récita IV
019
há uma linguagem
de quem compreendeu
que o amor não é escolha
é geografia do corpo
é o lugar onde se nasce
sem ter pedido para nascer
os demônios nos ombros
as flores órfãs
o elefante de patas longas
caminha sobre os sonhos
pois o que toca
é essa confissão final
essa urgência em sangrar
para não enlouquecer
de ser quem se é
porque a ferida
é o único lugar
onde a gente ainda respira
quando tudo mais sufoca
wasil sacharuk
020
ouço a voz que se desdobra
primeiro ferida
depois néctar
depois o sangue que salva
é a voz de quem conhece
o peso exato da contradição
de quem habita simultaneamente
a recusa e o desejo
a morte e a ressurreição
reconheço o ritmo que pulsa
quando o corpo aprende
que amar é uma loucura necessária
wasil sacharuk
021
meus demônios habitam meus ombros
como corvos que conhecem meu nome
observam-me devorar espinhos
quando a revolta queima por dentro
o céu chove chumbo
o ouro que brilhava nos olhos vira cinza
eu grito para que meu próprio eco
me confirme vivo
meus demônios quando sorriem
minha fúria se dissolve
sentam-se comigo
pequenos e estranhos
para escutar o canto selvagem
que brota de minhas entranhas
wasil sacharuk
022
dança
mas não a dança graciosa
dança entre as flores apodrecidas
entre as raízes que se enroscam
em umbrais esquecidos
entre as chamas que consomem tudo
cobriremos de concreto o que era verde
e os pássaros levarão suas sementes
para o túmulo esquecido
wasil sacharuk
