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amor com Tchaikovsky

 amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
num dia perfeito 
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti 
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
a minguar-te inteira 
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
e acordes na boca 
para beijar os contornos
das tuas dunas de areia

wasil sacharuk



antropófaga

 antropófaga


faminta
ela vinga nas matas
encara o vento
o olho do sol
mastiga raízes
engole os frutos absurdos
que repelem a dor

indelicada alquimia
dos elementos
esparadrapo e unguento
para chagas e cicatrizes

antropófaga
bebe um copo de sangue
e insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até uma próxima aurora
quando raiar novo amor

wasil sacharuk



bemóis


bemóis 

tu ave
    fá sol
     na primavera
   se bem sabes
esperas

tu nota
        faminta
      em bemóis
        na primavera
                     fás sóis
       sem entraves

         tua pauta
      fac simile
das urdiduras
         em claves
                  e tons

         imitas o som
           das coisas
       dos lugares
      do coração
das criaturas

wasil sacharuk









tão só

 tão só 


na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por ela
no espaço vazio
mas nada emana
do vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

na noite passada 
morri em lençóis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
para ser libertado
de qualquer encanto
para ser libertado
de qualquer desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

wasil sacharuk





capuchinho

 Capuchinho


vermelho era o pecado
tingido na vã inocência
ela andava só sem licença
trazia doces confeitados
de sabores atávicos 

no seu cesto de enlaces
os sonhos de chocolate
deleites aos vícios
e um caderno riscado
com versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia o auspício 
de desafiar o velho lobo
seduzido ao escopo
de logo comê-la 

e assim a pequena
melindrada cobria a cabeça
no rubro pano
 que a desonra do engano
jamais lhe apareça

wasil sacharuk






contabilidade

 contabilidade


andei vasculhando as gavetas
 memórias de fatos bloqueados
tsunamis
naufrágios 
e tormentas
aos confins da história relegados

andei projetando o pré sessenta 
na esteira dos anos repassados
procurei obter as ferramentas
que rompem o ferro 
dos cadeados

andei repensando meus propósitos
 revisitei toda vida 
quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

andei recontando meus depósitos
persegui os valores debitados
e entendi o saldo 
dos estragos

wasil sacharuk






notas:

"contabilidade" é uma profunda e introspectiva viagem ao universo da autoanálise e do balanço existencial. O título, aparentemente frio e técnico, contrasta com a riqueza emocional e as imagens evocativas do texto, revelando uma metáfora para o ato de confrontar o passado e planejar o futuro, buscando um entendimento do próprio "saldo" de vida.

 "vasculhar as gavetas", uma imagem que imediatamente remete à busca por lembranças e experiências guardadas. No entanto, o que emerge não são apenas memórias, mas "memórias de fatos bloqueados", sugerindo traumas ou eventos dolorosos que foram reprimidos. A intensidade dessas lembranças é expressa por metáforas poderosas: "tsunamis, naufrágios e tormentas". Essas palavras evocam desastres naturais de grande magnitude, transmitindo a ideia de eventos avassaladores que marcaram profundamente a existência do eu-lírico e que, por algum motivo, foram "relegados aos confins da história". Há uma tentativa de esquecimento ou afastamento desses momentos difíceis.

Na segunda estrofe, o olhar do eu-lírico se volta para o futuro, especificamente para o "pós-cinquenta". Essa fase da vida é vista como um marco, um momento de balanço e planejamento. A busca por "ferramentas que rompem o ferro dos cadeados" é uma metáfora poderosa para a procura por meios de libertação, seja de amarras emocionais, padrões antigos ou bloqueios que impedem o avanço. É um desejo de se desvencilhar do que prende e limita, de encontrar soluções para os desafios que se apresentam ou que se acumularam ao longo dos anos. A "esteira dos anos repassados" sugere uma reflexão sobre o tempo que passou e como ele moldou o presente.

"Andei repensando meus propósitos" indica uma reavaliação dos objetivos e do sentido da própria existência. A imagem de "revisitei toda vida quadro-a-quadro" é vívida, como se o eu-lírico estivesse assistindo a um filme de sua própria trajetória, examinando cada cena, cada decisão, cada evento. Essa revisão é feita "na fileira dos pensamentos vagos", sugerindo um processo que pode ser caótico, com ideias e lembranças surgindo sem uma ordem linear, mas que culmina em uma análise abrangente.

A estrofe final retoma a metáfora central da contabilidade. O eu-lírico "recontou meus depósitos", que podem ser interpretados como as experiências positivas, os investimentos emocionais, as conquistas. No entanto, ele também "persegui os valores debitados", ou seja, as perdas, os fracassos, as dívidas emocionais ou as desilusões. A conclusão desse meticuloso balanço é a compreensão do "saldo dos estragos". Essa frase sintetiza a dor e o peso das perdas e dos erros, mas também sugere uma aceitação e um entendimento. A contabilidade da vida, ao final, revela que nem tudo são lucros; há um preço a ser pago, e reconhecer esse "estrago" é um passo crucial para a aceitação e o aprendizado.





SACHARUK - VERMELHO Full - poesia falada spoken word

  Wasil Sacharuk em uma Jornada de Memórias e Mitos

Você já sentiu que sua memória é um cesto de enlaces, misturando sonhos de chocolate e versos rasgados? No vídeo mais recente de Wasil Sacharuk, somos levados a uma viagem sem filtros pelos nossos depósitos emocionais.

Wasil nos lembra que, às vezes, é preciso ser "antropófago" de si mesmo para sobreviver à noite solitária dos nossos mitos. Uma performance que transborda ritmo e verdade.

A suíte poética que atravessa diferentes estados emocionais. Começa com um mergulho introspectivo em memórias bloqueadas ("Andei vasculhando as gavetas"), evoluindo para uma reinterpretação transgressora de mitos clássicos, como a "Capuchinho" (Chapeuzinho Vermelho), onde a inocência é tingida de pecado e desejo. 

Os temas centrais orbitam a dualidade entre a solidão e a liberdade, a dor da exaustão e a esperança de um "novo amor". Sacharuk utiliza a metáfora da antropofagia para descrever a sobrevivência emocional — uma "alquimia dos elementos" que transforma chagas em cicatrizes.

A reinterpretação que ele faz do mito da "Capuchinho" é de arrepiar, trazendo à tona a "vã inocência" e os desejos que habitam o escuro das florestas — e das nossas mentes. É um convite para entender o saldo dos nossos próprios estragos.

"Andei vasculhando as gavetas. Memórias de fatos bloqueados, de tsunamis, naufrágios e tormentas."

"Vermelho era o pecado tingido na vã inocência."

"Estou assim tão só enquanto ela dorme. Vivo assim tão só quando ela é livre."

"Imitas o som, o som das coisas, o som dos lugares, o som do coração das criaturas."

"Antropófaga, bebe um copo de sangue, insensata devora os próprios músculos."

Vale assistir a esta obra pela coragem de Wasil em expor as "gavetas" que a maioria de nós prefere manter trancadas. É uma experiência sensorial que desafia o espectador a confrontar seus próprios "saldos de estragos" e encontrar beleza na crueza da existência.

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