das criaturas

wasil sacharuk









tão só

 tão só 


na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por ela
no espaço vazio
mas nada emana
do vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

na noite passada 
morri em lençóis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
para ser libertado
de qualquer encanto
para ser libertado
de qualquer desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

wasil sacharuk





capuchinho

 Capuchinho


vermelho era o pecado
tingido na vã inocência
ela andava só sem licença
trazia doces confeitados
de sabores atávicos 

no seu cesto de enlaces
os sonhos de chocolate
deleites aos vícios
e um caderno riscado
com versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia o auspício 
de desafiar o velho lobo
seduzido ao escopo
de logo comê-la 

e assim a pequena
melindrada cobria a cabeça
no rubro pano
 que a desonra do engano
jamais lhe apareça

wasil sacharuk






contabilidade

 contabilidade


andei vasculhando as gavetas
 memórias de fatos bloqueados
tsunamis
naufrágios 
e tormentas
aos confins da história relegados

andei projetando o pré sessenta 
na esteira dos anos repassados
procurei obter as ferramentas
que rompem o ferro 
dos cadeados

andei repensando meus propósitos
 revisitei toda vida 
quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

andei recontando meus depósitos
persegui os valores debitados
e entendi o saldo 
dos estragos

wasil sacharuk






notas:

"contabilidade" é uma profunda e introspectiva viagem ao universo da autoanálise e do balanço existencial. O título, aparentemente frio e técnico, contrasta com a riqueza emocional e as imagens evocativas do texto, revelando uma metáfora para o ato de confrontar o passado e planejar o futuro, buscando um entendimento do próprio "saldo" de vida.

 "vasculhar as gavetas", uma imagem que imediatamente remete à busca por lembranças e experiências guardadas. No entanto, o que emerge não são apenas memórias, mas "memórias de fatos bloqueados", sugerindo traumas ou eventos dolorosos que foram reprimidos. A intensidade dessas lembranças é expressa por metáforas poderosas: "tsunamis, naufrágios e tormentas". Essas palavras evocam desastres naturais de grande magnitude, transmitindo a ideia de eventos avassaladores que marcaram profundamente a existência do eu-lírico e que, por algum motivo, foram "relegados aos confins da história". Há uma tentativa de esquecimento ou afastamento desses momentos difíceis.

Na segunda estrofe, o olhar do eu-lírico se volta para o futuro, especificamente para o "pós-cinquenta". Essa fase da vida é vista como um marco, um momento de balanço e planejamento. A busca por "ferramentas que rompem o ferro dos cadeados" é uma metáfora poderosa para a procura por meios de libertação, seja de amarras emocionais, padrões antigos ou bloqueios que impedem o avanço. É um desejo de se desvencilhar do que prende e limita, de encontrar soluções para os desafios que se apresentam ou que se acumularam ao longo dos anos. A "esteira dos anos repassados" sugere uma reflexão sobre o tempo que passou e como ele moldou o presente.

"Andei repensando meus propósitos" indica uma reavaliação dos objetivos e do sentido da própria existência. A imagem de "revisitei toda vida quadro-a-quadro" é vívida, como se o eu-lírico estivesse assistindo a um filme de sua própria trajetória, examinando cada cena, cada decisão, cada evento. Essa revisão é feita "na fileira dos pensamentos vagos", sugerindo um processo que pode ser caótico, com ideias e lembranças surgindo sem uma ordem linear, mas que culmina em uma análise abrangente.

A estrofe final retoma a metáfora central da contabilidade. O eu-lírico "recontou meus depósitos", que podem ser interpretados como as experiências positivas, os investimentos emocionais, as conquistas. No entanto, ele também "persegui os valores debitados", ou seja, as perdas, os fracassos, as dívidas emocionais ou as desilusões. A conclusão desse meticuloso balanço é a compreensão do "saldo dos estragos". Essa frase sintetiza a dor e o peso das perdas e dos erros, mas também sugere uma aceitação e um entendimento. A contabilidade da vida, ao final, revela que nem tudo são lucros; há um preço a ser pago, e reconhecer esse "estrago" é um passo crucial para a aceitação e o aprendizado.





SACHARUK - VERMELHO Full - poesia falada spoken word

  Wasil Sacharuk em uma Jornada de Memórias e Mitos

Você já sentiu que sua memória é um cesto de enlaces, misturando sonhos de chocolate e versos rasgados? No vídeo mais recente de Wasil Sacharuk, somos levados a uma viagem sem filtros pelos nossos depósitos emocionais.

Wasil nos lembra que, às vezes, é preciso ser "antropófago" de si mesmo para sobreviver à noite solitária dos nossos mitos. Uma performance que transborda ritmo e verdade.

A suíte poética que atravessa diferentes estados emocionais. Começa com um mergulho introspectivo em memórias bloqueadas ("Andei vasculhando as gavetas"), evoluindo para uma reinterpretação transgressora de mitos clássicos, como a "Capuchinho" (Chapeuzinho Vermelho), onde a inocência é tingida de pecado e desejo. 

Os temas centrais orbitam a dualidade entre a solidão e a liberdade, a dor da exaustão e a esperança de um "novo amor". Sacharuk utiliza a metáfora da antropofagia para descrever a sobrevivência emocional — uma "alquimia dos elementos" que transforma chagas em cicatrizes.

A reinterpretação que ele faz do mito da "Capuchinho" é de arrepiar, trazendo à tona a "vã inocência" e os desejos que habitam o escuro das florestas — e das nossas mentes. É um convite para entender o saldo dos nossos próprios estragos.

"Andei vasculhando as gavetas. Memórias de fatos bloqueados, de tsunamis, naufrágios e tormentas."

"Vermelho era o pecado tingido na vã inocência."

"Estou assim tão só enquanto ela dorme. Vivo assim tão só quando ela é livre."

"Imitas o som, o som das coisas, o som dos lugares, o som do coração das criaturas."

"Antropófaga, bebe um copo de sangue, insensata devora os próprios músculos."

Vale assistir a esta obra pela coragem de Wasil em expor as "gavetas" que a maioria de nós prefere manter trancadas. É uma experiência sensorial que desafia o espectador a confrontar seus próprios "saldos de estragos" e encontrar beleza na crueza da existência.

Comente o que sentiu.

#PoesiaFalada #SpokenWord #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #PerformancePoetica #ArteIndependente #ResenhaLiteraria #Cultura




cova das sinas

   cova das sinas


aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
nalgum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim meio louco
não conheço o tal deus
nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

um toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita o anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e o insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos

wasil sacharuk










colcha de margaridas

  colcha de margaridas


teu umbigo é um ótimo abrigo
onde quero morar
e os mamilos tão equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés desinteressadas

teus cabelos quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo a sorrir divertidos

eu te desadorno eu te desenfeito
desrascunho e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí tão linda
nudez em relevo sobre o plano
da velha colcha de margaridas

wasil sacharuk






avoada

 avoada


a alma anda avoada
avenidas afora
ainda alquebrada
antes andava amarga
anda agora aliviada

anda alçada aos ares
arremeda animais alados

alavanca as alturas
até a aura azul
assiste aves atmosféricas
aplaudindo aos astros
até Apolo avermelhar
a aurora ametista

as aspas abolidas
antecedem alíneas
abortam artigos abreviados
abonam apóstrofos
argumentos acumulados

ao anoitecer
a alma ainda acordada
acorrentada ao aço 
abandona a armadura

ademais 
a alma agora admite
arrebentar as algemas

wasil sacharuk







nota:

A jornada da alma transita da dor  para um estado de leveza, liberdade e autoconsciência. 
 A alma, que "antes andava amarga", agora está "aliviada". A mudança é enfatizada pela imagem dela "alçada aos ares" e "arremedando animais alados", indicando um desejo de liberdade e ascensão. 
 A alma se torna uma observadora do cosmo, "assistindo aves atmosféricas" e "aplaudindo aos astros". A menção a "Apolo avermelhar a aurora ametista" traz uma dimensão mitológica e sugere uma nova percepção da beleza do mundo. A alma não apenas voa, mas também se conecta com o universo.
A menção de "aspas abolidas" e a forma como a linguagem é tratada ("antecedem alíneas", "abortam artigos abreviados", "abonam apóstrofos" é uma desconstrução de antigas narrativas que aprisionavam a alma. A ideia de "argumentos acumulados" sugere um processo de autoanálise e redefinição.
 Mesmo "ao anoitecer", a alma permanece "ainda acordada", o que indica uma vigilância e uma nova consciência. A imagem de ela estar "acorrentada ao aço" e "abandonar a armadura" é poderosa, simbolizando o abandono de defesas e limitações impostas. O clímax  "a alma agora admite arrebentar as algemas"  é um reconhecimento de sua própria força e da necessidade de se libertar de qualquer prisão.
"Avoada" nos convida a refletir sobre a capacidade de transformação. Sacharuk nos guia pela jornada de uma alma que, ao se libertar das amarras do passado, encontra a leveza, a contemplação e, finalmente, a coragem de romper com  aquilo que a impede de ser livre. 





rosa trepadeira

 rosa trepadeira 


ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofertam
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da marés 

dançamos a canção da maré

wasil sacharuk




topografia

topografia


à espreita
olhos de sol
à noite são luas
iluminam a perfeição
das dunas
as digitais deslizam
círculos perfeitos
d'areias silenciosas
brancas e finas

pele tenra
frutos doces
pêssegos maduros
linhas contornam
desejos silvestres
pedem urgência
antes que o dia se rompa

flui a lagoa aberta
límpida potável
no declínio da sede
engasga o verbo
e sussurra
conjuga a língua
ao gerúndio das vontades

a brisa quente
chega do mar
viajando por córregos
beija as reentrâncias
trilhas clandestinas
encontra nos poros
versos de ouro
à fartura dos potes

wasil sacharuk





da tua janela

 da tua janela 

te escuto respirar
na noite adormecida
se entro pela tua janela

as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros
contigo na nova manhã

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

te escuto respirar
se entro à noite
pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

e acordar pássaros contigo
na nova manhã

wasil sacharuk 



SACHARUK - AVOADA Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - AVOADA 

Uma performance visceral de "spoken word", onde a poesia não é apenas lida, mas habitada. Através de uma sequência de poemas que parecem se fundir uns aos outros, somos levados de um quarto silencioso a florestas estranhas e dunas infinitas. A voz, marcada por pausas precisas e uma cadência quase hipnótica, transforma a audição em uma experiência de imersão.

O Despertar da Alma e o Olhar que Transforma

A obra abre com uma entrega absoluta. O eu lírico descreve o ato de observar o outro como um exercício espiritual e físico. A repetição da frase "até o amor verter sobre mim" (trecho do vídeo/poema) funciona como um mantra de purificação e paciência. É o reconhecimento de quem se sabe errante, mas que escolhe a permanência e a respiração como forma de entendimento.

A performance transita para imagens de uma natureza rica e tátil. Há uma sensualidade latente na descrição das dunas e dos frutos, onde o corpo e a terra se confundem. A citação "Círculos perfeitos de areias silenciosas, brancas e finas" (trecho do vídeo/poema) ilustra essa perfeição geométrica do desejo. A figura da "Rosa Trepadeira" surge como uma presença mística que "habita a estranha floresta", conectando o humano ao selvagem de forma lúdica e profunda.

Um dos pontos altos é a exploração da alma que, antes amarga, agora se encontra aliviada. O uso magistral de aliterações com a letra "A" cria um ritmo de ascensão: "A alma agora admite arrebentar as algemas" (trecho do vídeo/poema). É o momento de virada, onde o peso da "armadura" é abandonado em favor da leveza do voo.

A performance captura as nuances do "gerúndio das vontades", oferecendo um refúgio para quem busca na poesia uma forma de respirar em meio ao caos. É um convite para "desadornar" a alma e encontrar beleza na nudez do ser.

É uma obra sobre paciência, sobre o tempo de maturação dos afetos e a coragem de se deixar levar pela maré. A alma, antes acorrentada, aqui encontra o seu céu: "A alma agora admite arrebentar as algemas".

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verde de limo

 



verde de limo

tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

wasil sacharuk









verve

 verve


larguei minhas rimas por um dia para escrever prosa poética
a dita é mais imagética não levo jeito para isso um enguiço 
e não me surpreende não sou o Celso Mendes
mas isso não me abate pois sou poeta do tipo que liga batatinha quando nasce com tomate e alface
daí não dá briga é só o enlace
poeta que rima tem a rima como guia e a danada é que manda na maldita poesia
coisa de quem considera o leitor
que sempre espera algo além do chavão de juntar amor com dor
coisa sem sabor
a tal prosa poética favorece o fluxo e também o refluxo
e incita uma veia profética meio descabida patética e aflita
talvez um dia a poesia me deixe como peixe fora d'água e eu me abrace com a prosa
mas de rosa não sei falar
nem de deus, carnaval, natal, papai noel e rei momo
o que digo não cabe no céu e nem no mundo abissal
não sou poeta do tipo que escreve o que vive ou que vive o que escreve mas do tipo que junta o arquivo e a verve
é a verve... é a verve

wasil sacharuk






 



coruja

 coruja

nem Capitu
Isaura sequer
Helena nem cogito

olhos literários
brilham por querer
encantam emocionam
são sempre bonitos

e teu olhar de coruja
na poesia ilumina
meu abismo infinito

wasil sacharuk







calos

 calos 

conta uma história linda
sobre as virtudes mágicas
daquelas mulheres antigas
lavadeiras tão trágicas
cantadoiras das cacimbas
sob os calos escondiam 
as linhas das suas mãos
sobre as dores imprimiam
as suas linhas da vida

wasil sacharuk





lua e mais nada

 

lua e mais nada

vejo novembro
sob o foco lunar
íris de ouro e prata
tom nostalgia
luzindo a noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo envolto ao véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
na cegueira dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
enquanto dorme a lua

wasil sacharuk







cabocla

 cabocla

caboca da tez tatuada 
verde vestido ao vento 
pedala a bicicleta velha 
nos caminhos de fogo da terra

caboca sabe que o mar
apaga o fogo da terra
que a lua brilha na serra
também movimenta maré

caboca aos passos lentos 
entrecruza as queimadas 
sua voz encanta a toada
embalando os lamentos

caboca tem pé jenipapo
e tem outro pé canindé
carnaúba cerrado banana
tem coco tem sede tem fé

caboca do pé de serra 
alma rendada de birro  
 forja nas incertezas
 a resignação e a espera

caboca tem nome de ana
alice francisca maria 
tem maracatu tem poesia
na festa de são josé

caboca do sacramento 
das mulheres abnegadas 
da vida que não cobra nada 
além dos próprios tormentos

wasil sacharuk 





SACHARUK - CABOCLA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - CABOCLA 
A Polifonia Lírica de Wasil Sacharuk

CABOCLA mescla a crueza do cotidiano com a delicadeza da métrica, o poeta Wasil Sacharuk reafirma seu papel como um dos grandes intérpretes da alma brasileira. Através de uma sequência de poemas que visitam desde a força das lavadeiras até os dilemas do "poeta menino", o vídeo é um convite à pausa e à contemplação emocional.

A jornada começa com "Caboca", uma ode à mulher sertaneja, marcada pela fé e pela resignação. Em seguida, "ALua e mais nada" traz uma atmosfera onírica, onde o tempo é medido pelo "facho na estrada" e pelo "foco lunar". A performance atinge um ponto de introspecção em "Verde de limo", revelando a vulnerabilidade do artista que se vê como uma "pedra verde de limo, inerte".

A fDestinoorça feminina retorna em "Mulheres Antigas", destacando a "virtude mágica" das lavadeiras, cujas mãos imprimem na água as dores da vida. O encerramento com "Coruja" e "Verve" oferece uma reflexão metalinguística, onde Sacharuk brinca com a própria rima, admitindo que ela é a "danada que manda na maldita poesia".

"Caboca tem nome de Ana, Alice, Francisca Maria... tem maracatu, tem poesia na festa de São José."
"Em mim só encontro a lua e mais nada."
"Tenho sido vacilo, precipício e desatino. Poeta preso no estilo, tal cavalo no arreio."
"Sobre as dores imprimiam as suas linhas da vida."
"E teu olhar de coruja na poesia ilumina meu abismo infinito."

#Poesia #WasilSacharuk #CulturaNordestina #ArteBrasileira #Literatura #SpokenWord #ResenhaLiterária #PoesiaFalada #Reflexão #AlmaPoética




maio24

maio24

Lembro quando a natureza, naquele dia de maio, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre os telhados, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas e serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.







oigalê

 oigalê


o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk







bandas da saudade

 bandas da saudade


sessenta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para o índio assar solito
sem fumo 
sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
entorno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro
cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte
espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas
mas hoje a saudade não ganha
boto um liso de cana
ouvindo milongas do Plata
saudade cantada não mata

jogo no braseiro
tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote
espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte

wasil sacharuk








estrelas calaveras

  estrelas calaveras


no pampa estendido pela distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada afagando o guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
esquentar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
daquela chinoca bonita

um regalo escolhido a capricho
comprado lá na fronteira
um novo corte de chita
ou qualquer outra fazenda
que deixasse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já eu encilho o futuro
no más meu chapéu eu penduro
num prego pelo barbicacho
descanso a bombacha e as botas
tenteio o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

num trago eu afogo as queixas
já que a saudade não deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartaram dos velhos pelegos
a minha xirua faceira

wasil sacharuk 








carrossel de hologramas

 carrossel de hologramas 


tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
e nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixarei flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeada pela trepadeira
e te levarei ao meu sonho
com cores de primavera

wasil sacharuk








prados longínquos

 

prados longínquos

nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

wasil sacharuk








SACHARUK - OIGALÊ Full poesia falada spoken word

 

SACHARUK - OIGALÊ 

 O Renascer das Águas e da Poesia

 Em uma performance que transita entre o lirismo do pampa e a crueza da realidade urbana, o poeta Wasil Sacharuk entrega um relato emocionante sobre a finitude, a memória e a reconstrução necessária após a avalanche das águas.. Sacharuk começa com o "desenredo" da vida e a aceitação da morte, que "não guarda mistério, mas leva rumo tramposo". Ele utiliza um vocabulário rico em regionalismos (galdério, pingo, minuano, pilcha) para situar o espectador no rincão. 

O ponto de virada ocorre quando a poesia deixa o campo bucólico e mergulha na tragédia de maio. O poeta descreve com precisão cirúrgica o cenário de desespero: crianças nos telhados, militares com vozes embargadas e a "essência da vida a se destemperar líquida". É um testemunho histórico transformado em arte, onde o medo se transmuta em vontade de existir.

"A morte não guarda mistério, mas leva rumo tramposo, que derruba e nunca dá pouso."

"O que restou do nosso universo não enche um verso."

"De cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir."

"Das sementes da gratidão sempre brotará a nova coragem para recomeçar."

Vale assistir a esta performance não apenas pela beleza estética do Spoken Word, mas pela sua função social. Sacharuk não apenas declama; ele exorciza a dor coletiva e planta a esperança de que, mesmo após a destruição, a vida — e a praça — podem ter "novos brinquedos" e uma nova natureza.

"O que restou do nosso universo não enche um verso." 🌾

#SpokenWord #PoesiaGaúcha #WasilSacharuk #Resiliência #RioGrandeDoSul #CulturaRS #PoesiaFalada #Reconstrução




récita V

récita V

não me fales
da perfeição
sequer das ruínas
eu as sei
se sou fênix
a reunir resistências
ruínas contam
memórias das coisas
meus significados são coisas
eu sou coisa
que nem mesmo sei

,........

galga indomada
potra sem cilha
estribo ou sela
ancas escarranchadas
galopa desenfreada
corpo afora

.............

o benquererte
testou a complacência
da maré
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk







âmago

 âmago


és a presa
eu o demônio
meu hálito vermelho
invade tua boca
contra tua vontade
tão indefesa

da textura que te veste
ao âmago do etéreo 
a tudo fiz meu
tudo!

tua alma
teu útero 
é meu!

wasil sacharuk







negra

 não digas nada (negra)


preciso mergulhar aos confins
 desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível 
as três da manhã
ainda despencam 
pétalas das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
 batendo as asas

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
 serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

wasil sacharuk