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tsunami

  tsunami

eu quis inventar a canção
porém tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

wasil sacharuk









vagalumando

 vagalumando 


habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas piscantes
espocando pela orla

wasil sacharuk







chuva no quintal

  chuva no quintal (meu novo mundo abissal)

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

wasil sacharuk










alma lua

 alma lua


a noite é companhia
logo não ando sol
tenho o corpo nuvens
a alma lua
faço raiar poesia

wasil sacharuk











cascatas de cachos graúna

 cascatas de cachos graúna


minha amada sempre fala das horas
conduz meus dedos
aos bancos de areias brancas
fatal sutileza
suave textura

despenca cascatas
de cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovida
murmúrios de encantos
língua insana 
doutro planeta

minha amada desprende 
poeira radioativa das dunas
logo colhe maçãs no parque

mas do que mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando minha amada 
se despe em poesia

wasil sacharuk










colírio

 colírio (vagalume)


se queres ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎sob o luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎sobre a secura do teu olhar

wasil sacharuk









SACHARUK - ALMA LUA Full - spoken word poesia falada


SACHARUK - ALMA LUA 

ALMA LUA, com poemas de Wasil Sacharuk, não é apenas uma leitura de versos; mas um convite a um mergulho sensorial onde a palavra falada se funde à musicalidade para explorar as profundezas da alma humana. Em uma sequência de seis poemas, o autor nos conduz por um arco dramático que vai da contemplação delicada da natureza ao confronto abissal com a própria existência.

"Se queres ver poesia, cata um pingo da próxima chuva numa garrafinha de vidro". Aqui, Sacharuk estabelece a tese de que a poesia não está no extraordinário, mas na capacidade de filtrar a luz através da "secura do olhar". A performance, marcada por entonações pausadas e um fundo musical onírico, reforça essa atmosfera de descoberta.

Em "Cascatas  cachos graúna", a poesia ganha corpo e sensualidade. O autor utiliza metáforas geográficas — bancos de areia, dunas, cascatas — para descrever o corpo amado. A tese central deste trecho é a desmaterialização do ser no ato poético: "o que mais gosto (...) é quando minha amada se despe em poesia". 

O ponto de virada ocorre com "Chuva no quintal". O tom solar dá lugar a uma melancolia profunda. A ausência dos gnomos simboliza o fim do encantamento infantil e a chegada de um "novo mundo abissal". Há uma "fome de paz" que transparece na interpretação quase suplicante . É o momento mais humano da obra, onde o "entardecer chora cristais e neblina".

Wasil Sacharuk  habita a penumbra dos subterrâneos e a luz do sol com a mesma intensidade. Vale assistir para entender como a poesia pode ser, ao mesmo tempo, um refúgio contra o "mundo absurdo" e um tsunami que nos liberta da prisão das certezas.

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