S∆CH∆R√K
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor era descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusava a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
outro sentido
outro sentido
eu nada sei
acerca do amor
como anda no tempo
cultiva orquídeas
e orbita os planetas
sob a mira do sol
aprendi nada mais
que dezenas de formas
de florir nessa terra
em seus vários quintais
agora estou cansada
tão cansada
da existência enfadonha
do peso dos meus ossos
desse cheiro de carne
preciso que o amor
pregue asas em minhas costas
e talvez as mesmas coisas
vistas lá de cima
ganhem outro sentido
lá de cima
lá de cima
existe um além
outras cores
outro sentido
wasil sacharuk
contabilidade
contabilidade
âmago
âmago
és a presa
eu o demônio
meu hálito vermelho
invade tua boca
contra tua vontade
tão indefesa
ao âmago do etéreo
a tudo fiz meu
tudo!
teu útero
wasil sacharuk
raimundo o mundo
raimundo o mundo
raimundo o mundonao é para os fracos
precisa do veneno da serpente
e o bando de delinquentes
sob um discurso simulacro
a requenguela acredita
balança o rabo e grita
replica tal papagaio
e pula feito macaco
wasil sacharuk
Naquele dia
Naquele dia
Lembro quando a natureza, naquele dia de maio, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes.
O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.
Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.
Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.
Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam.
Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade.
Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.
Sobre os telhados, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.
Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas e serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência.
Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar.
Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer.
Todavia, de cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram.
Era para ser novamente. E assim é.
Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.
Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.
meus óculos precisam de lentes
meus óculos precisam de lentes
andei e não cheguei
a lugar algum
feito um caetano
há tantos anos
os documentos
agora espero
metabolizo poesia
e decerto não poderia
fazer diferente
não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes
estive em busca de mim
e no fim
estive ausente
andei de frente para trás
andei de trás para frente
acho que sei
como funciona
o processo da mente
que agrega valor
e arquiva seus bytes
em rabiscos de amor
num beat eloquente
andei e não cheguei
a lugar algum
na última vez que veio ao sul
meu saudoso amigo raul
baixou no meu terreiro
bebeu da minha marafa
e ainda roubou meu isqueiro
está circunscrito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
não duvide
não duvide
ja vi a palavra
romper fortalezas
sarar chagas tantas
encurtar a distância
entre espíritos dissonantes
simplificar o complexo
e curvar os gigantes
aliviar aos dementes
serenar os intrépidos
vi também
o amor verter límpido
das pedras da nascente
wasil sacharuk
poesia não vale a pena
poesia não vale a pena
récita IV
récita IV
019
há uma linguagem
de quem compreendeu
que o amor não é escolha
é geografia do corpo
é o lugar onde se nasce
sem ter pedido para nascer
os demônios nos ombros
as flores órfãs
o elefante de patas longas
caminha sobre os sonhos
pois o que toca
é essa confissão final
essa urgência em sangrar
para não enlouquecer
de ser quem se é
porque a ferida
é o único lugar
onde a gente ainda respira
quando tudo mais sufoca
wasil sacharuk
020
ouço a voz que se desdobra
primeiro ferida
depois néctar
depois o sangue que salva
é a voz de quem conhece
o peso exato da contradição
de quem habita simultaneamente
a recusa e o desejo
a morte e a ressurreição
reconheço o ritmo que pulsa
quando o corpo aprende
que amar é uma loucura necessária
wasil sacharuk
021
meus demônios habitam meus ombros
como corvos que conhecem meu nome
observam-me devorar espinhos
quando a revolta queima por dentro
o céu chove chumbo
o ouro que brilhava nos olhos vira cinza
eu grito para que meu próprio eco
me confirme vivo
meus demônios quando sorriem
minha fúria se dissolve
sentam-se comigo
pequenos e estranhos
para escutar o canto selvagem
que brota de minhas entranhas
wasil sacharuk
022
dança
mas não a dança graciosa
dança entre as flores apodrecidas
entre as raízes que se enroscam
em umbrais esquecidos
entre as chamas que consomem tudo
cobriremos de concreto o que era verde
e os pássaros levarão suas sementes
para o túmulo esquecido
wasil sacharuk
um algo
um algo
A morte não é um clichê - oficina de criação
A morte não é um clichê
A ESTÉTICA DOS DESADORNOS DE WASIL SACHARUK
Estética: A Matéria sem Filtros
A proposta estética de Sacharuk reside na desconstrução do "belo" tradicional. O poeta estabelece um compromisso ético e estético com a crueza. Seus poemas são povoados por elementos de forte presença tátil e peso físico — ferro, gesso, mármore, sal, vísceras, sangue. Há uma recusa sistemática à metáfora etérea ou puramente intelectualizada. O poema se constrói como um objeto concreto, quase geológico.
O cotidiano claustrofóbico: Elementos simples do dia a dia (como o balanço de roupas no varal ou a travessia de uma rua) são carregados de uma tensão latente. A realidade ordinária é constantemente tensionada pelo fantasma da finitude e da incomunicabilidade.
Espiritualidade telúrica: O sagrado em sua poesia não ascende aos céus; ele se enterra. É uma espiritualidade que se manifesta na carne, no apodrecimento, na persistência da matéria e no confronto estoico com a morte.
O Corte e a FragmentaçãoOs versos de Sacharuk rejeitam a simetria métrica tradicional. Eles se estruturam sob a lógica da fratura: curtos e isolados. Muitas vezes, uma única palavra ou uma imagem breve ocupa uma linha inteira, funcionando como um bloco isolado de sentido. Isso obriga o leitor a uma leitura verticalizada, onde o espaço em branco da página (ou da tela do blog) ganha peso de silêncio.
O ritmo na poesia de Sacharuk é ditado pelo corpo e pela necessidade de oxigênio. Não há a cadência regular da canção, mas sim a irregularidade do batimento cardíaco ou da respiração sob pressão.
A apneia: O ritmo simula a falta de ar. O poema se desenvolve em blocos de emissão rápida de voz, seguidos por suspensões abruptas. O silêncio entre os versos não é apenas uma pausa de leitura, mas uma interrupção física do fluxo de ar.
Sincopamento e Spoken Word: Na transposição do texto para a voz (comum em suas récitas acompanhadas de trilhas sonoras densas ou experimentais), o ritmo ganha contornos de jazz ou de rap alternativo. A palavra falada não se submete à música; ela disputa espaço com ela, criando uma polirritmia onde a voz hesita, acelera ou se arrasta de forma imprevisível.
Repetições rituais: O uso de anáforas (repetição de palavras no início de versos sucessivos) funciona como uma batida de metrônomo, ancorando o poema em uma pulsação obsessiva que acumula tensão até o desfecho.
A linguagem de Sacharuk é feita de matérias-primas brutas: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Não há distância lírica aqui. As imagens não fluem com elegância; elas cortam, rasgam, perfuram. Essa escolha de vocabulário não é casual—é uma recusa deliberada ao refinamento ornamental, uma insistência em confrontar o leitor/ouvinte com substâncias reais, densas, inescapáveis.
Ao recusar o adorno, Wasil Sacharuk transforma o poema em um corpo exposto: um organismo feito de ossos fonéticos, músculos rítmicos e uma respiração que se recusa a simular uma harmonia que não existe na experiência humana.
Wasil Sacharuk oferece uma poesia sem ornamento, que recusa o conforto da abstração lírica. Sua estética é a do enfrentamento direto com a morte, o desejo, a matéria. O ritmo é respiratório, vocalizado, visceral. Os sons cortam mais do que acariciam. E em tudo isso há uma dignidade radical—a recusa de mentir, de embelezar o insuportável.
Sua obra constitui um exercício de escavação existencial, um mergulho sem adornos na crueza da experiência humana.
AS MUSAS NA POESIA DE WASIL SACHARUK
A obra de Wasil Sacharuk revela uma relação visceral e quase anatômica com suas musas. Elas não são figuras etéreas ou idealizadas no sentido clássico; são entidades de carne, sombra e resistência, que forçam o poeta a um confronto constante com sua própria finitude e crueza. São de Natureza Selvagem, rebelde e autossuficiente e têm por função provocar a transmutação do poeta através da dor e do desejo. Um embate de forças onde "quem é caça" e "quem é caçador" se confunde.
A Musa como Espelho e Sombra
Psicologicamente, a musa em Sacharuk não serve para o consolo, mas para a desestabilização. Ela é frequentemente retratada como uma força autônoma que "conhece a própria sombra e não a nega" (Inteira ou não é).
Há uma recusa clara à musa-objeto. A mulher descrita pelo poeta "não se traduz nos versos alheios" e "é inteira ou não é". Isso indica uma projeção psicológica de alguém que busca no outro uma completude que não aceita fragmentações ou submissões.
Dualidade Arquetípica (Hera e Hades):
Em poemas como Récita I, a relação é descrita como uma "foda sem hierarquia nem divindade". As musas transitam entre o sagrado e o profano, o acolhimento e a violência. Elas são, simultaneamente, a "brisa leve" que acarinha e a "ave carnívora" que bica até verter sangue (Dono das Horas).
Enfrentamento da Morte:
A musa é a parceira no "sapateado sobre cacos de vidro". Ela compartilha com o poeta a lucidez cruel de que o amor é uma forma de resistência em um mundo que "metaboliza o pó".
A Estética do Desadorno
Literariamente, as musas de Sacharuk são o motor de uma linguagem que ele mesmo define como brutal e desadornada. Elas exigem uma poesia que recusa o "ângulo reto" (Hipotenusa).
As musas são associadas a elementos táteis e densos: sangue, gesso, ferro, sal e vísceras. Elas não inspiram rimas fáceis, mas "lapsos poéticos" que habitam a realidade de forma diferente.
A Metáfora da Escultura:
Em Camille, a musa é invocada como uma escultora (referência a Camille Claudel). O poeta pede para ser recriado na "pedra mais fria", sugerindo que a influência feminina em sua obra é um processo de desbaste, de corte e de entalhe verdadeiro.
Dialeto Singular:
A comunicação com a musa ocorre através de uma "linguagem desaprendida" ou de "emissões úmidas". O amor é um "pacto de sangue" que goteja pelos cantos da boca, transformando a lírica em um evento sensorial e eletromagnético (Chuva e Raio).
As musas de Wasil Sacharuk são, em última análise, a personificação da própria poesia dele: pelada de roupas, crenças e ciências, existindo apenas na verdade nua do impacto entre dois corpos e duas estranhezas.
récita III
récita III
015
um sussurro nasce
quando a solidão se torna festiva
quando o que caminha sobre nós
não pesa
tu vens assim
não como afirmação
mas como pergunta
que o corpo entende antes da boca
teu amor não é o meu
é o que atravessa o rio seco
e encontra nas águas evaporadas
uma razão para continuar
016
na noite das constelações caladas
o grito ainda encontra ouvidos
és o rio manso rio que dobra os braços
e também és o fim que se faz início
a chuva chega fora de estação
temporã e serôdia
trazendo vida onde a vida era extinta
e reconheço a minha vastidão
feita do teu fragmento
que permanece em mim
pequeno e luminoso
como orquídea que brotou
em solo impossível
wasil sacharuk
018
ahhhh menina!
moras em mim
numa chama inquieta
como em mim
mora a sina
obsoleta e chinfrim
de querer ser poeta
teu poeta!
SACHARUK - LIRA RESSONANTE Full - poesia falada spoken word
SACHARUK - LIRA RESSONANTE
A Eloquência que Perfura o Concreto
🖋️✨Wasil Sacharuk nos entrega uma performance visceral de Spoken Word que desafia o óbvio. Entre "flores esquizofrênicas" e "águas benta atômicas", o poeta nos conduz por um labirinto de emoções reais e sem filtros.
É poesia que não aceita encosto, que desafina para ser verdadeira e que encontra beleza até no solo impossível.
Wasil Sacharuk não apenas recita; ele exorciza. Através de uma performance que transita entre a impertinência e a vulnerabilidade, o poeta nos convida a abandonar conceitos pré-moldados para mergulhar em uma estética onde a palavra é, ao mesmo tempo, arma e cura.
Começa com uma afirmação de independência e não-conformidade, desafiando o espectador a aceitar o "jeito impertinente" do eu lírico. Em seguida, a obra mergulha em imagens surreais e naturais — dunas de areia, orquídeas esquizofrênicas e rios secos — para falar de criação, amor e a própria desilusão com a figura do "poeta fada".
A performance é marcada por uma musicalidade constante. Wasil utiliza o ritmo e as pausas para enfatizar o peso das palavras, alternando momentos de fala direta com trechos cantados que elevam a carga emocional. O cenário e a trilha sonora criam uma atmosfera de "embriaguez criativa", onde o "labirinto dos verbos" se torna o palco principal.
"Se minha eloquência perfura o concreto pré-moldado da tua essência, reinventa teus conceitos."
"Cultivamos orquídeas e outras flores esquizofrênicas." — A beleza que nasce do caos e do incomum.
"Teu amor não é o meu, é o que atravessa o rio seco." — A resiliência e a alteridade no afeto.
"Minha impossibilidade de amar sem destruir." — Uma confissão crua sobre a natureza humana e seus demônios.
Wasil Sacharuk foge da hipocrisia e do "confete" social para entregar uma poesia que "derrama sem régua". É um conteúdo essencial para quem busca uma arte que não pede licença para existir. 🎥👇
#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #ArteIndependente #PoesiaViva #Cultura #PerformancePoetica
lira ressonante
lira ressonante
cueiros pandos
cueiros pandos
de cueiros pandos
perdido no encanto
da velha diamba
ah poderia ser bamba
se um dia o pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida
quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
não faço prece
odeio hipocrisia
acho tudo normal
logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega
já contei a história
consulta tua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido no encanto
da velha diamba
de onde ninguém volta
lá a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo engov
palavra verso estrofe
wasil sacharuk
flores de sexta-feira
flores de sexta-feira
concreto
concreto
se minha eloquênciaperfura o concreto
pré-moldado da tua decência
reinventa teus conceitos
não julga o meu jeito
pois sou mesmo assim
tanto impertinente
no fim
posso ser incoerente
eis que não me compete
conformar ao teu gosto
pois não desejo confete
sequer quero encosto
wasil sacharuk
engano
engano
récita V
não me fales
da perfeição
sequer das ruínas
eu as sei
se sou fênix
a reunir resistências
ruínas contam
memórias das coisas
meus significados são coisas
eu sou coisa
que nem mesmo sei
,........
galga indomada
potra sem cilha
estribo ou sela
ancas escarranchadas
galopa desenfreada
corpo afora
.............
o benquererte
testou a complacência
da maré
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos
wasil sacharuk
de fastidio
de fastidio
wasil sacharuk
coruja
coruja
nem CapituIsaura sequer
Helena nem cogito
olhos literários
brilham por querer
encantam emocionam
são sempre bonitos
e teu olhar de coruja
na poesia ilumina
wasil sacharuk
sombras gasosas
sombras gasosas
as viúvas de gramsci
as viúvas de gramsci
desfez-se a distância
entre as lembranças
e o firmamento
não há mais lamento
restaram vinganças
as podres memórias
de militância
a história
redunda em vergonhas
falsas beligerâncias
artimanhas
percorre simplória
pela linha do tempo
entre tolos eventos
extremidades do fio
da ignorância
e as viúvas de gramsci
valsam impunes
com a ganância
wasil sacharuk
bússola
bússola🧭
só queria que sudeste 😁😜para mim o teu sul👁️
porém tu nordeste🚫🙀
e ainda disseste:📢🌬️🌪️
não no meu centroeste🔏🚫
nem depois da minha norte✝️⚰️🪦
hoje só dou minha bússola🚬🧭🛞🛟
wasil sacharuk
pro-piroxîtono
pro-piroxîtono
libertino
libertino
orégano rosa
orégano rosa
ignoro-te catarse poética
poema quando arrebenta
irrompe epiléptico
canais entrecruzados
fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação
sou vivente de bom coração
mas não carrego alma bucólica
provo da náusea do cotidiano
com natural sofreguidão
risco versos cibernéticos
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico
improviso o intento
de confessa manipulação
fantasia sofismo retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução
cada poesia tem sua rubrica
e não é isenta de posição
wasil sacharuk
trapiche das noites
trapiche das noites
pão
pão
colher de pau
nuanças verdes
nuanças verdes
debaixo daquela árvore
a sombra lembra o desígnio
tal um signo
feito fantasma
luz do espírito
ou apenas miasma
debaixo de árvores
enterram-se as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
daí brotam raízes
as fracas e as fortes
debaixo daquela árvore
há um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
porém dá na mesma
debaixo de árvores
riscam os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas
wasil sacharuk
fé de outro
fé de outro
sou viventee não sou tapete
pra cristão bater pé
sei muito bem como é
melhor ir descrente pra frente
do que ir crente de ré
cruzes e pedras
cruzes e pedras
trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
esmoreceu tanta luz
a renascença das trevas
quem teve fome de medo
carregou muita cruz
quem teve medo de fome
carregou muita pedra
orações e lamentos
largados ao vento
os vazios do amor
em sentenças e nomes
o suor de labor
e a lágrima da dor
nada mais que intentos
sejas o brasileiro
sejas o brasileiro
sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer
nada adianta
bancar o cidadão
que não és
nada adianta
ser destro ou canhestro
quando tua fuça
só aponta para baixo
nada adianta
discutir economia
quando não sabes
fazer uma conta "de mais"
catas moedas numa caneca
entre teus pés infestados
de frieira e de fungo
feito paspalho moribundo
enquanto passas pano
para todo esse bando
de políticos vagabundos
sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer
wasil sacharuk
três macaquinhos
três macaquinhos
você não vê
as marcas do escarcéu
condena o ateu
condena o incréu
não
você não vê
você nunca sabe
quando fudeu
entrega tudo a deus
que também nada sabe
muito menos
sei eu
você que não ouve
os gritos nesse bordel
os argumentos do réu
não
você não ouve
sequer ouço eu
você não entende
o que aconteceu
nem no inferno
e nem no céu
que não se entendem
nem eu
você que não fala
e vive nessa Babel
em pleno apogeu
não
você não fala
sequer falo eu
wasil sacharuk
o descrente
o descrente
antirrábico
antirrábico
"carbonos coloridos
comandante chegou conduzindo corporação. Camburão corria cheio carregando criaturas com capacetes comportando caixote contendo centenas carabinas. Cão cheirador chegou crispado, cheirando calças, cheirando chinelos, cantos, caixas. Confederados chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas, cara cara com cidadãos. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Cidadão, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo coberto com celofane. Conduziram cidadão chegando cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.
decomposição
decomposição
a peste no papel
poisa sem culpa
sépia envergado
palavras soltas
de esperanças perdidas
escolhas envelhecidas
cagadas de moscas
cabeças e patas
rimas açucaradas
rabiscos de caneta
outono das letras
estação das baratas
wasil sacharuk
o velho cu acentuado
o velho cu acentuado
meteu com tudoum acento agudo
no u do seu cu
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo
falou que no cu não se bota acento
a menos que o cú referido
seja por força de xingamento
wasil sacharuk
paradoxo
paradoxo
esse mundo
é assim mesmo
cheinho de gente
tantas diferenças
tantas crenças
goste eu disso ou não
de tão plural
até mesmo assusta
encerra a abstração
da similitude
incrível magia
que não me deixa saber
o que afinal eu sou
ao preço de ser diferente
decrépita
decrépita
a poesia está velha
claudica nas rimas rengas
rumina estrofes banguelas
falantes de amor cardiopata
musas decrépitas e guenzas
desfilam ao olhar catarata
wasil sacharuk
da falsa comiseração
da falsa comiseração
deixei de poupar energia
deixei de poupar energia
sabes da luz
que apagaste em mim?
pois acendi novamente
dispenso as penumbras
as maquinações imundas
sou por fim
um poeta diferente
sabes da luz?
coordeno orações
coordeno orações
procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas
peço paixão
ofereces motivos
queres cristão
peço-te vírgula
tu dás conetivo
depois pedes ação
e entrego-me sindético
leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação
o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações
a ti morena
tenhas certeza
escrevo meus versos
para te possuir
e provar tuas belezas
anjos tocam falácias
anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...
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lugar quando esse frio for embora quando essa chuva passar entre as canecas de café haverá para nós um lugar o mar deitar...
-
alívio busca o alívio pelo sangue que jorra dos buracos de faca nesse mar gosma verde nesse século de sede num dia de ressaca busca o alív...
-
contar estrelas maravilhoso é contar estrelas mas onde estou vejo apenas uma quando o céu ajuda as quatro e trinta quando saio para o t...




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