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reconhecimento facial

reconhecimento facial 

havia cortes chanfrados
cuidadosos e laminados
brilhantemente polidos

estenderam-se tal lápides
espelhadas
cada qual com seus cantos
contornos e expressões

havia nuanças diversas
e milhares de olhos
pontiagudos
 matizes estranhos
em tons tergiversos

faces que delatavam belezas
juntadas às dores e tristezas
e além do possível
a fome de se fazer vida

faces vertentes de inexatidão
a linha tênue das crenças
e da satisfação

faces denotavam clichês
de amor e de ódio
pintadas de versos latentes
ideias escandalosas
e iluminuras
 formavam figuras
abstrações e palavras

havia faces ultrajadas
emoldurando sorrisos discretos
que pareciam felizes

havia faces e agora
vemos somente seus rostos
encravados
nas inexpressivas 
 cabeças imóveis

wasil sacharuk



mente dança

  mente dança


a mente dança
o corpo dói
despencam harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
pés fincados no chão

conquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
a mente canta
no entanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
a mente nada
portanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia dolorida
entretanto convida 
e o corpo reclama remanso

wasil sacharuk



véu do mistério

 véu do mistério


despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio

wasil sacharuk





amálgama

Amálgama 

A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como, a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego.

wasil sacharuk





desconstrução

  desconstrução

andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos areia e cimento

andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas

wasil sacharuk








estrelas abismadas

 estrelas abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
pouca bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
 teu ofício
os excessos os vícios
o tesão e as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

wasil sacharuk




SACHARUK - AMÁLGAMA Full - poesia falada spoken word



SACHARUK - AMÁLGAMA

Uma Imersão na Poesia de Wasil Sacharuk

Você já sentiu que sua mente dança enquanto seu corpo pede descanso? A poesia de Wasil Sacharuk captura exatamente esse conflito humano entre a eternidade do pensamento e a fragilidade da carne.

No vídeo "Amálgama", somos confrontados com a necessidade de aceitar nossa natureza selvagem e a falta de controle sobre os dias.

Wasil Sacharuk nos convida a um mergulho introspectivo através de uma performance que une a crueza da existência à delicadeza da linguagem. Em uma sequência de poemas que exploram a aceitação, a memória e a própria natureza do fazer poético, Sacharuk reafirma seu lugar como uma das vozes mais potentes da poesia contemporânea brasileira.

Começa com um chamado à aceitação do "bicho selvagem" que habita em nós, aceitando vícios, vaidades e a finitude. Segue para uma luta contra a cronologia em "Desconstrução", onde o eu lírico tenta reforçar as portas contra o fluxo inevitável do tempo. A obra também define a poesia não como um adorno, mas como um "amálgama do mundo", essencial para evitar o "absurdo de querer-se mudo".


"Aceita-te assim, bicho selvagem, sem maldades, pouca bagagem, nenhum controle."

"Andei contra a ordem do tempo, revivendo lembranças remotas."

"Absurdo é querer-se mudo. Absurdo é querer-se surdo. Absurdo é querer ser cego."

"Essa lida nutre um vício pelo ofício da linguagem."

"A mente dança sobre a carne. A moléstia dolorida."

Wasil Sacharuk não entrega respostas prontas, mas oferece sua própria "lida" com a linguagem como um remédio para a vertigem da vida.

Em tempos de tanta pressa, ouvir versos como "Andei contra a ordem do tempo, revivendo lembranças remotas" nos faz repensar como estamos construindo nossa própria história. É uma arte que incomoda e cura ao mesmo tempo.

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