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maio24

maio24

Lembro quando a natureza, naquele dia de maio, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre os telhados, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas e serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.







oigalê

 oigalê


o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk







bandas da saudade

 bandas da saudade


sessenta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para o índio assar solito
sem fumo 
sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
entorno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro
cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte
espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas
mas hoje a saudade não ganha
boto um liso de cana
ouvindo milongas do Plata
saudade cantada não mata

jogo no braseiro
tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote
espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte

wasil sacharuk








estrelas calaveras

  estrelas calaveras


no pampa estendido pela distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada afagando o guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
esquentar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
daquela chinoca bonita

um regalo escolhido a capricho
comprado lá na fronteira
um novo corte de chita
ou qualquer outra fazenda
que deixasse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já eu encilho o futuro
no más meu chapéu eu penduro
num prego pelo barbicacho
descanso a bombacha e as botas
tenteio o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

num trago eu afogo as queixas
já que a saudade não deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartaram dos velhos pelegos
a minha xirua faceira

wasil sacharuk 








carrossel de hologramas

 carrossel de hologramas 


tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
e nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixarei flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeada pela trepadeira
e te levarei ao meu sonho
com cores de primavera

wasil sacharuk








prados longínquos

 

prados longínquos

nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

wasil sacharuk








SACHARUK - OIGALÊ Full poesia falada spoken word

 

SACHARUK - OIGALÊ 

 O Renascer das Águas e da Poesia

 Em uma performance que transita entre o lirismo do pampa e a crueza da realidade urbana, o poeta Wasil Sacharuk entrega um relato emocionante sobre a finitude, a memória e a reconstrução necessária após a avalanche das águas.. Sacharuk começa com o "desenredo" da vida e a aceitação da morte, que "não guarda mistério, mas leva rumo tramposo". Ele utiliza um vocabulário rico em regionalismos (galdério, pingo, minuano, pilcha) para situar o espectador no rincão. 

O ponto de virada ocorre quando a poesia deixa o campo bucólico e mergulha na tragédia de maio. O poeta descreve com precisão cirúrgica o cenário de desespero: crianças nos telhados, militares com vozes embargadas e a "essência da vida a se destemperar líquida". É um testemunho histórico transformado em arte, onde o medo se transmuta em vontade de existir.

"A morte não guarda mistério, mas leva rumo tramposo, que derruba e nunca dá pouso."

"O que restou do nosso universo não enche um verso."

"De cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir."

"Das sementes da gratidão sempre brotará a nova coragem para recomeçar."

Vale assistir a esta performance não apenas pela beleza estética do Spoken Word, mas pela sua função social. Sacharuk não apenas declama; ele exorciza a dor coletiva e planta a esperança de que, mesmo após a destruição, a vida — e a praça — podem ter "novos brinquedos" e uma nova natureza.

"O que restou do nosso universo não enche um verso." 🌾

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