Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor era descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusava a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
domingo, 30 de novembro de 2025
apneia
magnífica
magnífica
bailarina das luas
bailarina das luas
pirofagia
pirofagia
sou bruxa mulher
e meu diabo só quer
minha queda em pecado
comer-me a alma perdida
degredada dos quadros
de qualquer remissão
bruxa mulher
meu diabo só quer
vibrar sobre a melodia
que minha língua recita
poesia inscrita
com sílabas poucas
sou mulher
bruxa mulher
meu diabo só quer
explodir o seu fogo
no céu da minha boca
wasil sacharuk
poesia dos desadornos
poesia dos desadornos
ela ama as coisasque assaltam os poros
que perfuram a pele
que podem voar ultraleve
mesmo na queda dura
ela toca sua rosa
sente os espinhos
a dor e a textura
as entregas gostosas
límpida laguna
para mergulhar
poesia dos desadornos
declamo sem ar
aos cumes do seu corpo
ela ouve os acordes
sinfônicos do violino
quando meus dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios
ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
quando o desejo ardente
destrava os seus dentes
entreabre sua boca
e explora recônditos
sua flor desabrocha
suplica que eu a contemple
wasil sacharuk
tateia
tateia
sábado, 22 de novembro de 2025
religare
religare
luz
tu que provéns
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante
religare, religare
ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida
é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado
religare, religare
com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo
o tal poço sem fundo
que é a normalidade
religare com a liberdade
wasil sacharuk
sol ensimesmado
sol ensimesmado
o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
bicho selvagem alado
atravessa o açude
amiúde
a lua se vinga
mas nunca desama
abraça a luz que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos
o vento da noite abana
as águas que banham
os pés delicados
tilinta o cristal
e os lindos sapatos
decolam pelo ar
apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos
wasil sacharuk
bálsamo
bálsamo (tristeza arraigada)
jardim de espinhos
jardim de espinhos
vento baseado
vento baseado
jazigo das orquídeas
jazigo das orquídeas
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
máquina
máquina
pinga respingarepica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
murmuram marés
cinzentas de ocasos
a máquina de fazer chuva
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
inflar oceanos
encher a concha das mãos
wasil sacharuk
clichê de outono
clichê de outono
águas claras
águas claras
A maré é o desejo da luaUtópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas das bocas das ruas
Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceano
As ondas empurram as mágoas
Ribeirões estouram os canos
As correntes somente deságuam
Seus latentes instintos insanos
wasil sacharuk
sufoco do tempo
sufoco do tempo
o tempo
anda perdido do tempo
sufoca nas ruas silentes
sucumbe ao assopro do vento
precisa ser intubado
repassa cenas do passado
escuta vozes distantes
perambula claudicante
dorme na rua cansado
morto-vivo ao relento
wasil sacharuk
gotículas de sal
gotículas de sal
epístolas do mal
tendes clemência de nós
os fiéis e os descrentes
ontem era só moral
mas agora é diferente
perdi a clareza da visão
prendi a consciência na cela
conquistei a cegueira da razão
a noção caiu pelas tabelas
canícula e sol
que não queimem a nós
no fogo incandescente
ontem era tudo normal
mas agora o mundo sente
aprendi que chorar é bom
então quero chorar oceano
choro até se ouço o som
o desprezo humano
gotículas de sal
derramadas de nós
renascente nascente
hoje terá temporal
e logo terá enchente
wasil sacharuk
rosa vermelha orquídea negra
rosa vermelha orquídea negra
terça-feira, 18 de novembro de 2025
mana
mana
ana e os pombos
Ana e os pombos
trago versos
em sementes de paz
imaculadas
se nao abarcar meus avessos
eu sou nada
além da poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas
das questoes lanço sementes
aos pombos da paz e da pedra
vislumbro imagens da sorte
no vácuo entre vidas e mortes
procuro caminhos à senda
detrás dos traços aparentes
alma que clama faminta e urgente
por um universo que a entenda
quero saber os conceitos
conhecer os normais
e as fadas
tenho braços abertos
mas nao sou alada
apenas sou poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas
o percurso das vidas é o mote
que me faz viva e forte
na fonte dos dias de contendas
conflitos de espécies diferentes
em cada aurora sigo em frente
já aprendi que nem sempre se acerta
que no aço afiado reside um corte
e nem todo louco é o Dom Quixote
estendo laços convexos
dou meu pao aos animais
nativos da minha calçada
de rumos incertos
e alma libertada
a colorir poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas
quero capturar o signo das lendas
assim entender os desígnios da gente
encontrar as razoes do que se sente
imprimir um sorriso na alma serena
para me recriar poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas
wasil sacharuk
lanterna dos luminares
lanterna dos luminares
mãos dadas
mãos dadas
Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
mas deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o velho trem corta a estrada
o bentevi na árvore
quebra a calada da aurora
diz qualquer coisa bonita
conta heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
jambolões e butiás
nos pomares do amor
de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito
com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar certas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias
e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra
de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito
Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano
num canto extremo do sul
o outono leva as folhas
de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito
wasil sacharuk
meus disfarces
meus disfarces
farol do vagalume
farol do vagalume
sábado, 8 de novembro de 2025
crepúsculo
crepúsculo
guia de pilotagem
guia de pilotagem
voar é talento
de passarinho
já sai do ninho
batendo asas
ensaia rasantes
entre as casas
voar é desejo
de poeta
subverte as letras
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas
voar é mania
de maluco
inconsequente
lançado às favas
decola imprudente
livre de amarras
que nem borboleta
wasil sacharuk
poema do fogo
poema do fogo
hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias
disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual teu lugar nesse jogo?
raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração
caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição
ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!
wasil sacharuk
reforma íntima
reforma íntima
e desmistifique as crenças
tampouco traga desavença
pois quem muito crê pouco pensa
wasil sacharuk
genuíno
genuíno
o meu avessotem tons desconexos
mas não tem gênero
não tem cor
nem sexo
é o melhor lugar
avesso de estar
avesso de ser
genuíno que é
é avesso em ti
de tão nosso
e o teu avesso
é o que de mim
eu mais gosto
wasil sacharuk
pela costa da laguna
pela costa da laguna
venhas mulher anda comigo
pela costa da laguna
onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na tua cabeça
espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
antes que me esqueças
vê nas frestas da janela
que essa noite espera
que sejamos amantes
o caminho tão distante
vou cego viajante
no traçado das quimeras
provar a tua pele
na língua portuguesa
o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
naquela torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma
ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
duro de pedra
o caminho tão distante
vou cego viajante
no traçado das quimeras
provar a tua pele
na língua portuguesa
venhas mulher anda comigo
pela costa do mar
a imprimir nossas pegadas
junto ao curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar
jardineiros das memórias
cataremos flores mortas
que viveram tão valentes
tal crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho
o caminho tão distante
vou cego viajante
no traçado das quimeras
provar a tua pele
na língua portuguesa
wasil sacharuk
acaso chorares
acaso chorares
moça
acaso chorares dia inteiro
usa meu lenço e meu travesseiro
de pena de ganso
moça
comprarei flores
um lírio-bandeira
perdoa minhas besteiras
e qualquer contrassenso
moça
podes chorar amores
teus desencantos
moça
acaso cantares canções do Wando
saibas que eu não ligo
ficarei assoviando um reggae antigo
entre amigos
wasil sacharuk
néctar
néctar
corpo sim
de dentro para fora
tal orvalho na aurora
o sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
dos muros
verte umidade
quando acontece
o líquido fel
desce do céu
derrete os metais
lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
o assalto das vontades
desintegração dos poros
e os corpos
envoltos pela cintura
bailarinas loucas
serpentinas impuras
de livre poesia
a língua pronuncia
versos de néctar
plenitudes na boca
wasil sacharuk
sol escorpião
sol escorpião ☀️
viola as mucamas
também aos deuses
lambe-os ao fio bruto
no leito ejaculado
esconde sentenças malditas
separa as noites
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem
o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
pela casa de escorpião
não mora em ti ano inteiro
wasil sacharuk
poeta ao avesso
poeta ao avesso
maria pele de terra
maria pele de terra
maria pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos
nasce renasce flor do campo
insistente no tempo
parturiente de intentos
no signo dos dias
pois és poeta
engendra alquimia da dor
e transmuta em poesia
maria feita de vida
o tempo desconta o lamento
o tempo não conta a idade
wasil sacharuk
água elemento
água elemento
confessa à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
teu mar desconhece
és fluidez nas águas
deságuas pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
teu mar desconhece
passeias pelo céu
deitada numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
teu mar desconhece
navegas à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros
onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece
sequer meus anseios
teu mar desconhece
wasil sacharuk
anjos tocam falácias
anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...
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contar estrelas maravilhoso é contar estrelas mas onde estou vejo apenas uma quando o céu ajuda as quatro e trinta quando saio para o t...
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vagos vinténs vaga vasta vivos vãos variante vacilo vácuo! ventos virão virarão vendavais valentes vertentes varrerão vilipêndios varrerão...
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sentinela das tuas injúrias malditas arquitetei teu calabouço ofusquei a chama das velas nas oportunidades distintas que espreitei-te da ja...