001
tudo muda
em absoluto
mas nada se vai
as coisas
se reposicionam
nos interstícios
do que fomos
wasil sacharuk
002
não sei chorar
pelo canto do olho
apenas sei
chorar pelo avesso
por aquilo que não consegue sair
pelo que fica preso na garganta
como uma ave que recusa o voo
wasil sacharuk
003
más lembranças
já nascem corrompidas
já trazem em si
a própria putrefação...
boas lembranças
essas sim
exigem certo luto
enquanto morrem lentamente
dia após dia
enquanto fingimos
que ainda respiram
wasil sacharuk
004
ela peneirava a areia
eu observava que ao pó
não se separa
o pó se metaboliza
narinas adentro
incorporado ao processo
da respiração
wasil sacharuk
005
no canto do quarto
vejo uma teia
que a aranha tece sem pressa
sem arrependimento
sabendo que cada fio é uma sentença
wasil sacharuk
006
escrevemos lapsos poéticos
não para escapar da realidade
mas para habitá-la de forma diferente
como quem dança sobre cacos de vidro
e chama isso de liberdade
wasil sacharuk
007
éramos Hera e Hades
numa foda sem hierarquia,
nem divindade....
o fogo que não precisa
de nomes razões e conceitos
para queimar....
grito salto loucura cadência
os sons que faz o corpo
quando se reconhece inteiro
em outro corpo
wasil sacharuk
quando findar nossa maldita existência
não haverá resistência
porque já não há nada a resistir
seremos apenas o que sempre fomos:
duas estranhezas
que se tocaram uma vez
e passaram o resto da vida
tentando esquecer o gosto da verdade
wasil sacharuk