cova das sinas
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
cova das sinas
colcha de margaridas
colcha de margaridas
teu umbigo é um ótimo abrigo
onde quero morar
e os mamilos tão equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés desinteressadas
teus cabelos quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo a sorrir divertidos
eu te desadorno eu te desenfeito
desrascunho e desescrevo
cada pedaço de ti
e tu aí tão linda
nudez em relevo sobre o plano
da velha colcha de margaridas
wasil sacharuk
avoada
avoada
a alma anda avoada
avenidas afora
ainda alquebrada
antes andava amarga
anda agora aliviada
anda alçada aos ares
arremeda animais alados
alavanca as alturas
até a aura azul
assiste aves atmosféricas
aplaudindo aos astros
até Apolo avermelhar
a aurora ametista
antecedem alíneas
abortam artigos abreviados
abonam apóstrofos
argumentos acumulados
ao anoitecer
a alma ainda acordada
abandona a armadura
ademais
a alma agora admite
arrebentar as algemas
wasil sacharuk
rosa trepadeira
rosa trepadeira
topografia
topografia
à espreita
olhos de sol
à noite são luas
iluminam a perfeição
das dunas
as digitais deslizam
círculos perfeitos
d'areias silenciosas
brancas e finas
pele tenra
frutos doces
pêssegos maduros
linhas contornam
desejos silvestres
pedem urgência
antes que o dia se rompa
flui a lagoa aberta
límpida potável
no declínio da sede
engasga o verbo
e sussurra
conjuga a língua
ao gerúndio das vontades
a brisa quente
chega do mar
viajando por córregos
beija as reentrâncias
trilhas clandestinas
encontra nos poros
versos de ouro
à fartura dos potes
wasil sacharuk
da tua janela
da tua janela
te escuto respirarna noite adormecida
se entro pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros
contigo na nova manhã
eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar
não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim
eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim
te escuto respirar
se entro à noite
pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar
não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim
eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim
e acordar pássaros contigo
na nova manhã
SACHARUK - AVOADA Full - poesia falada spoken word
SACHARUK - AVOADA
Uma performance visceral de "spoken word", onde a poesia não é apenas lida, mas habitada. Através de uma sequência de poemas que parecem se fundir uns aos outros, somos levados de um quarto silencioso a florestas estranhas e dunas infinitas. A voz, marcada por pausas precisas e uma cadência quase hipnótica, transforma a audição em uma experiência de imersão.
O Despertar da Alma e o Olhar que Transforma
A obra abre com uma entrega absoluta. O eu lírico descreve o ato de observar o outro como um exercício espiritual e físico. A repetição da frase "até o amor verter sobre mim" (trecho do vídeo/poema) funciona como um mantra de purificação e paciência. É o reconhecimento de quem se sabe errante, mas que escolhe a permanência e a respiração como forma de entendimento.
A performance transita para imagens de uma natureza rica e tátil. Há uma sensualidade latente na descrição das dunas e dos frutos, onde o corpo e a terra se confundem. A citação "Círculos perfeitos de areias silenciosas, brancas e finas" (trecho do vídeo/poema) ilustra essa perfeição geométrica do desejo. A figura da "Rosa Trepadeira" surge como uma presença mística que "habita a estranha floresta", conectando o humano ao selvagem de forma lúdica e profunda.
Um dos pontos altos é a exploração da alma que, antes amarga, agora se encontra aliviada. O uso magistral de aliterações com a letra "A" cria um ritmo de ascensão: "A alma agora admite arrebentar as algemas" (trecho do vídeo/poema). É o momento de virada, onde o peso da "armadura" é abandonado em favor da leveza do voo.
A performance captura as nuances do "gerúndio das vontades", oferecendo um refúgio para quem busca na poesia uma forma de respirar em meio ao caos. É um convite para "desadornar" a alma e encontrar beleza na nudez do ser.
É uma obra sobre paciência, sobre o tempo de maturação dos afetos e a coragem de se deixar levar pela maré. A alma, antes acorrentada, aqui encontra o seu céu: "A alma agora admite arrebentar as algemas".
#PoesiaFalada #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #SpokenWord #ArteESentimento #PoesiaViva #Cultura #AlmaAliviada #AmorEArte #ResenhaLiteraria
-
alívio busca o alívio pelo sangue que jorra dos buracos de faca nesse mar gosma verde nesse século de sede num dia de ressaca busca o alív...
-
um lugar quando esse frio for embora quando essa chuva passar entre as canecas de café haverá para nós um lugar a laguna d...
-
vagos vinténs vaga vasta vivos vãos variante vacilo vácuo! ventos virão virarão vendavais valentes vertentes varrerão vilipêndios varrerão...