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beat eloquente

beat eloquente 


andei e não cheguei
a lugar algum

feito um caetano
há tantos anos
  perdi o lenço
os documentos
agora espero 
que o tempo vente

metabolizo poesia
e decerto não poderia
fazer diferente
não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes

estive em busca de mim
e no fim
estive ausente
andei de frente para trás
andei de trás para frente

acho que sei
como funciona
o processo da mente
que agrega valor
e arquiva seus bytes
em rabiscos de amor
num beat eloquente

andei e não cheguei
a lugar algum

na última vez que veio ao sul
meu saudoso amigo raul
baixou no meu terreiro
bebeu da minha marafa
e ainda roubou meu isqueiro

está circunscrito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
eu não vivo aflito
acho tudo normal
e me dou por contente

wasil sacharuk



estranhamento

estranhamento 

preciso que a poesia
imersa no estranhamento
me conte as novidades
eleve meu autoconhecimento
me afaste da minha rotina
duvide das minhas verdades
desvende o extraordinário
garimpado entre as latrinas
dispare flashes aleatórios
em camadas de significados
talvez uma palavra inusitada
 talvez um toque surpreendente

wasil sacharuk 






 

récita IV

 récita IV



019

há uma linguagem
de quem compreendeu
que o amor não é escolha
é geografia do corpo
é o lugar onde se nasce
sem ter pedido para nascer

os demônios nos ombros
as flores órfãs
o elefante de patas longas
caminha sobre os sonhos

pois o que toca
é essa confissão final
essa urgência em sangrar
para não enlouquecer
de ser quem se é

porque a ferida
é o único lugar
onde a gente ainda respira
quando tudo mais sufoca

wasil sacharuk


020

ouço a voz que se desdobra
primeiro ferida
depois néctar
depois o sangue que salva
é a voz de quem conhece
o peso exato da contradição
de quem habita simultaneamente
a recusa e o desejo
a morte e a ressurreição

reconheço o ritmo que pulsa
quando o corpo aprende
que amar é uma loucura necessária

wasil sacharuk


021

meus demônios habitam meus ombros
como corvos que conhecem meu nome
observam-me devorar espinhos
quando a revolta queima por dentro
o céu chove chumbo
o ouro que brilhava nos olhos vira cinza
eu grito para que meu próprio eco
me confirme vivo
meus demônios quando sorriem
minha fúria se dissolve
sentam-se comigo
pequenos e estranhos
para escutar o canto selvagem
que brota de minhas entranhas

wasil sacharuk


022

dança
mas não a dança graciosa
dança entre as flores apodrecidas
entre as raízes que se enroscam
em umbrais esquecidos
entre as chamas que consomem tudo
cobriremos de concreto o que era verde
e os pássaros levarão suas sementes
para o túmulo esquecido

wasil sacharuk






viagem da gota serena


viagem da gota serena

ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira
guiei um cometa
nas dunas de areia

costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

wasil sacharuk








aprendiz de silêncios

 aprendiz de silêncios


 deixa-me quedar
no abismo das ânsias
para entender o luar
e as distâncias

ensina-me as nuanças
do silêncio que fala
e que não sei escutar

mas que preciso
mesmo que não digas nada
que eu seja
aprendiz de silêncios

deixa-me fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

deixa-me ser rio
que te cerca
e tenta
a costear as vivências

dissolver coerências
molhar teus cabelos
que voam fáceis

deixa-me na luz
da tua lua
tuas fases refletir
rio de ondas lilases

talvez em mim nades

deixa-me fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

afaga as dores
acalma meus ventos
me ensina a ouvir
teus silêncios
teus silêncios
teus silêncios
um a um

wasil sacharuk





vento minuano

 vento minuano 


o vento minuano
pronunciava teu nome
soprava leveza em minha face
sussurrava verdades
ora contava segredos

o vento minuano
atendia aos apelos
embalados no tempo e no espaço
sua mão abria verdades
sua mão fechava os segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantava-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contava vontades
minha voz cantava meus medos

o vento minuano
vertia-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrava vontades
meu ventre vingava meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

wasil sacharuk






SACHARUK - GOTA SERENA Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - GOTA SERENA 

O Labirinto Sensorial de Wasil Sacharuk em "Gota Serena"

A Geografia do Corpo e o Estranhamento Poético  em uma performance que funde o canto melancólico à crueza do spoken word, Wasil Sacharuk apresenta um mosaico de existencialismo e regionalismo, onde o vento minuano sopra verdades e os demônios internos sentam-se à mesa para ouvir poesia.

Uma jornada não linear que começa com a desorientação do eu — "Andei e não cheguei a lugar algum" — e evolui para uma aceitação profunda das contradições humanas. Wasil navega por referências que vão de Caetano Veloso a Raul Seixas, ancorando sua lírica em elementos táteis: o frio do sul, a marafa, o isqueiro roubado e a "geografia do corpo". Os temas centrais orbitam a busca pela identidade, a necessidade do silêncio como ferramenta de aprendizado e a função da poesia como um "estranhamento" necessário para romper a rotina.

"Andei e não cheguei a lugar algum... estive em busca de mim e no fim estive ausente."

"O amor não é escolha, é geografia do corpo, é o lugar onde se nasce sem ter pedido para nascer."

"A ferida é o único lugar onde a gente ainda respira quando tudo mais sufoca."

"Preciso que a poesia imersa no estranhamento me conte as novidades... duvide das minhas verdades."

 Wasil Sacharuk não oferece respostas fáceis; ele convida o espectador a ser, como ele, um "aprendiz de silêncios". É uma obra essencial para quem busca na poesia mais do que rimas, mas um espelho para os próprios abismos.

"O amor não é escolha, é geografia do corpo." 🍷✨

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