domingo, 3 de maio de 2026

récita I I

 

009

Nas fendas do meu peito
habitam as plantas carnívoras do desejo
germinam respostas
que não são flor nem espinho
minha úmida escuridão
é o solo onde as orquídeas criam raizes

wasil sacharuk 


010 

tu sempre partes
tão eloquente
tão necessária
como quem sabe que o regresso
só tem valor
quando se atravessa
a distância inteira
caminho solitário
imprescindível
para o retorno transformador
o amor que escolhe permanecer
não é resignado
é o mais selvagem rebelde
há santidade em amar
a quem sabe voltar

wasil sacharuk



011 

Ouço a culpa chegar
mas já não me surpreende
ela vem sempre com o frio
sussurrando nomes
colei meu ouvido na parede
o vazio grita mais alto que qualquer voz

wasil sacharuk


012 

a cama que transbordava umidade e desejo
virou sepultura
murcha como fruta esquecida
nossas mãos não se tocam
desaprendemos a nossa linguagem
e ninguém chora por isso
minha garganta queima com palavras
sem destinatário.
Falo sozinha
Falo para as paredes
que absorvem minha loucura
como quem bebe água

wasil sacharuk


013

a aranha do tempo
tece seus fios
em meus ossos
há certa ternura na destruição
que me paralisa
e apenas observo
os medos antigos
retornam como hóspedes
que nunca saíram
escondidos detrás das cortinas

wasil sacharuk


014

trinta mil incêndios
me devoram por dentro
centenas de órbitas de desejo
giram em torno do teu corpo
como planetas sem lei
uma melodia vibra as cordas
onde pendem nossas vidas,
as aves afinam seus gritos
nas lâminas do meu silêncio

wasil sacharuk




tu vês?

 tu vês?


não apenas me olha
               explora-me
          bem no fundo
consegues?

percebe minha face
   as rugas finalizam
              meus traços 
tu vês?

toca minha barba
a mistura de cores
todas as que tive
do vermelho ao branco
os castanhos diversos

eis que gosto dos brancos
                       pois vê
tal viste aos tempos
         em cada fração
um desígnio

do meu charme
o toque especial
remonta histórias
que o tempo vai contar
               eventos comuns
descrevem um homem 
de um tipo real

wasil sacharuk







opus para flauta

 opus para flauta


ao avesso
olhos adentro
atravesso
meus versos cancioneiros
navegam à revelia

as três marias
apontam universos
paralelos

a deusa
dança nas nebulosas
opus de flauta
doce e singelo

emissões úmidas
singular dialeto
declamam de um jeito
estranhamente belo

wasil sacharuk



pelada

 pelada 


Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhada. Parti ao encontro da palavra pelada das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

wasil sacharuk 



inteira ou não é


inteira ou não é

ela não!
não é a mulher
que adora entre lençóis
ela aprende
 lentamente
que o amor persiste
quando o adorno cai
os lençóis se rasgam
e o rei nu
desce do trono
para descobrir
que é apenas
um homem

tão bela
tão si mesma
mas não quer ser espelho
pois a beleza
é domesticável
ela é a mulher
que conhece
a própria sombra
e não a nega

ela não se dá
em pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

mulher ela é
a que não se rende
no seu próprio deserto
se a chuva atravessa
vai deixar cicatriz

ela sabe
o que alimenta
ela sabe
o que adorna a fome
e que só ela
alimenta a própria boca
com o que colhe
em si mesma

ela não vive
aos pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

wasil sacharuk



hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

wasil sacharuk





SACHARUK - HIPOTENUSA Full - poesia falada


SACHARUK - HIPOTENUSA 

Hipotenusa da Alma: Wasil Sacharuk e a Poesia que Recusa o Ângulo Reto

HIPOTENUSA nos conduz por uma jornada onde a matemática encontra a melancolia. O poema abre com uma metáfora geométrica poderosa: a vida como uma hipotenusa, uma linha que foge do óbvio, do "ângulo reto", para se perder em rimas mal inclusas e sonetos que se desdobram em quartetos de dor.

A obra é um mosaico de reflexões sobre a identidade, a feminilidade inteira e a finitude. Wasil transita entre a rigidez dos catetos e a fluidez do vento, descrevendo uma mulher que "não se dá em pedaços" e que conhece a própria sombra. Há um mergulho profundo na solidão e no tempo, onde o poeta se vê reduzido a "sonoros substantivos", alimentando-se da própria palavra para sobreviver ao vazio.

 Wasil humaniza conceitos abstratos. Ele não apenas diz; ele atravessa os versos "olhos adentro". É uma obra essencial para quem busca uma poesia que não se rende ao óbvio e que celebra a beleza da imperfeição e da integridade humana. Ele nos fala de uma escrita que recusa o óbvio e de uma busca incessante pela palavra "pelada das roupas, das crenças e das ciências".

Wasil nos lembra que, no fim, talvez sejamos feitos apenas de palavras, mas são essas palavras que nos alimentam e nos permitem sapatear com o verbo diante do tempo insano.

 👇

"O vazio grita mais alto que qualquer voz."
"A beleza é domesticável. Ela é a mulher que conhece a própria sombra e não a nega."

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anjos tocam falácias

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