amor com Tchaikovsky
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
amor com Tchaikovsky
antropófaga
antropófaga
bemóis
tu ave
fá sol
na primavera
se bem sabes
esperas
tu nota
faminta
em bemóis
na primavera
fás sóis
sem entraves
tua pauta
fac simile
das urdiduras
em claves
e tons
imitas o som
das coisas
dos lugares
do coração
das criaturas
wasil sacharuk
tão só
tão só
capuchinho
Capuchinho
de logo comê-la
contabilidade
contabilidade
SACHARUK - VERMELHO Full - poesia falada spoken word
Wasil Sacharuk em uma Jornada de Memórias e Mitos
Você já sentiu que sua memória é um cesto de enlaces, misturando sonhos de chocolate e versos rasgados? No vídeo mais recente de Wasil Sacharuk, somos levados a uma viagem sem filtros pelos nossos depósitos emocionais.
Wasil nos lembra que, às vezes, é preciso ser "antropófago" de si mesmo para sobreviver à noite solitária dos nossos mitos. Uma performance que transborda ritmo e verdade.
A suíte poética que atravessa diferentes estados emocionais. Começa com um mergulho introspectivo em memórias bloqueadas ("Andei vasculhando as gavetas"), evoluindo para uma reinterpretação transgressora de mitos clássicos, como a "Capuchinho" (Chapeuzinho Vermelho), onde a inocência é tingida de pecado e desejo.
Os temas centrais orbitam a dualidade entre a solidão e a liberdade, a dor da exaustão e a esperança de um "novo amor". Sacharuk utiliza a metáfora da antropofagia para descrever a sobrevivência emocional — uma "alquimia dos elementos" que transforma chagas em cicatrizes.
A reinterpretação que ele faz do mito da "Capuchinho" é de arrepiar, trazendo à tona a "vã inocência" e os desejos que habitam o escuro das florestas — e das nossas mentes. É um convite para entender o saldo dos nossos próprios estragos.
"Andei vasculhando as gavetas. Memórias de fatos bloqueados, de tsunamis, naufrágios e tormentas."
"Vermelho era o pecado tingido na vã inocência."
"Estou assim tão só enquanto ela dorme. Vivo assim tão só quando ela é livre."
"Imitas o som, o som das coisas, o som dos lugares, o som do coração das criaturas."
"Antropófaga, bebe um copo de sangue, insensata devora os próprios músculos."
Vale assistir a esta obra pela coragem de Wasil em expor as "gavetas" que a maioria de nós prefere manter trancadas. É uma experiência sensorial que desafia o espectador a confrontar seus próprios "saldos de estragos" e encontrar beleza na crueza da existência.
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