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cova das sinas

   cova das sinas


aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
nalgum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim meio louco
não conheço o tal deus
nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

um toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita o anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e o insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos

wasil sacharuk










colcha de margaridas

  colcha de margaridas


teu umbigo é um ótimo abrigo
onde quero morar
e os mamilos tão equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés desinteressadas

teus cabelos quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo a sorrir divertidos

eu te desadorno eu te desenfeito
desrascunho e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí tão linda
nudez em relevo sobre o plano
da velha colcha de margaridas

wasil sacharuk






avoada

 avoada


a alma anda avoada
avenidas afora
ainda alquebrada
antes andava amarga
anda agora aliviada

anda alçada aos ares
arremeda animais alados

alavanca as alturas
até a aura azul
assiste aves atmosféricas
aplaudindo aos astros
até Apolo avermelhar
a aurora ametista

as aspas abolidas
antecedem alíneas
abortam artigos abreviados
abonam apóstrofos
argumentos acumulados

ao anoitecer
a alma ainda acordada
acorrentada ao aço 
abandona a armadura

ademais 
a alma agora admite
arrebentar as algemas

wasil sacharuk







nota:

A jornada da alma transita da dor  para um estado de leveza, liberdade e autoconsciência. 
 A alma, que "antes andava amarga", agora está "aliviada". A mudança é enfatizada pela imagem dela "alçada aos ares" e "arremedando animais alados", indicando um desejo de liberdade e ascensão. 
 A alma se torna uma observadora do cosmo, "assistindo aves atmosféricas" e "aplaudindo aos astros". A menção a "Apolo avermelhar a aurora ametista" traz uma dimensão mitológica e sugere uma nova percepção da beleza do mundo. A alma não apenas voa, mas também se conecta com o universo.
A menção de "aspas abolidas" e a forma como a linguagem é tratada ("antecedem alíneas", "abortam artigos abreviados", "abonam apóstrofos" é uma desconstrução de antigas narrativas que aprisionavam a alma. A ideia de "argumentos acumulados" sugere um processo de autoanálise e redefinição.
 Mesmo "ao anoitecer", a alma permanece "ainda acordada", o que indica uma vigilância e uma nova consciência. A imagem de ela estar "acorrentada ao aço" e "abandonar a armadura" é poderosa, simbolizando o abandono de defesas e limitações impostas. O clímax  "a alma agora admite arrebentar as algemas"  é um reconhecimento de sua própria força e da necessidade de se libertar de qualquer prisão.
"Avoada" nos convida a refletir sobre a capacidade de transformação. Sacharuk nos guia pela jornada de uma alma que, ao se libertar das amarras do passado, encontra a leveza, a contemplação e, finalmente, a coragem de romper com  aquilo que a impede de ser livre. 





rosa trepadeira

 rosa trepadeira 


ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofertam
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da marés 

dançamos a canção da maré

wasil sacharuk




topografia

topografia


à espreita
olhos de sol
à noite são luas
iluminam a perfeição
das dunas
as digitais deslizam
círculos perfeitos
d'areias silenciosas
brancas e finas

pele tenra
frutos doces
pêssegos maduros
linhas contornam
desejos silvestres
pedem urgência
antes que o dia se rompa

flui a lagoa aberta
límpida potável
no declínio da sede
engasga o verbo
e sussurra
conjuga a língua
ao gerúndio das vontades

a brisa quente
chega do mar
viajando por córregos
beija as reentrâncias
trilhas clandestinas
encontra nos poros
versos de ouro
à fartura dos potes

wasil sacharuk





da tua janela

 da tua janela 

te escuto respirar
na noite adormecida
se entro pela tua janela

as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros
contigo na nova manhã

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

te escuto respirar
se entro à noite
pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

e acordar pássaros contigo
na nova manhã

wasil sacharuk 



SACHARUK - AVOADA Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - AVOADA 

Uma performance visceral de "spoken word", onde a poesia não é apenas lida, mas habitada. Através de uma sequência de poemas que parecem se fundir uns aos outros, somos levados de um quarto silencioso a florestas estranhas e dunas infinitas. A voz, marcada por pausas precisas e uma cadência quase hipnótica, transforma a audição em uma experiência de imersão.

O Despertar da Alma e o Olhar que Transforma

A obra abre com uma entrega absoluta. O eu lírico descreve o ato de observar o outro como um exercício espiritual e físico. A repetição da frase "até o amor verter sobre mim" (trecho do vídeo/poema) funciona como um mantra de purificação e paciência. É o reconhecimento de quem se sabe errante, mas que escolhe a permanência e a respiração como forma de entendimento.

A performance transita para imagens de uma natureza rica e tátil. Há uma sensualidade latente na descrição das dunas e dos frutos, onde o corpo e a terra se confundem. A citação "Círculos perfeitos de areias silenciosas, brancas e finas" (trecho do vídeo/poema) ilustra essa perfeição geométrica do desejo. A figura da "Rosa Trepadeira" surge como uma presença mística que "habita a estranha floresta", conectando o humano ao selvagem de forma lúdica e profunda.

Um dos pontos altos é a exploração da alma que, antes amarga, agora se encontra aliviada. O uso magistral de aliterações com a letra "A" cria um ritmo de ascensão: "A alma agora admite arrebentar as algemas" (trecho do vídeo/poema). É o momento de virada, onde o peso da "armadura" é abandonado em favor da leveza do voo.

A performance captura as nuances do "gerúndio das vontades", oferecendo um refúgio para quem busca na poesia uma forma de respirar em meio ao caos. É um convite para "desadornar" a alma e encontrar beleza na nudez do ser.

É uma obra sobre paciência, sobre o tempo de maturação dos afetos e a coragem de se deixar levar pela maré. A alma, antes acorrentada, aqui encontra o seu céu: "A alma agora admite arrebentar as algemas".

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