das noites sozinhas

 

das noites sozinhas 


dorme ao meu lado 

sob o açoite do frio

seremos o abrigo

a couraça 

que protege e abraça

ao melindre das horas 

que contam teus medos

que contam os meus 

sessenta e seis tipos

de nós cabalísticos


fagulhas coloridas 

delicadas desprendidas 

caídas por descuido 

dos braços do remanso

 murmuram a esquizofrenia

das nossas noites sozinhas


wasil sacharuk




o benquererte

  o benquererte

o benquererte
testou a complacência 
da maré 
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk



Lavínia

 Lavínia


sacolejas tanto
o teu oco insano
arremessando as roupas 
trepidando no canto

chacoalhas os arreios
temperando águas loucas
ao desmaio dos panos

no entanto
tudo isso é engano
coisas que invento
 incertezas tão tontas
que pegam no tramco

e falam sobre o anseio
de cair na tua boca
centrifugado nos flancos

wasil sacharuk



e se for pecado?

 e se for pecado?


dos pecados 
não me arrependo
sou desobediente
 ovelha infiel
 o avesso da crente

me faço purificada
 não sou a criadora
 nem manipuladora
 do motor imóvel adulterado

nenhum pecado confesso
 não sou penitente 
minha água benta é ardente

mantenho meus vícios 
meus ofícios 
meus artifícios 
a reza de trás para frente 
no rosário de uma serpente

e gosto de dinheiro, muito
de boa comida 
da vida bebida
 algum excesso
 algum descontrole

e continuo irada
 depravada odiada
 rancorosa raivosa
luxuriosa preguiçosa
 nada caprichosa
 soberba... implacavelmente soberba

qual beato abençoado 
me fará dizimada
 por uma ameaça ridícula 
de um medo infundado?

e se for pecado?
não é problema meu
me sinto agraciada
 por tudo que a vida me deu

wasil sacharuk




”E se for pecado?” recitado por Dani Maiolo

poesia de graça

 poesia de graça


das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Danielas Sofias Macabéas
Gilcinéias Maristelas Bias
Angelas Patrícias Marias

listar substantivos próprios
de gênero feminino
é artifício consagrado
que ninguém mais atura
é puta chavão
nos meandros da literatura

das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Julianas Cibeles Berenices
Anas Francieles Fabianas
Cristinas Grazieles e Lias

bebi minha cachaça
logo após meiodia
sentei no banco da praça
para ler poesia
na internet de graça

agora digo deboas
já li Fernando Pessoa
mas prefiro Bento Calaça

wasil sacharuk


(Bento Calaça)


nota:

 "Poesia de Graça" transita entre a lirismo amoroso, a metalinguagem e a crítica à prática poética contemporânea, tudo isso embalado em um tom irônico e coloquial. O título, por si só, já antecipa a multifacetada "gratuidade" que a poesia pode apresentar: seja na sua disponibilidade (internet de graça), na sua leveza e despretensão, ou mesmo na sua desvalorização.

O poema inicia e repete o refrão que estabelece um desejo amoroso: "das mulheres / és a que quero / a que não posso querer / mas talvez algum dia...". Essa estrofe introduz uma figura feminina idealizada e, ao mesmo tempo, inatingível. A repetição dessa ideia central reforça a constância do desejo, mas também a persistência de uma barreira, criando um ar de melancolia e anseio. A promessa "mas talvez algum dia..." adiciona uma nota de esperança, embora tênue, à essa busca.

A lista de nomes femininos ("Danielas Sofias Macabéas / Gilcinéias Maristelas Bias / Angelas Patrícias Marias") é o ponto de partida para a metalinguagem e a crítica literária do poema. O eu-lírico reconhece que "listar substantivos próprios / de gênero feminino / é artifício consagrado / que ninguém mais atura / é puta chavão / nos meandros da literatura". Aqui, Sacharuk ironiza a repetição de clichês e "chavões" na poesia, mostrando uma consciência do fazer poético e um desejo de romper com o que ele considera fórmulas batidas. Essa autocrítica, no entanto, não o impede de continuar utilizando o recurso, o que reforça a ironia e a ideia de que, mesmo ciente da crítica, o poeta ainda se permite essas "licenças poéticas".

A segunda parte do poema mergulha no cotidiano e na despretensão do ato de consumir poesia. O cenário é simples: "bebii minha cachaça / logo após meiodia / sentei no banco da praça / para ler poesia / na internet de graça". Essa imagem contrasta com a visão elitizada da leitura poética, sugerindo que a poesia pode e deve ser acessível e desfrutada em momentos de lazer e descontração. A menção à "internet de graça" sublinha a democratização do acesso à literatura, removendo barreiras econômicas e sociais.

A conclusão do poema é um golpe final de ironia e afirmação de gosto pessoal. "agora digo deboas / já li Fernando Pessoa / mas prefiro Bento Calaça". Ao mencionar Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, e em seguida afirmar a preferência por "Bento Calaça" (um grande e admirado poeta da internet, já falecido), reforçando a ideia de preferência por algo não canônico ou mais "autêntico", Sacharuk subverte a hierarquia literária. A expressão "deboas" reforça o tom coloquial e descontraído, consolidando a ideia de que a poesia não precisa ser um fardo intelectual, mas algo que se desfruta livremente, "de graça".

"Poesia de Graça" se constrói na tensão entre o sentimento amoroso, a crítica à forma, a apreciação despretensiosa da arte e um humor irônico que permeia toda a obra. Sacharuk brinca com as expectativas do leitor e da própria tradição literária, entregando uma poesia que é, de fato, "de graça" em múltiplos sentidos: livre, acessível e sem as amarras das convenções.

água de rio

 água de rio


poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia
poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras feias

wasil sacharuk



vitruviano

 vitruviano


vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

wasil sacharuk





andarilho

 andarilho 


tão mágica 
a engenharia
que projeta caminhos
nos mapas da consciência

atravessa blocos de fundação
               e paredes soerguidas
              com palavras caladas
       sobrepostas ao abandono
                condenadas ao sono

mas o pensamento andarilho 
chuta pedras
 pelas estradas
com sua algibeira de sonhos

wasil sacharuk


notas:

 "Andarilho" é uma reflexão sobre o poder do pensamento em transcender barreiras e construir novas realidades internas. A obra explora a jornada da mente como um engenheiro e viajante incansável.

O poema se inicia com a imagem da "mágica engenharia" que "projeta caminhos nos mapas da consciência". Essa metáfora sugere que o pensamento não é apenas um processo passivo, mas uma força ativa e criativa, capaz de desenhar e moldar a própria percepção da realidade. A mente é apresentada como uma construtora, alguém que planeja e estrutura o universo interior de cada indivíduo.

A expressão "com palavras caladas sobrepostas ao abandono condenadas ao sono" é particularmente evocativa. Ela sugere que muitas barreiras são construídas por experiências não ditas, emoções reprimidas ou memórias esquecidas, que jazem dormentes na consciência, mas ainda exercem influência. O pensamento, no entanto, tem a capacidade de atravessá-las, de trazer à luz o que estava oculto e, assim, desmantelar essas construções internas.

A "algibeira de sonhos" é uma imagem poética que representa a esperança, a imaginação e os desejos que impulsionam o pensamento. Mesmo diante das "paredes soerguidas" e das "palavras caladas", o pensamento continua sua jornada, carregando consigo o potencial de criar e reinventar. 

"Andarilho" celebra a resiliência e a inventividade do pensamento humano e lembra que, embora possamos carregar o peso de nossas construções internas e de experiências passadas, a mente tem o poder de se libertar, de desbravar novos caminhos e de transformar a consciência, movida pela força inerente dos sonhos e da busca incessante. É um convite à introspecção e ao reconhecimento da nossa própria capacidade de superação mental.




nesse outono

 


nesse outono🍂
se eu te sol
👄tu me chuvas?

wasil sacharuk


narciso em teus reflexos

 narciso em teus reflexos


deságua na língua 
ágil que te pronuncia
nas tranças da poesia
de um narciso
em teus reflexos

fodes aos versos
eles fodem contigo
caem de boca
fatal puta louca
das pernas abertas

geme manhosa
sujeiras escrotas
devassas da prosa
verte chá de boceta
no caderno
de escrituras

musa bruxa
manipresta negra
refletes indecorosa
no espelho mágico
das minhas letras

wasil sacharuk



A Centopeia Dividida

 

A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

wasil sacharuk











da contradição

 da contradição 


a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostenta a compaixão
mas trata desigual
em nome da fé

wasil sacharuk



balanço do açoite

 balanço do açoite


"...e o silêncio em silêncio agoniza."
(Márcia Maia - "Banquete")


a sede
e o nó
trama de estar só
silenciando a tarde
quando arrefece
o derradeiro alarde
das vozes da solidão

entre azulados
violetas
e magentas
o silêncio é a porta
do aposento da noite

e a solidão
fingida de morta

é o açoite

wasil sacharuk




maltrapilho

 maltrapilho

transmutei sina em trocadilho
joguei a sorte nabstração
estive poeta estive andarilho
rumos dispersos sem reunião

escrevi um poema maltrapilho
equivoquei o juízo da razão
já não sei se sou pai
ou se ele é meu filho
não sei se sou cria
ou ele é criação

algum sentido esfarrapado
riscou versos desmetrificados
nasceram diversos
nenhuma emoção

 meus argumentos equivocados
disseram falácias
num tom enrolado
apenas premissas
sem conclusão

 wasil sacharuk



elétrons

 elétrons 

tu me fase
eu te fio
tu me terra

wasil sacharuk

espilicute

 


espilicute

espilicute
das cores silvestres
e sabores sutis
a paixão repercute
se a razão arrefece
sob teus flertes
e teus toques gentis

wasil sacharuk



rimas pobres decadentes

  rimas pobres decadentes

rente que nem pão quente
penteio os cabelos pra frente
os fios grudados no pente
caídos tão repentinamente

tudo está diferente
de chic virei decadente
nos óculos falta uma lente
perdi minha fé virei crente

o bolsa família é urgente
como o almoço contente
ainda que faltem os dentes
não falta minha água ardente

controlado remotamente
por um discurso deficiente 
da boca de um presidente
ladrão fiadaputa indecente 

continua tripudiando da gente
tascando mentira eloquente
meus companhero minha gente
a gente tamos indo pra frente

wasil sacharuk




tem gente que caga

 tem gente que caga


tem gente que caga
para o futebol 🏈
tem gente que caga
para a seleção🇧🇷
tem gente que caga
para o carnaval 🎭
tem gente que caga
para a eleição 💩
tem gente que caga
para Chico e Roberto 🎤
para Gilberto Gil
para João Gilberto
tem gente que anda
cagando e andando
a bossa não é nova
é só bosta rolando

wasil sacharuk



prefácio

 prefácio


escrever o prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo tanto falso

eis que se abriu cadafalso
entre laços entre laços
nos requebros dos meus rastros
a poetar alabastros
entre a claustrofobia
e o espaço
e depois servir no antepasto
um pouco de pão com poesia

ai quem me dera um dia
eu cair nos teus braços
depois que juras bandeira
em meu mastro
a bolinar brincadeiras
a arrebentar os esgaços
fazer rasgos
tal quem rasga
a folha da alface
num disfarce
sensual e macabro

e quem me dera eu abro
o meu rabo
a um dedo de poesia
daquelas que me convencem
e ainda pense o que pense
sem eurekas e sem cautela
a segurar o candelabro
enquanto olha a vela

eis que escrever um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo tanto falso

wasil sacharuk

curta

 É só uma frase,

vai passar,
assim que chegar ao ponto.


wasil sacharuk


meus olhos

 meus olhos


meus olhos de folha seca
sem artifícios
sem princípios
nem delicadeza

híbridos de urdidura 
e aspereza

 olhar da tormenta
castanha escura
tanto cinzenta

wasil sacharuk




cunilinguagem

  cunilinguagem

desvela desvenda
      o plural  inconsciente
               conteúdos banidos 
         pensamentos bandidos
               os desejos tímidos
       as  convicções frouxas
   os insights sufocados 

 beija as doces coxas
      da musa sensorial 
   a língua ávida
docemente saliva
                   e recita
   palavra e forma

wasil sacharuk



meu intento

 meu intento


não estou para falar de amor
se ele ainda não dói nem rói nem pede flor

não há flores na minha poesia
as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
meu poema é heresia

conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

não falarei de coisas que desconheço
pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura

minha escrita é a riqueza que colho do meu presente mesmo que seja inventado
pois poeta mente mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

grito contra o que abomino e não suporto determinismo minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema

sou tipo existencialista meio insano
meio analista falso moralista talvez sartreano
tenho a marca da história todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória

sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças nem de almas penadas ou universais desavenças

eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira
pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

wasil sacharuk




desacordo ortográfico

  desacordo ortográfico

volto a usar o meu trema
com suas duas bolinhas
para botar no teu  ü

wasil sacharuk



hemisférico

 hemisférico


se eu tirar o teu norte
tu me dás o teu sul?

wasil sacharuk



insosso

 insosso 


 nem sei se ando 
ou se a vida me anda 
vou saindo e entrando 
a sina é quem manda 
vou cagando e andando 
que ela desencana 

sei de coisa sacana 
velhaca sacripanta 
vou catando bagana 
entoando meu mantra 
vivo a vida cigana 
 a cigana me encanta 

eu almoço a janta 
logo janto o almoço 
se a fome espanta 
eu encaro o osso 
só entala garganta 
se está meio insosso

wasil sacharuk





reciclagem

 reciclagem


deixem-me a sós 
com a poesia
ao infinito dos dias
quero engoli-la
mastiga-la inverte-la
quebrar os seus ossos

deixem-me a sós 
com a poesia
ao infinito dos dias
pelos dias que restam
acarinha-la
e reinventa-la
dos destroços

wasil sacharuk



planalto

  planalto

aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Brasília
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela quadrilha

não há como crer
no viés do poder
do executivo
do legislativo
ou judiciário

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

longe da democracia
que rola no planalto
o cidadão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita quadrilha

o que resta fazer
é não reeleger
os petistas
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiça
e nos dar mais trabalho

wasil sacharuk


versão para enganar a censura:

pl@n@lto

aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Br@síli@
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela qu@drilh@

não há como crer
no viés do p0der
do exekutiv0
do legisl@tiv0
ou judici@ri0

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

longe da dem0cr@ci@
que rola no pl@n@lto
o cid@dão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita qu@drilh@

o que resta fazer
é não reeleger
os p-tist@s
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiç@
e nos dar mais tr@b@lho

wasil sacharuk


estrada de ferro

  estrada de ferro


decerto não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

decerto não és hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas
bem cravados
a sustentar o ferro
na rota das vidas

wasil sacharuk


notas:

 "estrada de ferro" de Wasil Sacharuk oferece uma reflexão profunda sobre a materialidade e a funcionalidade de uma ferrovia, desprovida de qualquer vestígio de vida, emoção ou beleza. A linguagem é direta, quase descritiva, e o ritmo, marcado pela repetição e pela enumeração de elementos, simula a cadência monótona dos trilhos.

"decerto não és dormente". A palavra dormente, que no contexto ferroviário se refere à peça que sustenta os trilhos, é habilmente usada para evocar a ideia de algo que não sente dor, que não dorme, que não tem vida. Os elementos que compõem a ferrovia – "carris", "balastro", "cascalhos e pedra rolada" – são apresentados em sua crueza e inércia. A expressão "de ânimo ausente" reforça essa falta de vitalidade, atribuindo à própria ferrovia uma espécie de apatia. Não há vibração, não há alma, apenas a fria engenharia.

 "trilhos sem atalhos" A ausência de atalhos sugere uma rigidez, uma rota predeterminada sem desvios, sem liberdade. O "terrapleno sem sementes" é uma imagem poderosa da esterilidade, da incapacidade de gerar vida ou beleza. O poema declara explicitamente: "sem beleza ou poesia", demarcando a estrada de ferro como um espaço puramente utilitário, desprovido de qualquer valor estético ou inspirador. A "cama de britas" é apenas o suporte físico, sem adornos ou propósito além da função.

Na última estrofe, o eu-lírico novamente nega uma característica humana ou geográfica: "decerto não és hemisfério", reforçando a ideia de que a ferrovia não tem a complexidade ou a capacidade de abrigar vida como um hemisfério terrestre. Em vez disso, ela é definida pelos "tirafundos cansados" e pelas "gravilhas bem cravados", elementos que, embora exaustivos em sua função, são cruciais para "sustentar o ferro na rota das vidas". Essa é a grande ironia e a principal mensagem do poema: a ferrovia, em sua brutalidade e desumanização, é paradoxalmente o caminho que permite o fluxo e a continuidade das vidas, seja no transporte de pessoas, bens ou até mesmo sonhos e destinos. Ela não tem vida própria, mas é vital para a dinâmica da vida.

"estrada de ferro" se destaca pela sua abordagem minimalista e desglamourizada de um elemento tão presente na paisagem e na história humana. Wasil Sacharuk nos convida a olhar para o que está por trás do movimento e da funcionalidade, revelando a crueza e a ausência de alma em uma estrutura que, paradoxalmente, serve de suporte para a complexidade da existência humana.


insoneto

  insoneto

vi a alma pairar tal peça solta
a vagar pela casa de aluvião
vi o vento mexendo coisas mortas
no deserto das vidas sem razão

vi o corpo morrer à banca rota
e dever uma vela ao cramulhão
vi o verso perder-se em vias tortas
num soneto perverso e aleijão

vi mistérios baterem à minha porta
a cobrar a dura conta da emoção
uma soma de angústia em várias notas

vi fantasmas de assombro no salão
a arrastar as correntes e as botas
e matar-me de insônia sem perdão

wasil sacharuk



 "insoneto" de Wasil Sacharuk é um soneto irregular em termos de rimas e métrica, mas que mantém a estrutura de quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mergulha em uma atmosfera de desolação, angústia e desesperança. A linguagem é direta e imagética, evocando sensações de perda e vazio.

A estrofe inicial já estabelece o tom melancólico. A "alma pairar tal peça solta" sugere uma desconexão entre o eu e seu interior, uma alma sem rumo, perdida. A "casa de aluvião" é o corpo ou a própria existência, construída sobre bases instáveis e sujeita à desagregação. A imagem do "vento mexendo coisas mortas / no deserto das vidas sem razão" reforça a ideia de futilidade e vazio existencial, onde até o que resta é inanimado e sem propósito.

A expressão "dever uma vela ao cramulhão" é uma metáfora poderosa para uma dívida com o mal ou com o destino, uma alma vendida ou comprometida. A referência ao "verso perder-se em vias tortas / num soneto perverso e aleijão" é uma metalinguagem interessante. O próprio ato de escrever, de dar forma à dor, é corrompido, tornando-se "perverso e aleijão", talvez refletindo a deformidade da própria existência do eu lírico.

> vi mistérios baterem à minha porta
> a cobrar a dura conta da emoção
> uma soma de angústia em várias notas

Esta estrofe intensifica o sentimento de opressão. Os "mistérios" que batem à porta representam o confronto inevitável com as verdades dolorosas da vida, as questões sem resposta que atormentam a mente. A "dura conta da emoção" e a "soma de angústia em várias notas" evocam a ideia de um acúmulo de sofrimento, um débito emocional que precisa ser pago, uma carga insuportável de dor que se manifesta de diversas formas.

Os "fantasmas de assombro no salão" são as manifestações concretas dos medos, das culpas e das preocupações que assombram o eu lírico. As "correntes e as botas" sugerem o peso dessas aparições, a dificuldade de se libertar delas.

"insoneto" explora a profundidade da angústia existencial. A insônia não é meramente a ausência de sono, mas a consequência de uma alma em ruínas, assombrada por suas perdas, suas falhas e a inexorabilidade da dor. Wasil Sacharuk constrói uma atmosfera sufocante, onde o eu lírico se vê preso em um ciclo de tormento, sem esperança de redenção ou paz. O poema é um grito silencioso de desespero diante da insignificância da vida e da impossibilidade de escapar dos próprios fantasmas.


fundição

  fundição

no lapso resvalo
até o córrego
fiapo líquido
escorre trôpego
a inundar o declive

desliza suave
ao anel negro diamante

na cavidade
o ferro forjado
 brasa ardente
encontra o encaixe

wasil sacharuk



Escreve literatura

 Escreve literatura


Expressa-te. Que digas, não importa o quê… Escreve, e não importa como, no entanto, expressa-te.

Escolhe as melhores palavras,. aquelas que dizem, as que te significam, que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere as  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga o plasma do teu universo interior.

Dispensa a línguagem geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu mundo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e que não perca o contato com o real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas artesão das belezas e  significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, importa elaborar o percurso e fazer cadente e musical, tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém o ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontra a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

wasil sacharuk



récita I I

 

009

Nas fendas do meu peito
habitam as plantas carnívoras do desejo
germinam respostas
que não são flor nem espinho
minha úmida escuridão
é o solo onde as orquídeas criam raizes

wasil sacharuk 


010 

tu sempre partes
tão eloquente
tão necessária
como quem sabe que o regresso
só tem valor
quando se atravessa
a distância inteira
caminho solitário
imprescindível
para o retorno transformador
o amor que escolhe permanecer
não é resignado
é o mais selvagem rebelde
há santidade em amar
a quem sabe voltar

wasil sacharuk



011 

Ouço a culpa chegar
mas já não me surpreende
ela vem sempre com o frio
sussurrando nomes
colei meu ouvido na parede
o vazio grita mais alto que qualquer voz

wasil sacharuk


012 

a cama que transbordava umidade e desejo
virou sepultura
murcha como fruta esquecida
nossas mãos não se tocam
desaprendemos a nossa linguagem
e ninguém chora por isso
minha garganta queima com palavras
sem destinatário.
Falo sozinha
Falo para as paredes
que absorvem minha loucura
como quem bebe água

wasil sacharuk


013

a aranha do tempo
tece seus fios
em meus ossos
há certa ternura na destruição
que me paralisa
e apenas observo
os medos antigos
retornam como hóspedes
que nunca saíram
escondidos detrás das cortinas

wasil sacharuk


014

trinta mil incêndios
me devoram por dentro
centenas de órbitas de desejo
giram em torno do teu corpo
como planetas sem lei
uma melodia vibra as cordas
onde pendem nossas vidas,
as aves afinam seus gritos
nas lâminas do meu silêncio

wasil sacharuk




tu vês?

 tu vês?


não apenas me olha
               explora-me
          bem no fundo
consegues?

percebe minha face
   as rugas finalizam
              meus traços 
tu vês?

toca minha barba
a mistura de cores
todas as que tive
do vermelho ao branco
os castanhos diversos

eis que gosto dos brancos
                       pois vê
tal viste aos tempos
         em cada fração
um desígnio

do meu charme
o toque especial
remonta histórias
que o tempo vai contar
               eventos comuns
descrevem um homem 
de um tipo real

wasil sacharuk







opus para flauta

 opus para flauta


ao avesso
olhos adentro
atravesso
meus versos cancioneiros
navegam à revelia

as três marias
apontam universos
paralelos

a deusa
dança nas nebulosas
opus de flauta
doce e singelo

emissões úmidas
singular dialeto
declamam de um jeito
estranhamente belo

wasil sacharuk



pelada

 pelada 


Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhada. Parti ao encontro da palavra pelada das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

wasil sacharuk 



inteira ou não é


inteira ou não é

ela não!
não é a mulher
que adora entre lençóis
ela aprende
 lentamente
que o amor persiste
quando o adorno cai
os lençóis se rasgam
e o rei nu
desce do trono
para descobrir
que é apenas
um homem

tão bela
tão si mesma
mas não quer ser espelho
pois a beleza
é domesticável
ela é a mulher
que conhece
a própria sombra
e não a nega

ela não se dá
em pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

mulher ela é
a que não se rende
no seu próprio deserto
se a chuva atravessa
vai deixar cicatriz

ela sabe
o que alimenta
ela sabe
o que adorna a fome
e que só ela
alimenta a própria boca
com o que colhe
em si mesma

ela não vive
aos pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

wasil sacharuk



hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

wasil sacharuk





SACHARUK - HIPOTENUSA Full - poesia falada


SACHARUK - HIPOTENUSA 

Hipotenusa da Alma: Wasil Sacharuk e a Poesia que Recusa o Ângulo Reto

HIPOTENUSA nos conduz por uma jornada onde a matemática encontra a melancolia. O poema abre com uma metáfora geométrica poderosa: a vida como uma hipotenusa, uma linha que foge do óbvio, do "ângulo reto", para se perder em rimas mal inclusas e sonetos que se desdobram em quartetos de dor.

A obra é um mosaico de reflexões sobre a identidade, a feminilidade inteira e a finitude. Wasil transita entre a rigidez dos catetos e a fluidez do vento, descrevendo uma mulher que "não se dá em pedaços" e que conhece a própria sombra. Há um mergulho profundo na solidão e no tempo, onde o poeta se vê reduzido a "sonoros substantivos", alimentando-se da própria palavra para sobreviver ao vazio.

 Wasil humaniza conceitos abstratos. Ele não apenas diz; ele atravessa os versos "olhos adentro". É uma obra essencial para quem busca uma poesia que não se rende ao óbvio e que celebra a beleza da imperfeição e da integridade humana. Ele nos fala de uma escrita que recusa o óbvio e de uma busca incessante pela palavra "pelada das roupas, das crenças e das ciências".

Wasil nos lembra que, no fim, talvez sejamos feitos apenas de palavras, mas são essas palavras que nos alimentam e nos permitem sapatear com o verbo diante do tempo insano.

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"O vazio grita mais alto que qualquer voz."
"A beleza é domesticável. Ela é a mulher que conhece a própria sombra e não a nega."

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