contabilidade

 contabilidade


andei vasculhando as gavetas
 memórias de fatos bloqueados
tsunamis
naufrágios 
e tormentas
aos confins da história relegados

andei projetando o pós-cinquenta
na esteira dos anos repassados
procurei obter as ferramentas
que rompem o ferro 
dos cadeados

andei repensando meus propósitos
 revisitei toda vida 
quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

andei recontando meus depósitos
persegui os valores debitados
e entendi o saldo 
dos estragos

wasil sacharuk


notas:

"contabilidade" é uma profunda e introspectiva viagem ao universo da autoanálise e do balanço existencial. O título, aparentemente frio e técnico, contrasta com a riqueza emocional e as imagens evocativas do texto, revelando uma metáfora para o ato de confrontar o passado e planejar o futuro, buscando um entendimento do próprio "saldo" de vida.

 "vasculhar as gavetas", uma imagem que imediatamente remete à busca por lembranças e experiências guardadas. No entanto, o que emerge não são apenas memórias, mas "memórias de fatos bloqueados", sugerindo traumas ou eventos dolorosos que foram reprimidos. A intensidade dessas lembranças é expressa por metáforas poderosas: "tsunamis, naufrágios e tormentas". Essas palavras evocam desastres naturais de grande magnitude, transmitindo a ideia de eventos avassaladores que marcaram profundamente a existência do eu-lírico e que, por algum motivo, foram "relegados aos confins da história". Há uma tentativa de esquecimento ou afastamento desses momentos difíceis.

Na segunda estrofe, o olhar do eu-lírico se volta para o futuro, especificamente para o "pós-cinquenta". Essa fase da vida é vista como um marco, um momento de balanço e planejamento. A busca por "ferramentas que rompem o ferro dos cadeados" é uma metáfora poderosa para a procura por meios de libertação, seja de amarras emocionais, padrões antigos ou bloqueios que impedem o avanço. É um desejo de se desvencilhar do que prende e limita, de encontrar soluções para os desafios que se apresentam ou que se acumularam ao longo dos anos. A "esteira dos anos repassados" sugere uma reflexão sobre o tempo que passou e como ele moldou o presente.

"Andei repensando meus propósitos" indica uma reavaliação dos objetivos e do sentido da própria existência. A imagem de "revisitei toda vida quadro-a-quadro" é vívida, como se o eu-lírico estivesse assistindo a um filme de sua própria trajetória, examinando cada cena, cada decisão, cada evento. Essa revisão é feita "na fileira dos pensamentos vagos", sugerindo um processo que pode ser caótico, com ideias e lembranças surgindo sem uma ordem linear, mas que culmina em uma análise abrangente.

A estrofe final retoma a metáfora central da contabilidade. O eu-lírico "recontou meus depósitos", que podem ser interpretados como as experiências positivas, os investimentos emocionais, as conquistas. No entanto, ele também "persegui os valores debitados", ou seja, as perdas, os fracassos, as dívidas emocionais ou as desilusões. A conclusão desse meticuloso balanço é a compreensão do "saldo dos estragos". Essa frase sintetiza a dor e o peso das perdas e dos erros, mas também sugere uma aceitação e um entendimento. A contabilidade da vida, ao final, revela que nem tudo são lucros; há um preço a ser pago, e reconhecer esse "estrago" é um passo crucial para a aceitação e o aprendizado.





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