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Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor era descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusava a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
domingo, 3 de maio de 2026
récita I I
tu vês?
tu vês?
opus para flauta
opus para flauta
ao avesso
olhos adentro
atravesso
meus versos cancioneiros
navegam à revelia
as três marias
apontam universos
paralelos
a deusa
dança nas nebulosas
opus de flauta
doce e singelo
emissões úmidas
singular dialeto
declamam de um jeito
estranhamente belo
wasil sacharuk
pelada
pelada
inteira ou não é
ela não!
não é a mulher
que adora entre lençóis
ela aprende
que o amor persiste
quando o adorno cai
os lençóis se rasgam
e o rei nu
desce do trono
para descobrir
que é apenas
um homem
tão bela
tão si mesma
mas não quer ser espelho
pois a beleza
é domesticável
ela é a mulher
que conhece
a própria sombra
e não a nega
ela não se dá
em pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é
mulher ela é
a que não se rende
no seu próprio deserto
se a chuva atravessa
vai deixar cicatriz
ela sabe
o que alimenta
ela sabe
o que adorna a fome
e que só ela
alimenta a própria boca
com o que colhe
em si mesma
ela não vive
aos pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é
wasil sacharuk
hipotenusa
SACHARUK - HIPOTENUSA Full - poesia falada
quarta-feira, 8 de abril de 2026
récita I
001
dezesseis pétalas
dezesseis pétalas
peixes voadores
peixes voadores
sétimo
sétimo
dezesseis pétalas
dezesseis pétalas
récita I
terça-feira, 10 de março de 2026
os setembros
os setembros
mortes pequenas
mortes pequenas
chuva e raio
chuva e raio
wasil sacharuk
angústia
angústia
os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo
sem desculpas
sequer refúgio
só angústia
tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade
sem desculpas
sequer refúgio
só angústia
e não há deus que te guie
e não há deus que te salve
eu no mundo
eu no mundo
wasil sacharuk
eu gosto de flor
eu gosto de florsabenão é dissaborque meu ato encerrao fatoé que gosto de flormas do tipofincada na terraflor de cerejeiradoce mistérioflor de bagaceirafatal seduçãoflor de carpideiraletal cemitérioflor de trepadeiradá no verãosabenão é desamorque meu trato anunciatão ingratode fatoeu gosto de florempetalando versosda poesiawasil sacharuk
a bifurcação
a bifurcação
wasil sacharuk
poeta poeta
poeta poeta
vórtice ascendente
vórtice ascendente
tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros
toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis
náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.
mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.
despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro
a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.
apenas certezas
transmutadas
em escombros
wasil sacharuk
brisa leve
brisa leve
wasil sacharuk
versículos
Faltavam-lhe palavras.
apocalipse
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
parteiras
parteiras
as mãos trazem signos
registros do destino
a memória das sinas
estigma-raio ametista
pureza em vertente
dedos e falanges
os fluidos quentes
nas mãos parteiras
queima a febre
revolução indomável
o enlace da corda
senso e silêncio
choro e grito
osso e sangue
cartada da sorte
a dor da passagem
cicatrizes na porta
as mãos parteiras
trazem a voz
os fachos da luz
o primeiro vento
a apontar o futuro
no fio do muro
entre as dicotomias
parteiras
as mãos impulsionam
nuvens de sonhos
bálsamo e espinho
a dureza dos calos
num eterno caminho
das mãos parteiras
a criação inaudita
a sutileza do corte
extenso e profundo
a mais nova viagem
de mais outro louco
que insiste em testar
os arcanos do mundo
wasil sacharuk
pacto de sangue
pacto de sangue
a mim tomaste
sem reservas
ao amor descabido
de estranheza
e loucura
nada pôde nos conter
nada!
no nosso inferno
fui tua
abriguei-te em mim
insólito amor
dos membros marcados
com dentes afiados
pacto de sangue
gotejou pelos cantos
das nossas bocas
selvagemente meu
e eu
deliciosamente tua
devoramos pedaços
ao assalto dos poros
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
foste a causa
da minha insanidade
amor desmedido
para ti me fiz linda
incandescência
deusa de carne
invadiste meus mundos
todos todos
plena entrega
tua voz úmida
inundou o meu olhar
ficou para sempre
criaste raiz
nas minhas células
fui tua mulher
semeei o teu nome
nos campos na lama
com dor e prazer
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
wasil sacharuk
a cobiça
a cobiça
memórias em pó
memórias em pó
dor da saudade
dor da saudade
grãos de areia
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
a dor da saudade
sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
pulsando latente
debaixo da casca
da ferida
o tempo não apaga
o tempo não cura
somente acalanta
e ela anda silente
dentro da gente
sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
wasil sacharuk
vinho raro
vinho raro
wasil sacharuk
sábado, 31 de janeiro de 2026
contar estrelas
contar estrelas
dono das horas
flores de espera
flores de espera
amor abandono
amor abandono
ele desconheceu o impossível
desafiou tempo e espaço
Semeou no solo escasso
para provar seu poder
pelo simples saber fazer ser
a seu critério
lançou sementes
ao chão estéril
e logo fez chover
crescida
sua árvore do desejo
no tempo oportuno
gerou frutos doces
que lhe desceram
pela garganta
ao sobejo
a árvore esgotada
não mais o satisfez
nem sua intimidade
nem seu olhar
a árvore
do amor abandono
alheia à mão que a plantou
frutificou só por ser
sua natureza selvagem
vingou pelas matas
livre indiferente
silvestre
ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais
wasil sacharuk
meu doce diabo
meu doce diabo
destroços
destroços
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
camille
camille
ícaro negro
ícaro negro
facas de savanas
facas de savanas
minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto
e a pergunta é
devoro-te poeta?
mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora
devoro-te poeta?
ou me capturas?
entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor
sal e ferro
sal e ferro
wasil sacharuk
a unidade
a unidade
que nenhuma distância
separa dois corpos
no tempo e no espaço
surpreendeu-se
com as possibilidades
que falam línguas mortas
e perpassam sensações
percorrem caminhos insólitos
em trajes estranhos
a vida se estende além
do que rezam os livros
a natureza acomoda
grandezas incompreendidas
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
do seu quarto
ela viu e ouviu
provou os cheiros e gostos
das coisas distantes
com seus sentidos invisíveis
trocou olhares
com entes da floresta
conversou com as pedras
conheceu sua semelhança
com todas as coisas
e as coisas todas
a reconheceram
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
wasil sacharuk
um deus morre
um deus morre
um deus morre
ao abandono do íntimo
nas telas da publicidade
ao patrocínio das candidaturas
igrejas e nações
políticas e ditaduras
ao mote das facções
um deus morre
quando reside nas casas
entre códigos e domínios
ao conforto do trono
perante a servidão
quando crentes recitam
discursos medievais
um deus morre
cada vez mais
na fome no medo na dor
na corrupção no horror
onde não há um senhor
também não há satanás
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
um deus morre
pelos feixes de luz
que perpassam vitrais
e rebrilham no ouro
das paredes incrustadas
com as jóias de baal
um deus morre
na indiferença
das súplicas
à semelhança
dos súditos
mudo
mouco
em ruínas
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
wasil sacharuk
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
dama do xadrez
dama do xadrez
cunhã bailarinava
tal a dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez
seminua perambulava
descaminhos da noite
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite
ela dançava
tanto linda quanto louca
a sensual mímica da boca
entoava a toada
era ela e mais nada
índia mais linda da tribo
coisa mais sem sentido
morrer de morte matada
e seu canto
ninguém ouviu
seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite
cunhã bailarinava
dama do xadrez
a mais bela da tribo
dançava sem parar
coisa mais sem sentido
morrer depois de dançar
wasil sacharuk
anjos tocam falácias
anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...
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contar estrelas maravilhoso é contar estrelas mas onde estou vejo apenas uma quando o céu ajuda as quatro e trinta quando saio para o t...
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vagos vinténs vaga vasta vivos vãos variante vacilo vácuo! ventos virão virarão vendavais valentes vertentes varrerão vilipêndios varrerão...
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sentinela das tuas injúrias malditas arquitetei teu calabouço ofusquei a chama das velas nas oportunidades distintas que espreitei-te da ja...