lagarto de fogo

  lagarto de fogo

evita saber o mistério
das chamas que ardem
no meu império
não desafia aos exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

tenho três cabeças
de naturezas indivisíveis
são rendições à beleza
conduzirão-te rasteira
ao inferno das posses
e minhas pernas fortes
montarão as carapaças
de venenosos escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória
da morte aos inimigos

rasgarei-te os pulsos
verterei do sangue
a mim consagrado
com felinas garras

e um lagarto de fogo
deslizará em teu corpo
a devorar sem amarras
e logo te curvará
ao meu eterno reinado

wasil sacharuk








luz de amizade

 

luz de amizade

eu aprendi
bem pequenino
cruzar estradas
cortar caminhos
assim eu cresci
quando aprendi
a rodar moinhos

não sei parar
eu rodo sozinho
não sei parar
estou tão cansado
tão cansado

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
 pra casa

traduzi em poesia
as coisas confusas
que escutei do silêncio
na areia eu dormi
já morri de amor
e de amor já vivi
conheci os mistérios
contei luas cheias
nossa luz de amizade 

não sei parar 
estou tão cansado
cansado 

pronuncio teu nome
e ainda te procuro
pelos cantos do mundo
pela nossa lealdade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias 
amigo te peço:
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

amigo te peço 
amigo te peço 
pai
me leva pra casa 


wasil sacharuk







de tanto voar

 de tanto voar


ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk






nereida de gesso

 nereida de gesso 


Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcações 
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais

wasil sacharuk





meus demônios

 

meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

wasil sacharuk















fui princesa

  fui princesa 

certa vez eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém
 não foi o meu fim 

decerto custou a delicadeza 
bem
ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa

wasil sacharuk




SACHARUK - SIGNOS Full - poesia falada spoken word

 


tsunami

  tsunami

eu quis inventar a canção
porém tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

wasil sacharuk









vagalumando

 vagalumando 


habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas piscantes
espocando pela orla

wasil sacharuk







chuva no quintal

  chuva no quintal (meu novo mundo abissal)

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

wasil sacharuk










alma lua

 alma lua


a noite é companhia
logo não ando sol
tenho o corpo nuvens
a alma lua
faço raiar poesia

wasil sacharuk











cascatas de cachos graúna

 cascatas de cachos graúna


minha amada sempre fala das horas
conduz meus dedos
aos bancos de areias brancas
fatal sutileza
suave textura

despenca cascatas
de cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovida
murmúrios de encantos
língua insana 
doutro planeta

minha amada desprende 
poeira radioativa das dunas
logo colhe maçãs no parque

mas do que mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando minha amada 
se despe em poesia

wasil sacharuk










colírio

 colírio (vagalume)


se queres ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎sob o luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎sobre a secura do teu olhar

wasil sacharuk









SACHARUK - ALMA LUA Full - spoken word poesia falada


SACHARUK - ALMA LUA 

ALMA LUA, com poemas de Wasil Sacharuk, não é apenas uma leitura de versos; mas um convite a um mergulho sensorial onde a palavra falada se funde à musicalidade para explorar as profundezas da alma humana. Em uma sequência de seis poemas, o autor nos conduz por um arco dramático que vai da contemplação delicada da natureza ao confronto abissal com a própria existência.

"Se queres ver poesia, cata um pingo da próxima chuva numa garrafinha de vidro". Aqui, Sacharuk estabelece a tese de que a poesia não está no extraordinário, mas na capacidade de filtrar a luz através da "secura do olhar". A performance, marcada por entonações pausadas e um fundo musical onírico, reforça essa atmosfera de descoberta.

Em "Cascatas  cachos graúna", a poesia ganha corpo e sensualidade. O autor utiliza metáforas geográficas — bancos de areia, dunas, cascatas — para descrever o corpo amado. A tese central deste trecho é a desmaterialização do ser no ato poético: "o que mais gosto (...) é quando minha amada se despe em poesia". 

O ponto de virada ocorre com "Chuva no quintal". O tom solar dá lugar a uma melancolia profunda. A ausência dos gnomos simboliza o fim do encantamento infantil e a chegada de um "novo mundo abissal". Há uma "fome de paz" que transparece na interpretação quase suplicante . É o momento mais humano da obra, onde o "entardecer chora cristais e neblina".

Wasil Sacharuk  habita a penumbra dos subterrâneos e a luz do sol com a mesma intensidade. Vale assistir para entender como a poesia pode ser, ao mesmo tempo, um refúgio contra o "mundo absurdo" e um tsunami que nos liberta da prisão das certezas.

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feridas

 feridas


não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas
se a dor
não é tua escolha

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



infernos que jorram de ti

 infernos que jorram de ti


que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde plantarás flores
daquele tipo que brota
das sementes sagradas
dos medos rancores
verdades remotas
nessas tuas catarses

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se insere
no espelho da lua
enquanto brilhas
nos vãos das galaxias
mundos abissais
que se formam
nos cruzeiros das ruas
nos teus puteiros 
e nas tuas catedrais

que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde lapidarás cores
nas nuanças mais brutas
das tuas pedras lascadas
teus rochedos, temores
entidades mortas
que não mostram a face

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se reflete
nas palavras mais cruas
enquanto teces
versos a revelia
sobre as cores do dia
que se formam
quando o sol se insinua
talvez dia inteiro
ou talvez nunca mais

wasil sacharuk










heresia

 heresia


entre ser e essência
não há evidências
apenas os dogmas
sentenças e estigmas
forçosa doutrina
a mim não determina

pois prefiro a heresia
em vez da guerra fria
em nome das idolatrias

entre fé e descrença
não há diferença
apenas escolhas
escondidas vergonhas
de teor moralista
a mim não conquistam

pois prefiro a heresia
em vez da vã teoria
doutrina e teologia

entre crença e razão
não há argumentação
apenas falácia
nenhuma eficácia
sequer silogismo
à luz do tomismo

pois prefiro a heresia
a ver a Filosofia
ao fogo da inquisição

wasil sacharuk









estranha florista

 estranha florista


a estranha florista
pedala a bicicleta
atravessa a floresta
tanto chão pela frente
mas o universo conspira

da vertente
jorra água cristalina
ela pode beber
também pode banhar
a natureza é justa
 o tempo infalível
organiza tudo
no devido lugar

ela aprende
o que a vida ensina
quando ouve as pedras
logo diz para as flores
que coisas pequeninas
podem ser muito belas

e só ela percebe 
quando a rosa calada
 chora suas feridas
e despetalada
se despede da vida

pela estrada
seu amor corre líquido
rega em luz seu espírito
para acender madrugadas

wasil sacharuk







garça

 


garça

poisas para mim
em meus castelos jardins
tuas virtudes tão plácidas
diluídas nas curvas
e plasmadas nas sombras
com luzes cálidas

e tu riscas serpentes
sob o céu de penumbra
da minha mente esquálida
que perdida em escusas
e fogueiras folclóricas
verte a verve das musas
encharcada de vodka

sabes bailar graciosa
com incertas passadas
sabes voar ousadias
com tuas asas largas

pois eu sei ver a poesia
numa garça
estabanada

wasil sacharuk







a alma com calma

 


a alma com calma

canto baixinho
sussurrando
amarro os sapatos
mas não ando
parei o relógio
num segundo
fazendo bolinhas
do que é grande
a alma com calma
quer que eu cante

ando calminho
acalmando
andando de lado
vagueando
trouxe o ilusório
pro meu mundo
fazendo a vidinha
doce instante
a alma com calma
quer que eu cante

santo cantinho
vou queimando
eu ando baseado
enrolando
sou um notório
viramundo
eis a vida minha
relevante
a alma com calma
quer que eu cante

wasil sacharuk





SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word


SACHARUK - HERESIA

 Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de construção em seu mais recente compilado de spoken word. Mais do que uma leitura, o vídeo é uma experiência sensorial onde a técnica de voz e a composição cênica elevam o texto literário ao status de performance teatral.

O vídeo apresenta uma sequência de poemas que transitam entre o existencialismo, a crítica social e a contemplação da natureza. Entre as obras destacam-se "Alma com Calma", "A Estranha Florista" e "Heresia". Wasil habita cada verso, transformando temas complexos como a busca pela essência e a dor humana em narrativas palpáveis e envolventes.

O cenário, embora minimalista, atua como um quadro que emoldura a presença do poeta.. Essa sobriedade cênica reforça a proposta do spoken word: a palavra é a protagonista absoluta, e o ambiente serve para amplificar sua ressonância emocional.

"A alma com calma quer que eu cante." (Trecho do poema Alma com Calma)

"Pois eu sei ver a poesia numa garça estabanada." (Trecho do poema Garça Estabanada)

"E só ela percebe quando a rosa calada chora suas feridas." (Trecho do poema A Estranha Florista)

"Pois prefiro a heresia em vez da guerra fria." (Trecho do poema Heresia)

"Que persiga as luzes na vida, riscando rumo num traço de fatal poesia." (Trecho do poema Fatal Poesia)

Vale assistir a esta performance não apenas pelo conteúdo literário de alta qualidade, mas para observar como a técnica de interpretação pode ressignificar um texto. Wasil Sacharuk prova que a poesia, quando bem dita, é uma força viva capaz de provocar catarse e reflexão profunda no público geral.

HERESIA revela um poeta que domina as pausas e os sussurros, transformando versos em confissões. Como ele mesmo diz no vídeo: "A alma com calma quer que eu cante". É impossível não se emocionar com a entrega em poemas como "A Estranha Florista", onde "só ela percebe quando a rosa calada chora suas feridas".

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língua do sol

 língua do sol 


expande
            moléculas do ar
aprende 
                    com aquilo que sente
                           e com o que falta
escuta o arrebol
    que rasga o véu
            e declina na mata

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

escapa                   
da razão eloquente
e após desacata
as benesses do bem
as maldades do mal

                   no final
não resta um vintém
as crendices são mortas
esconde as tolices
depois fecha a porta

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

aprende a amar
se amar vale a pena
declama um poema
na língua do sol

wasil sacharuk









sakura

  sakura

quebradiço o galho
que suspende a existência
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
em transitória delicadeza

ouve  que o destino clama
a perecer tuas pétalas
ao chão do bosque copado
derrama nas dores humanas
teu aroma perfumado

floresço a ti com ardor
sakura amada
a esperança confiou-me o nome
e o empenho das madrugadas

assim um só seremos
no parque das cerejeiras
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
recria o espaço das certezas

wasil sacharuk










robin

  robin


quando a fortuna girou sua roda voei campo afora ave riscada em contornos de luz na moldura noturna

na aurora cantei com o robin e os outros pássaros sobre faixas de asfalto planícies planaltos bati  minhas asas pelos mares e praias matas fechadas até  janela da tua casa

voei junto aos pássaros carregando nos bicos sementes de sonhos e um punhado das belas palavras 

na árvore do parque meu nome escrito à faca

no quarto  bailavas vestindo vermelho tão linda ao espelho

voei junto aos pássaros carregando nos bicos sementes de sonhos e um punhado das belas palavras

wasil sacharuk









veneno

 


veneno

fica atenta 
entende os riscos
acaso queiras brincar

é arriscado 
que eu te risque
 meu ferrão
 forte e rápido
 causa intensa dor
irradia pelo corpo

arriscado tatuar-me
na tua pele
de forma que jamais
queiras apagar-me

de forma que jamais
possas apagar-me

arriscado inocular-te
 veneno
do meu amor escorpião
de forma que jamais
queiras apagar-me

de forma que jamais
possas apagar-me

wasil sacharuk





lum ugar



um lugar

quando esse frio for embora
quando essa chuva passar
entre as canecas de café
haverá para nós um lugar

a laguna deitará entre as pedras
e os pássaros voltarão a voar
nos campos das flores eternas

tu correrás para as águas
eu vou pegar uma estrela
para nós haverá um lugar

quando voltar o calor
quando passar essa dor
poderemos de novo andar
pelas sangas e matos

tu correrás para as águas
eu vou pegar uma estrela

tu correrás para as águas
eu vou pegar uma estrela

para nós haverá um lugar

quando passar essa dor
haverá para nós um lugar

wasil sacharuk



cadente

 



cadente

ela vê toda gente
desorientada
não sabem o valor
de viver por amor
talvez as pessoas
não saibam de nada

é certeza
tão somente
incontestada
fosse eloquente
seria a primeira
mas perde a razão
portanto é besteira

ela troca as palavras
pela língua dos sonhos
cenas perplexas
sons enfadonhos
o mundo lá fora
é outra conversa

é beleza
tão somente
deslumbrante
fosse estação
seria primavera
mas floresce ilusão
portanto é quimera

tão só
ela escreve o roteiro
no oriente das vidas
vislumbra as pegadas
onde vento faz pó
e encobre a estrada

é estrela
tão somente
cintilante
fosse pedra
seria diamante
mas cai na terra
portanto é cadente

wasil sacharuk






SACHARUK - SAKURA Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - SAKURA 

Você já sentiu que a realidade às vezes é "outra conversa" e que a verdadeira vida acontece na língua dos sonhos? No vídeo mais recente do poeta Wasil Sacharuk, somos convidados a voar junto aos pássaros e a acreditar que, não importa o tamanho do frio ou da dor, sempre haverá um lugar para nós.

É uma performance emocionante que mistura a força do "amor escorpião" com a delicadeza das cerejeiras. Um lembrete de que somos todos um pouco cadentes, um pouco diamantes, mas sempre em busca de florescer com ardor.

Sabe aquele tipo de vídeo que você começa a ver e, de repente, o mundo lá fora parece "outra conversa"? É exatamente essa a sensação ao mergulhar na performance de Wasil Sacharuk nesta coletânea. O poeta nos guia por um labirinto de emoções que vão da desorientação dos sonhos à esperança concreta de um café compartilhado.

SAKURA não é apenas uma leitura; é um roteiro escrito "pela língua dos sonhos". Wasil atravessa diferentes estados de espírito. Começamos com a figura feminina que "troca as palavras" pela imaginação, passamos pela promessa reconfortante de que "haverá para nós um lugar" quando o frio passar, e chegamos à intensidade perigosa do "amor escorpião". É uma obra que fala sobre a transitoriedade — como o desabrochar da Sakura — e a permanência dos sonhos que carregamos no bico, como pássaros em revoada. O tema da esperança é o fio condutor: a certeza de que, após a dor e o inverno, o calor voltará. Wasil usa metáforas da natureza — lagunas, pássaros, flores eternas — para falar de sentimentos humanos universais.

"Ela troca as palavras pela língua dos sonhos."

"Quando esse frio for embora, quando essa chuva passar... haverá para nós um lugar."

"Arriscado inocular parte veneno do meu amor escorpião."

"Voei junto aos pássaros carregando nos bicos sementes de sonhos."

"Eis que o tempo envolve fêmea, flor e cria o espaço das certezas."

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xote das belezas

 xote das belezas 


eu já fui caça
 e pássaro
também devassa 
e bálsamo
 fui água benta 
e maré instável
fui peçonhenta 
já fui amável

fui a Jocasta 
fui a Morgana
fui  mulher casta
 e mulher insana
bruxa e atriz
 princesa recatada 
ora fui meretriz 
ora fui a beata

já fui  moralista 
já fui obscena
fui Messalina 
fui Madalena
eu já fui vadia 
entre outras belezas
e também fui maria
mas não tenho certeza

wasil sacharuk









sopro de vento

 



sopro de vento 

a vida passa
tão rápida
surfa lépida
nas asas
do tempo

instantânea
intrépida
sopro de vento

mas
a vida passa
tão rápida
nas asas
do tempo
e passa
ainda mais rápida
se o coração
bate lento

wasil sacharuk




ausência

  ausência

poesia tão minha foi embora
jurou voltar nunca mais
levou sua escova de dentes
saiu pela porta da frente

não restou um resquício da paz
dos amores e dores de outrora
jogou suas malas lá fora
foi atracar noutro cais

restaram os versos recentes
desnorteados e inconsequentes
ecoantes estrofes abissais
dissonantes rimas simplórias

não sei o que faço agora
pois já fui um poeta capaz
minha verve sangra doente
a esperar pela musa ausente

e se ela voltar nunca mais
viverei das nossas histórias
a secar a saudade que chora
a falta que ela me faz

wasil sacharuk










quo vadis

  quo vadis

quero saber de ti 
o que cantas  com quem andas  
aonde vais  

não choramingo os ais 
sequer escrevo uma carta
dessa saudade que mata
o nó que não ata nunca mais

deixo para trás as ciências exatas
as premissas mais chatas
as verdades universais

pretendo nada demais
apenas a medida certa
onde a cabeça não esquenta
além dos níveis normais

quero saber de ti
o que cantas com quem andas
aonde vais

 só para trocar contigo
algumas palavras banais

wasil sacharuk








mágoa que cutuca

  mágoa que cutuca


nas cruzadas
por tua rua, a dor
dela bem sei de cor
o caminho
hesita no meu passo
a longa espera

a mágoa que cutuca
é tão crua, amor
espera pra ter de volta
o teu carinho
que da mágoa que cutuca
fez quimera

nas madrugadas
de poesia nua, amor
os pássaros
vez por outra fazem ninho
se a saudade desce a rua
e vai...

quem dera!

wasil sacharuk










macambúzio

 

macambúzio    

o olho mareia
    a garganta entala
     mar revolto embala
              os grãos de areia
    a letra goteja palavras
palavras rebrotam mancheias
            o livro da vida se cala
a música engasga colcheias
   o sonho morre de fadiga
e o tempo tem falta de ar
 o vento assovia cantiga
  para a tristeza chorar

                wasil sacharuk








SACHARUK - MACAMBÚZIO Full - palavra falada spoken word

 SACHARUK  - MACAMBÚZIO 

MACAMBÚZIO é uma Viagem Pelas Marés Poéticas de Wasil Sacharuk em uma compilação que funde melodia e palavra, o poeta Wasil Sacharuk nos convida a mergulhar em um oceano de emoções onde o tempo, a saudade e a identidade se encontram em uma performance magnética.

O vídeo apresenta uma sequência de poemas e canções que funcionam como capítulos de uma biografia da alma humana. marcada por um ritmo orgânico, onde as pausas e a trilha sonora não são apenas acompanhamentos, mas extensões do sentimento. Há uma cadência quase hipnótica na forma como as palavras "rebrotam mancheias", transformando a audição em uma experiência sensorial. O cenário sonoro, ora melancólico, ora vibrante, reforça a tese de que a vida é um "sopro de vento" que exige um coração pulsante para ser verdadeiramente sentida.

"O sonho morre de fadiga e o tempo tem falta de ar."

"A vida passa ainda mais rápida se o coração bate lento."

"Deixo para trás as ciências exatas... pretendo nada demais, apenas a medida certa."

"Minha verve sangra doente a esperar pela musa ausente."

"Também fui Maria, mas não tenho certeza."

Quando a Palavra se Torna Vento: A Poesia Viva de Wasil Sacharuk

Você já sentiu que o tempo corre mais rápido do que conseguimos respirar? No vídeo mais recente de Wasil Sacharuk, somos confrontados com essa e outras verdades da alma. Através de uma performance emocionante, o poeta nos lembra que "a vida passa ainda mais rápida se o coração bate lento".

É um convite para abandonarmos as "premissas mais chatas" e nos reconectarmos com o que é banal, humano e essencial. Uma obra para ler com os ouvidos e sentir com o peito aberto.

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animalia

 animalia


no dia em que te conheci
pulaste como uma foca
desfilaste tal pata
trombaste que nem elefoa
tramaste feito aranha
correste igual a pantera

no dia em que te comi
rebolaste tal cobra
miaste que nem uma gata
rugiste feito leoa
mordeste igual a piranha
gozaste feito uma égua

wasil sacharuk






atávico

 atávico 


ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitado passado
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
num dia abençoado
pelo sol da  poesia

ainda sei teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
pelos ciclos da lua
da travessia das ruas
nas rotas dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia

wasil sacharuk


ao meu pai





sine qua non

 sine qua non 


ela é a condição 
sem a qual nada
 poderia ser
aprioristica razão
das coisas pensáveis
sine qua non
poderia a magia
lampejar as palavras
e as emanações imputáveis
a quem lhes deu causa

pois ela é a energia 
precipitada da poesia 
ou desprendida do sexo
com amor e verdade 

ela então é o nexo
da minha causalidade 

wasil sacharuk





quid pro quo

 quid pro quo


cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

wasil sacharuk





sideral

 sideral


poeta alienígena
dos ares facínoras
habita a nuvem
nave mãe coerente
construída para ti
no feixe de espaço
estranho e distante
em que constelas

ele pode
pincelar falsas telas
fazer pouco caso
tripudiar das escolhas
inverter as letras
travar poesia na prosa

talvez só acredite
na finitude das coisas
na tolice das minhas
na doença das tuas
na perplexidade
das todas

sideral iluminado
jaz ao lado
do olho da lua
de máscara turva
sobre a face

wasil sacharuk







amor pimenta

 amor pimenta 🌶️ 

o amor diz coisas
que eu já não entendo
o amor faz coisas
que não sei explicar

o amor adentra
por janelas abertas
o amor sopra vento
rasga raio e tormenta

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

o amor sente coisas
que cortam por dentro
o amor tem asas
que me fazem voar

o amor se inventa
por palavras incertas
o amor canta o tempo
feito em música e letra

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

wasil sacharuk









SACHARUK - QUID PRO QUO Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - QUID PRO QUO

Há vídeos que não apenas assistimos, mas que sentimos "cortar por dentro". A nova compilação de poesia falada de Wasil Sacharuk é um desses raros momentos de entrega absoluta à palavra.

Em uma performance que transita entre o visceral e o sideral, o poeta Wasil Sacharuk nos convida a mergulhar em uma compilação de spoken word que é, ao mesmo tempo, um abraço e um abismo.  Sacharuk transforma o vídeo em um palco onde o amor, o vazio e a própria existência são dissecados sob a luz da poesia.

O vídeo apresenta uma sequência de poemas que funcionam como estações de uma jornada interior.  A obra culmina em reflexões sobre a ancestralidade e a conexão física, onde o humano se funde ao animal em metáforas de pura paixão.

Navegando entre o amor clandestino e a perplexidade das coisas finitas, o poeta nos lembra que "o amor se inventa por palavras incertas" e que a poesia é a energia que dá nexo à nossa causalidade. Se você busca um refúgio literário que une emoção e técnica de performance, este vídeo é sua próxima parada obrigatória.

"O amor se inventa por palavras incertas. O amor canta o tempo feito em música e letra."

"Todo nada esvazia repleto, transborda tão cheio de vazios incompletos."

"Pois ela é energia precipitada da poesia ou desprendida do sexo com amor e verdade. Então é o nexo da minha causalidade."

"Tuas mãos sem segredos seguram as minhas num dia abençoado pelo sol da poesia."

Vale assistir a esta compilação não apenas pela beleza dos versos, mas pela experiência sensorial da performance. Wasil Sacharuk prova que a poesia falada é uma ponte necessária entre o que sentimos e o que conseguimos, finalmente, dizer. É um conteúdo indispensável para quem busca na literatura um espelho para suas próprias "vontades intensas".

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espere-me

  espere-me


sei que me mostras
o quanto me amas
apesar de tudo

e eu fico mudo
se perdes o tempo
embalando as noites

eu nunca prometo
fazer diferente
do que fiz antes
de detonar o mundo

mas eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

eu sei que causas
tanta destruição
sempre que me vens

e não há nada
que faça mudar
a ideia maluca
que sempre me consome

e eu nunca prometo
fazer diferente
do que fiz antes
de detonar o mundo

pois eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

nós somos mares
de marés confusas
sou dos teus males
de mim és musa

espere-me

o quanto me queres
em meio às noites
enquanto me feres
com teus açoites

espere-me

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

wasil sacharuk







cansada de doer

cansada de doer

lança-te a mim demônio
come tudo mastiga e engole
logo regurgita-me por intriga
não importa se não suportas
o fardo do amor
ainda me fazes a mais bonita
a mais maldita a mais mulher

amordaça-me malfeitor
sacia a fome que sinto de ti
vivo cansada de doer
 por teu amor

monstro cruel
a ti interessa 
castigar-me sem pressa
tua cegueira te guia 
ao veneno do fel
e assim sou teu fim

lança-te a mim demônio
o quanto quiseres
o que for preciso
eu te aguento
estou preparada
estende tua onda furiosa
de impiedoso inverno
congela-me o ar
vivo cansada de doer
 por teu amor

tuas garras meus pulsos
ao prazer de sangrar
vivo cansada 
de doer 
por teu amor

wasil sacharuk



vambora

  


vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gheto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gheto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
forever 

amora
let's go
I promise you

wasil sacharuk








estelares luminárias

 a menina dos olhos de deus 

(estelares luminárias)

a doce menina dos olhos de deus denota pureza aos auspícios da crença sob as luzes do espírito na fé e esperança
a doce menina dos olhos de deus irrompe estrela cadente risco fulminante mergulho de fumaça a perfurar oceanos
a doce menina dos olhos de deus carente de esperança quer saber não morrer quando apaga sua chama
certo dia o demônio das duas cabeças ofertou-lhe as filosofias cuspiu-lhe a política e recitou poesia
e após beijar-lhe os mamilos elogiou suas belezas e a suspendeu na gravidade do amor
a doce menina dos olhos de deus viu que crenças humanas são faíscas aleatórias na perspectiva das coisas
estelares luminárias lanternas toscas ofuscam-se as umas acendem-se as outras

wasil sacharuk







amora molhada

 


amora molhada

saibas amora
eu não deveria
chover mais em ti
mas isso não importa
se usas guarda-chuva

saibas amora
eu não tenho capa
sequer uso luvas
saíram de moda

amora
e se te incomoda tu te apartas
dos pingos te resguardas
no abrigo
se minha chuva te molha

mas vai
vai amora 
leva a cadeira 
e teu maldito guarda-chuva
senta lá fora nua

mas naquela hora amada amora
eu bem sei que tu ficas louca
se eu mergulho nos teus olhos
em cântaros

amora vejo sóis
se chovo em tua boca

wasil sacharuk





flor bruta

 flor bruta 

resta a seca
e a vida agoniza
sua dor espinhosa
com coragem 

resta a seca
após a estiagem
quando despencam
pingos esquálidos

resta a seca
nos restos pálidos 
a penúria dos rios
chora vertentes
de versos áridos

mas tu
flor bruta
do mandacaru 
quando a lua te mira
irrompes atrevida
 teu cálice perfumado
do verde botão 

mas tu
flor bruta
do mandacaru 
guarda seiva da vida
efêmera e linda
do cacto indelicado 
irrompido
do sertão 

wasil sacharuk 








 SACHARUK  - LEITMOTIV 

Onde a Flor Bruta Encontra o Mar: A Poesia de Wasil Sacharuk

Você já sentiu que a vida, às vezes, é como o mandacaru? Espinhosa por fora, mas guardando uma seiva preciosa de vida por dentro? 🌵✨

No vídeo de hoje, mergulhamos na obra de Wasil Sacharuk, um poeta que transforma a dor em beleza e o sertão em oceano. Seus versos tocam em feridas comuns, mas com uma delicadeza que só quem entende a "gravidade do amor" consegue expressar.

 Com a sofisticação das angústias humanas, o poeta Wasil Sacharuk nos conduz por um labirinto de metáforas onde a dor e a beleza coabitam o mesmo verso.

"Mas tu, flor bruta do mandacaru, guarda seiva da vida."

"Vejo sóis se chovo em tua boca."

"Certo dia o demônio das duas cabeças ofertou-lhe as filosofias, cuspiu-lhe a política e recitou poesia."

"Vivo cansada de doer por teu amor."

"Nós somos mares de marés confusas."

Sacharuk fala sobre a resiliência ("resta seca e a vida agoniza"), sobre o desejo ("vejo sóis se chovo em tua boca") e sobre a complexidade das nossas crenças e amores. É impossível não se identificar com a força de suas palavras e a entrega em sua performance.

Vale assistir a este vídeo não apenas pela qualidade literária, mas pela experiência sensorial. Wasil Sacharuk prova que a poesia não é apenas para ser lida, mas para ser sentida em cada respiração e pausa. É um convite para olhar para nossas próprias "marés confusas".

É poesia para fechar os olhos e deixar a voz nos guiar.

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reconhecimento facial

reconhecimento facial 

havia cortes chanfrados
cuidadosos e laminados
brilhantemente polidos

estenderam-se tal lápides
espelhadas
cada qual com seus cantos
contornos e expressões

havia nuanças diversas
e milhares de olhos
pontiagudos
 matizes estranhos
em tons tergiversos

faces que delatavam belezas
juntadas às dores e tristezas
e além do possível
a fome de se fazer vida

faces vertentes de inexatidão
a linha tênue das crenças
e da satisfação

faces denotavam clichês
de amor e de ódio
pintadas de versos latentes
ideias escandalosas
e iluminuras
 formavam figuras
abstrações e palavras

havia faces ultrajadas
emoldurando sorrisos discretos
que pareciam felizes

havia faces e agora
vemos somente seus rostos
encravados
nas inexpressivas 
 cabeças imóveis

wasil sacharuk