009
Nas fendas do meu peito
habitam as plantas carnívoras do desejo
germinam respostas
que não são flor nem espinho
minha úmida escuridão
é o solo onde as orquídeas criam raizes
wasil sacharuk
010
tu sempre partes
tão eloquente
tão necessária
como quem sabe que o regresso
só tem valor
quando se atravessa
a distância inteira
caminho solitário
imprescindível
para o retorno transformador
o amor que escolhe permanecer
não é resignado
é o mais selvagem rebelde
há santidade em amar
a quem sabe voltar
wasil sacharuk
011
Ouço a culpa chegar
mas já não me surpreende
ela vem sempre com o frio
sussurrando nomes
colei meu ouvido na parede
o vazio grita mais alto que qualquer voz
wasil sacharuk
012
a cama que transbordava umidade e desejo
virou sepultura
murcha como fruta esquecida
nossas mãos não se tocam
desaprendemos a nossa linguagem
e ninguém chora por isso
minha garganta queima com palavras
sem destinatário.
Falo sozinha
Falo para as paredes
que absorvem minha loucura
como quem bebe água
wasil sacharuk
013
a aranha do tempo
tece seus fios
em meus ossos
há certa ternura na destruição
que me paralisa
e apenas observo
os medos antigos
retornam como hóspedes
que nunca saíram
escondidos detrás das cortinas
wasil sacharuk
014
trinta mil incêndios
me devoram por dentro
centenas de órbitas de desejo
giram em torno do teu corpo
como planetas sem lei
uma melodia vibra as cordas
onde pendem nossas vidas,
as aves afinam seus gritos
nas lâminas do meu silêncio
wasil sacharuk