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lagarto de fogo

  lagarto de fogo

evita saber o mistério
das chamas que ardem
no meu império
não desafia aos exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

tenho três cabeças
de naturezas indivisíveis
são rendições à beleza
conduzirão-te rasteira
ao inferno das posses
e minhas pernas fortes
montarão as carapaças
de venenosos escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória
da morte aos inimigos

rasgarei-te os pulsos
verterei do sangue
a mim consagrado
com felinas garras

e um lagarto de fogo
deslizará em teu corpo
a devorar sem amarras
e logo te curvará
ao meu eterno reinado

wasil sacharuk








luz de amizade

 

luz de amizade

eu aprendi
bem pequenino
cruzar estradas
cortar caminhos
assim eu cresci
quando aprendi
a rodar moinhos

não sei parar
eu rodo sozinho
não sei parar
estou tão cansado
tão cansado

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
 pra casa

traduzi em poesia
as coisas confusas
que escutei do silêncio
na areia eu dormi
já morri de amor
e de amor já vivi
conheci os mistérios
contei luas cheias
nossa luz de amizade 

não sei parar 
estou tão cansado
cansado 

pronuncio teu nome
e ainda te procuro
pelos cantos do mundo
pela nossa lealdade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias 
amigo te peço:
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

amigo te peço 
amigo te peço 
pai
me leva pra casa 


wasil sacharuk







de tanto voar

 de tanto voar


ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk






nereida de gesso

 nereida de gesso 


Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcações 
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais

wasil sacharuk





meus demônios

 

meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

wasil sacharuk















fui princesa

  fui princesa 

certa vez eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém
 não foi o meu fim 

decerto custou a delicadeza 
bem
ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa

wasil sacharuk




SACHARUK - SIGNOS Full - poesia falada spoken word