quarta-feira, 29 de outubro de 2025

enxaqueca

 da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

(enxaqueca)

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo
tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

wasil sacharuk







laranjeira

 laranjeira


laranjeira
brota verde faceira
semeada ao acaso
porém cresce pequena
cultivada em vaso

eu queria dar a ela
um reino do grande prado
para que vingasse inteira
ao som do silêncio absurdo
e um amor de sina campeira
para benzer os seus frutos

wasil sacharuk



murchaflor

  murchaflor

faço da estranha energia 
arrebentações de poesia
pouco de rima cercada de mágoa
sem cartola, coelho e brilhos
(troco o país das maravilhas)
pela solitude da minha ilha)
pouco de terra cercada de água
e finco a bandeira do exílio

meu cansaço de murchaflor
floresce do broto dos medos
desconheço como esquecê-los
e lograr teus doces desvelos

entre icebergs e folguedos
entendo os riscos do amor
cruzo do abismo ao esplendor
em busca dos meus arremedos

faço implodir meus castelos
arranco a raiz dos cabelos
a caneta presa entre os dedos
rabisca uma história sem cor

meu cansaço esfria o calor
e não faz detonar os levedos
dos olhos derramam colírios
a lavar esquizoides delírios

meus versos se viram em enredos
apartados de algum narrador
minha canção diluída na dor
do eco dos teus rochedos

wasil sacharuk





murchaflor

  dores de toda gente 


vi pela janela aberta
os nós do cotidiano
a natureza morta
para o deleite humano
 vi pelas grades tortas
semblantes indiferentes
cabeças girando tontas
dores de toda gente

haviam razões incertas
os mais tolos enganos
pessoas andando lentas
ratos saindo dos canos
crianças correndo soltas
em busca dos pais ausentes
cães mijando em volta
dores de toda gente

vi a carência farta
os pensamentos insanos
amor que mata e que corta
saúde restrita a planos
comportamentos psicopatas
ofertas de sexo quente
conversas vazias baratas 
dores de toda gente

as vidas resultam ingratas
e poderia ser diferente
são sempre tão inexatas
as dores de toda gente

wasil sacharuk





murchafor

 malva papoila


circunda leve 
a tromba-língua
ao botão da flor 
delicada

pétalas afastadas
e nos grãos
 falsos dentes 
falsos dedos
livres desvelos 
ao entorno

malva papoila
bailarina tão louca
e o poeta borboleta 
guarda na boca 
seu néctar

wasil sacharuk







flores n'água

 flores n'água


falsos amores bizarros
seduzidos e consumidos
nenhum deles foi caro
perecíveis tal flores
fugazes como os sabores
facilmente esquecidos
depois de provados

falsos amores frustrados
dilacerados rendidos
serviram como escravos
minha alcova de horrores
só ingênuos impostores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

convencidos e fascinados
tanto heróis ou bandidos
no fundo meros atores
canastrões amadores
 parasitas nocivos
e foram só patrocínio
de subvenções e agrados

as flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
no vaso regado de mágoas
catando a luz pelo ar

wasil sacharuk










terça-feira, 28 de outubro de 2025

demais

 

demais

aquilo que julgam demais não me consome
pois sempre vem, me tenta e depois some
contudo, não fica atracado em meu cais

não devaneio em barracos ou catedrais
não temo as valentias ou bulas papais
encontrei minha bússula na felicidade

não, não desejo comprar nenhuma verdade
só atendo aos chamados da minha vontade
e só o que sinto considero demais...

tenho o foco naquilo que sinto
e só o que sinto para mim é demais

wasil sacharuk






signo

 

 signo 

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

wasil sacharuk



balanço das roupas

   

balanço das roupas

a disposição era torta
contemporânea instalação
exposta em qualquer bienal
numa concepção universal

pendiam sarrafos do chão
tal atlas das roupas rotas
uma jazida de células mortas
oculta nos poros de um blusão

das brisas que sopram varal
ventam roupas em cor desigual
pingos pingados na imensidão
numa organização tão incerta

pediam por uma área aberta
para poder arejar o colchão
e secar os fluidos ao sol
esfregados com branco total

com gancho grampo e cordão
penduravam um mar de gotas
de limpas cheirosas e fofas
tramas têxteis de ilusão

wasil sacharuk






sais de banho

 sais de banho


subtraio-te os pensamentos
rasgo-te as roupas
arranco-te promessas
desde as singelas
até as mais loucas
misturo aos sais do teu banho 
partículas ocultas de mim

subtraio-te os vícios
teus fins teus inícios
drogas e culpas
invado domínios
subjugo o arbítrio
aos recônditos sinistros 
dos escondidos segredos
e dos ossos do medo

subtraio teu baú de artifícios
obscuros diamantes
lapidados na mente
 hades latente de fogo e lama

subtraio-te a liberdade 
se minha crueldade 
 te prende na cama

de novo e de novo

o que de ti subtraio
logo mais eu devolvo

wasil sacharuk




alívio

 alívio 

busca o alívio
pelo sangue que jorra
dos buracos de faca
nesse mar gosma verde
nesse século de sede
num dia de ressaca

busca o alívio
dessa dor que ataca
que judia que fere
a dor que te adoece
é a mesma que mata

busca o alívio
na crença ingrata
que te pede e promete
outro milênio
de novas bravatas

busca o alívio
numa letra de hino
nas ciências exatas
nos sistemas de ensino
na pintura abstrata

busca o alívio
nas ideias compradas
filosofias baratas
nas sentenças mais curtas
nas comidas em lata

busca o alívio
nas vivências passadas
nas certezas já prontas
que jamais dizem nada

wasil sacharuk



jardineiro

 


jardineiro

visitou o jardim
pousou a mão
sobre a indelicada
rosa vermelha

tão linda
abriu-se inteira
desejosa
exibiu sua beleza

o jardineiro
feito abelha
deslizou satisfeito
pela seiva

toques cálidos
resvalaram vontades
com paciência
com paixão
nos úmidos humores
da lírica flor

sucumbiram as pétalas
de tanto calor
lânguida rosa
indecorosa
liberta e plena
feito poesia

wasil sacharuk



esqueletos

 esqueletos ☠️💀🦴💀


naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

wasil sacharuk









das alturas

 


das alturas

enfrento as forças que ameaçam
desvio de ondas que não banham
das razões
a que eu desconheço
morro nas tramas que me apanham

são tantos ares
eu nem respiro
em tantos lares
eu já não entro
invado espaços que nem habito
moro em zonas que não frequento

viajo alturas que não alcanço
trago loucura para o remanso
sou prisioneiro 
da liberdade

de asas seguras eu não canso
a vida é dura mas tem encantos
não é utopia 
a felicidade

wasil sacharuk











jogos confusos

 jogos confusos


pensei em sangrar
os meus pulsos
pensei em cortar
os meus cabelos
escrever uma carta
pela última vez
registrar minhas letras

porém das lembranças
que terei do futuro
de mim voarão borboletas
cintilantes estrelas
no céu mais escuro

dos murros
dos muros
e das incertezas
desses jogos confusos

então quero viver
pintar aves nos céus
amainar asperezas
negociar com os sonhos
perdoar as mentiras
e morrer natural
pelos dias lentos
aprender a sorrir
eu quero viver

pensei em conter
meus impulsos
pensei em contar
meus segredos
pensei palavras exatas
dissecar minha tristeza
em poesia

mas as certezas
que eu ainda tinha
migrarão tal andorinhas
e outras novas belezas
tomarão seu lugar

então quero viver
e poisar no papel
as lágrimas belas
do universo tristonho
entender diferenças
e morrer bem normal
sem meus lamentos
aprender a viver
eu quero viver

wasil sacharuk 












onde vive o amor

  onde vive o amor


espero algo de ti
nunca sei dizer o que é
espero e não imagino
que nome isso tem
espero algo de alguém
minh'alma percorre desterros

procuro nos jardins
na casa de verão
entre teus cabelos
entre os vãos
bem dentro
onde vive o amor

sei que vejo uma cor
não sei dizer que cor é
minha mente sempre mente
visita um lugar
não sei ao certo onde é

procuro nos jardins
na casa de verão
entre teus cabelos
entre os vãos
bem dentro
onde vive o amor

wasil sacharuk













nenúfar

  nenúfar

se te fazes -morena- tão ninfácea - és nenúfar que se destaca doutros nenúfares do azul jardim - se te quero possuir e espero que sim - escalo montanhas alucino nas curvas em  total sincronismo entre a estrada e o fio do abismo
empresta tuas águas às enxurradas sob o olhar de Jaci a agarrar o firmamento - espero o momento de beijar-te morena  - teus lábios rosados ao pordossol ciumento

wasil sacharuk













rasgando e reunindo

 rasgando e reunindo


percorro a vida a te navegar
águas que pairam
a me refletir
desbravo-te pelo louco querer

teu laço para me desatar
lágrima e o sorriso para me dividir 
rasgando e reunindo o meu ser

wasil sacharuk






quarta-feira, 22 de outubro de 2025

passava e pensava

 passava e pensava


eu passava roupa
e pensava a ferro
ele assistia
sexo e futebol
e me tratava por louca

eu só queria amor
miséria pouca
é bobagem
eu passava
e pensava
em arrumar a bagagem

eu passava
diante dos olhos
ele não me via
e eu pensava
em morrer todo dia

eu pensava
ele não passava
e sempre dizia:
poetisa pretensa
só pensas em poesia

wasil sacharuk




falsa dor

 falsa dor


pecaminoso o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor
banhada de orvalho

melodicamente
uma a uma
gotas ao piano
reinventam o amor
em cadência suave
quebram asperezas 
retorcem
entornan 
torpor e suor

falsador do mistério
as pequenas mortes
segredam das pétalas

wasil sacharuk








perséfone diva

 perséfone diva 


linda dama enfeitada ♀️
doce perséfone diva
exibe frutos maduros
sinuosidades renascentistas
sob as madeixas cascatas
 sonha o conto de fadas
  o príncipe sabe de nada
 o dragão é o protagonista 🐲

wasil sacharuk






pequeno

 pequeno


eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno
        se te amo tão vasto

wasil sacharuk








completamente lua

 completamente lua 🌔


ela revolve mares de sal
e se oculta no beco 
ao final da minha rua
enquanto o sol
ainda veste pijama
ela  vem e me ama
completamente lua

wasil sacharuk



pioggia

 pioggia


 Lancei um pedido 
nas águas do mar
 estive perdido
 para me encontrar

 tanto fui louco 
a dialogar tuas mãos
 por espaços de coisas 
fora do lugar

 vivo escondido 
na esteira do tempo
 para nao sentir 
tua falta nunca mais

 vivo escondido 
detrás da tua porta
 para nao sentir 
tua falta nunca mais 

 eu sei pioggia 
meu castigo 
pioggia 

 eu choro pioggia 
meu castigo 
pioggia 

eu vivo escondido
 por espaços de coisas
 fora do lugar

 lancei um pedido 
para nao sentir 
tua falta nunca mais 

 eu sei pioggia 
meu castigo 
pioggia 

eu choro pioggia 
meu castigo
 pioggia. 

 wasil sacharuk




terça-feira, 21 de outubro de 2025

roda do tempo

  roda do tempo 

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk



nereida de gesso

 nereida de gesso 


Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcações 
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais

wasil sacharuk



alma nas paredes

 alma nas paredes


aqui é cinzento nessas casas lindas do século XVIII suas paredes têm alma aqui são tristes passam calmas as noites frias e dos úmidos dias apenas ouço os murmúrios 
aqui é escuro profundo tal poço as cores sombrias perpassam os olhos intrusos que me habitam
aqui é cinzento nessas casas lindas do século XVIII eu ainda te vejo vejo para sempre

wasil sacharuk





errante

 errante


vi o amor sereno
gravar versos nas tábuas d'alma

vi o dia de calma
desconheci as alturas e as quedas
entre as estrelas e o piso
impensados movimentos
invariavelmente imprecisos

vi a força do vento
refrescar o sorriso de dentes de pedra
e de corte diamante
que rompeu horizontes das fronteiras
entre vida e morte do céu e da terra

vi o nada que espera
além do norte e doutras esferas
onde habitam extintos mamutes urubus e elefantes

vi teus olhos distantes
a esconder vagalumes
que apagam e acendem luzes incertas
brilhando fortes nos meus versos

vi os sonhos dispersos
no meu planeta conciso
tal marés violentas á deriva da sorte
navegando errantes
 distantes do que chamei paraíso

wasil sacharuk








de tanto voar

 de tanto voar


ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk






meus demônios

 

meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

wasil sacharuk











quarta-feira, 15 de outubro de 2025

fui princesa

  fui princesa 

certa vez eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém
 não foi o meu fim 

decerto custou a delicadeza 
bem
ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa

wasil sacharuk



chuva no quintal

  chuva no quintal (meu novo mundo abissal)

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

wasil sacharuk








cascatas de cachos graúna

 cascatas de cachos graúna


minha amada sempre fala das horas
conduz meus dedos
aos bancos de areias brancas
fatal sutileza
suave textura

despenca cascatas
de cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovida
murmúrios de encantos
língua insana 
doutro planeta

minha amada desprende 
poeira radioativa das dunas
logo colhe maçãs no parque

mas do que mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando minha amada 
se despe em poesia

wasil sacharuk







tsunami

  tsunami

eu quis inventar a canção
porém tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

wasil sacharuk






algoritmo

 

algoritmo

por detrás da minha face ninguém sabe meus intentos todas coisas que eu penso todas coisas que eu sinto
não sabem dos artefatos que jamais serão usados minha prece ao oceano em silêncio desvelado
e não podem ver as ruas os saraus onde eu estive meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
também não veem o sangue que escorre das feridas desconsideram os medos cimentados nas paredes
e são cegos para as sombras quando iludem a visão misturadas às penumbras traçam minha intuição
até tentam ver a lua onde vive a solidão meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
não entendem quando a dor se esconde sob a pele e não falam o dialeto os subterfúgios da mente
jamais podem flagrar nuas minhas musas eloquentes e meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma

wasil sacharuk






🤯 ALGORITMO DA ALMA: Será que alguém nos conhece de verdade? 🤯

Em uma era dominada por algoritmos que tentam nos decifrar, o poeta Wasil Sacharuk nos brinda com um poema que nos convida a uma reflexão profunda e, ao mesmo tempo, libertadora: "algoritmo".

Ele nos lembra que, por trás da face que mostramos ao mundo, existe um universo inteiro de:

✨ "intentos"

✨ "coisas que eu penso, coisas que eu sinto" ✨ "artefatos que jamais serão usados" ✨ "minha prece ao oceano em silêncio desvelado"

O que realmente nos move? Quais são os saraus da nossa alma, os rios de lágrimas invisíveis, os medos cimentados nas paredes internas? 

Cada um de nós é um sistema complexo, guiado por um "algoritmo d'alma" único e intransferível. Ninguém pode realmente "flagrar nuas" nossas musas ou entender os "subterfúgios da mente". E talvez essa seja a beleza maior: a nossa essência, a nossa verdade mais profunda, reside nesse espaço sagrado e intocável. 💫

Qual parte do seu "algoritmo d'alma" você sente que é a mais secreta e poderosa? Compartilhe nos comentários! 👇

#WasilSacharuk #AlgoritmoDaAlma #PoesiaQueConecta #MundoInterior #LiteraturaBrasileira #Reflexao #Sentimentos #EssenciaHumana #ArteDeSentir #PoesiaContemporanea #Autoconhecimento


luz de amizade

 

luz de amizade

eu aprendi
bem pequenino
cruzar estradas
cortar caminhos
assim eu cresci
quando aprendi
a rodar moinhos

não sei parar
eu rodo sozinho
não sei parar
estou tão cansado
tão cansado

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
 pra casa

traduzi em poesia
as coisas confusas
que escutei do silêncio
na areia eu dormi
já morri de amor
e de amor já vivi
conheci os mistérios
contei luas cheias
nossa luz de amizade 

não sei parar 
estou tão cansado
cansado 

pronuncio teu nome
e ainda te procuro
pelos cantos do mundo
pela nossa lealdade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias 
amigo te peço:
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

amigo te peço 
amigo te peço 
pai
me leva pra casa 


wasil sacharuk





vagalumando

 vagalumando 


habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas piscantes
espocando pela orla

wasil sacharuk






da tua janela

 da tua janela 


te escuto respirar
na noite adormecida
se entro pela tua janela

as coisas que te pertencem
se mesclam a mim
quero acordar pássaros
contigo na nova manhã

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

te escuto respirar
se entro à noite
pela tua janela
as coisas que te pertencem
se mesclam a mim

eu já sei quem eu sou
sei do tanto que erro
ainda insisto te olhar

não vou embora
não vou sumir
só vou respirar
até o amor verter sobre mim

eu quero tentar
quero entender
até o amor verter sobre mim

e acordar pássaros contigo
na nova manhã

wasil sacharuk 



verde de limo

 



verde de limo

tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

wasil sacharuk







calos

 calos 

conta uma história linda
sobre as virtudes mágicas
daquelas mulheres antigas
lavadeiras tão trágicas
cantadoiras das cacimbas
sob os calos escondiam 
as linhas das suas mãos
sobre as dores imprimiam
as suas linhas da vida

wasil sacharuk





cabocla

 cabocla


caboca da tez tatuada 
verde vestido ao vento 
pedala a bicicleta velha 
nos caminhos de fogo da terra

caboca sabe que o mar
apaga o fogo da terra
que a lua brilha na serra
também movimenta maré

caboca aos passos lentos 
entrecruza as queimadas 
sua voz encanta a toada
embalando os lamentos

caboca tem pé jenipapo
e tem outro pé canindé
carnaúba cerrado banana
tem coco tem sede tem fé

caboca do pé de serra 
alma rendada de birro  
 forja nas incertezas
 a resignação e a espera

caboca tem nome de ana
alice francisca maria 
tem maracatu tem poesia
na festa de são josé

caboca do sacramento 
das mulheres abnegadas 
da vida que não cobra nada 
além dos próprios tormentos

wasil sacharuk 




avoada

 avoada


a alma anda avoada
avenidas afora
ainda alquebrada
antes andava amarga
anda agora aliviada

anda alçada aos ares
arremeda animais alados

alavanca as alturas
até a aura azul
assiste aves atmosféricas
aplaudindo aos astros
até Apolo avermelhar
a aurora ametista

as aspas abolidas
antecedem alíneas
abortam artigos abreviados
abonam apóstrofos
argumentos acumulados

ao anoitecer
a alma ainda acordada
acorrentada ao aço 
abandona a armadura

ademais 
a alma agora admite
arrebentar as algemas

wasil sacharuk






nota:

A jornada da alma transita da dor  para um estado de leveza, liberdade e autoconsciência. 
 A alma, que "antes andava amarga", agora está "aliviada". A mudança é enfatizada pela imagem dela "alçada aos ares" e "arremedando animais alados", indicando um desejo de liberdade e ascensão. 
 A alma se torna uma observadora do cosmo, "assistindo aves atmosféricas" e "aplaudindo aos astros". A menção a "Apolo avermelhar a aurora ametista" traz uma dimensão mitológica e sugere uma nova percepção da beleza do mundo. A alma não apenas voa, mas também se conecta com o universo.
A menção de "aspas abolidas" e a forma como a linguagem é tratada ("antecedem alíneas", "abortam artigos abreviados", "abonam apóstrofos" é uma desconstrução de antigas narrativas que aprisionavam a alma. A ideia de "argumentos acumulados" sugere um processo de autoanálise e redefinição.
 Mesmo "ao anoitecer", a alma permanece "ainda acordada", o que indica uma vigilância e uma nova consciência. A imagem de ela estar "acorrentada ao aço" e "abandonar a armadura" é poderosa, simbolizando o abandono de defesas e limitações impostas. O clímax  "a alma agora admite arrebentar as algemas"  é um reconhecimento de sua própria força e da necessidade de se libertar de qualquer prisão.
"Avoada" nos convida a refletir sobre a capacidade de transformação. Sacharuk nos guia pela jornada de uma alma que, ao se libertar das amarras do passado, encontra a leveza, a contemplação e, finalmente, a coragem de romper com  aquilo que a impede de ser livre. 





capuchinho

 Capuchinho


vermelho era o pecado
tingido na vã inocência
ela andava só sem licença
trazia doces confeitados
de sabores atávicos 

no seu cesto de enlaces
os sonhos de chocolate
deleites aos vícios
e um caderno riscado
com versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia o auspício 
de desafiar o velho lobo
seduzido ao escopo
de logo comê-la 

e assim a pequena
melindrada cobria a cabeça
no rubro pano
 que a desonra do engano
jamais lhe apareça

wasil sacharuk







sexta-feira, 10 de outubro de 2025

vambora

  


vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gheto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gheto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
forever 

amora
let's go
I promise you

wasil sacharuk






animalia

 animalia


no dia em que te conheci
pulaste como uma foca
desfilaste tal pata
trombaste que nem elefoa
tramaste feito aranha
correste igual a pantera

no dia em que te comi
rebolaste tal cobra
miaste que nem uma gata
rugiste feito leoa
mordeste igual a piranha
gozaste feito uma égua

wasil sacharuk






sideral

 sideral


poeta alienígena
dos ares facínoras
habita a nuvem
nave mãe coerente
construída para ti
no feixe de espaço
estranho e distante
em que constelas

ele pode
pincelar falsas telas
fazer pouco caso
tripudiar das escolhas
inverter as letras
travar poesia na prosa

talvez só acredite
na finitude das coisas
na tolice das minhas
na doença das tuas
na perplexidade
das todas

sideral iluminado
jaz ao lado
do olho da lua
de máscara turva
sobre a face

wasil sacharuk




amor pimenta

 amor pimenta 🌶️ 

o amor diz coisas
que eu já não entendo
o amor faz coisas
que não sei explicar

o amor adentra
por janelas abertas
o amor sopra vento
rasga raio e tormenta

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

o amor sente coisas
que cortam por dentro
o amor tem asas
que me fazem voar

o amor se inventa
por palavras incertas
o amor canta o tempo
feito em música e letra

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

wasil sacharuk





espere-me

  espere-me


sei que me mostras
o quanto me amas
apesar de tudo

e eu fico mudo
se perdes o tempo
embalando as noites

eu nunca prometo
fazer diferente
do que fiz antes
de detonar o mundo

mas eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

eu sei que causas
tanta destruição
sempre que me vens

e não há nada
que faça mudar
a ideia maluca
que sempre me consome

e eu nunca prometo
fazer diferente
do que fiz antes
de detonar o mundo

pois eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

nós somos mares
de marés confusas
sou dos teus males
de mim és musa

espere-me

o quanto me queres
em meio às noites
enquanto me feres
com teus açoites

espere-me

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

wasil sacharuk





ausência

  ausência

poesia tão minha foi embora
jurou voltar nunca mais
levou sua escova de dentes
saiu pela porta da frente

não restou um resquício da paz
dos amores e dores de outrora
jogou suas malas lá fora
foi atracar noutro cais

restaram os versos recentes
desnorteados e inconsequentes
ecoantes estrofes abissais
dissonantes rimas simplórias

não sei o que faço agora
pois já fui um poeta capaz
minha verve sangra doente
a esperar pela musa ausente

e se ela voltar nunca mais
viverei das nossas histórias
a secar a saudade que chora
a falta que ela me faz

wasil sacharuk








navegantes do escuro

navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino.


wasil sacharuk






verve

 verve


larguei minhas rimas por um dia para escrever prosa poética
a dita é mais imagética não levo jeito para isso um enguiço 
e não me surpreende não sou o Celso Mendes
mas isso não me abate pois sou poeta do tipo que liga batatinha quando nasce com tomate e alface
daí não dá briga é só o enlace
poeta que rima tem a rima como guia e a danada é que manda na maldita poesia
coisa de quem considera o leitor
que sempre espera algo além do chavão de juntar amor com dor
coisa sem sabor
a tal prosa poética favorece o fluxo e também o refluxo
e incita uma veia profética meio descabida patética e aflita
talvez um dia a poesia me deixe como peixe fora d'água e eu me abrace com a prosa
mas de rosa não sei falar
nem de deus, carnaval, natal, papai noel e rei momo
o que digo não cabe no céu e nem no mundo abissal
não sou poeta do tipo que escreve o que vive ou que vive o que escreve mas do tipo que junta o arquivo e a verve
é a verve... é a verve

wasil sacharuk




 



tão só

 tão só 


na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por ela
no espaço vazio
mas nada emana
do vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

na noite passada 
morri em lençóis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
para ser libertado
de qualquer encanto
para ser libertado
de qualquer desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

wasil sacharuk



rosa trepadeira

 rosa trepadeira 


ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofertam
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da marés 

dançamos a canção da maré

wasil sacharuk








anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...