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enxaqueca

 da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

(enxaqueca)

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo
tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

wasil sacharuk







laranjeira

 laranjeira


laranjeira
brota verde faceira
semeada ao acaso
porém cresce pequena
cultivada em vaso

eu queria dar a ela
um reino do grande prado
para que vingasse inteira
ao som do silêncio absurdo
e um amor de sina campeira
para benzer os seus frutos

wasil sacharuk



murchaflor

  murchaflor

faço da estranha energia 
arrebentações de poesia
pouco de rima cercada de mágoa
sem cartola, coelho e brilhos
(troco o país das maravilhas)
pela solitude da minha ilha)
pouco de terra cercada de água
e finco a bandeira do exílio

meu cansaço de murchaflor
floresce do broto dos medos
desconheço como esquecê-los
e lograr teus doces desvelos

entre icebergs e folguedos
entendo os riscos do amor
cruzo do abismo ao esplendor
em busca dos meus arremedos

faço implodir meus castelos
arranco a raiz dos cabelos
a caneta presa entre os dedos
rabisca uma história sem cor

meu cansaço esfria o calor
e não faz detonar os levedos
dos olhos derramam colírios
a lavar esquizoides delírios

meus versos se viram em enredos
apartados de algum narrador
minha canção diluída na dor
do eco dos teus rochedos

wasil sacharuk





murchaflor

  dores de toda gente 


vi pela janela aberta
os nós do cotidiano
a natureza morta
para o deleite humano
 vi pelas grades tortas
semblantes indiferentes
cabeças girando tontas
dores de toda gente

haviam razões incertas
os mais tolos enganos
pessoas andando lentas
ratos saindo dos canos
crianças correndo soltas
em busca dos pais ausentes
cães mijando em volta
dores de toda gente

vi a carência farta
os pensamentos insanos
amor que mata e que corta
saúde restrita a planos
comportamentos psicopatas
ofertas de sexo quente
conversas vazias baratas 
dores de toda gente

as vidas resultam ingratas
e poderia ser diferente
são sempre tão inexatas
as dores de toda gente

wasil sacharuk





murchafor

 malva papoila


circunda leve 
a tromba-língua
ao botão da flor 
delicada

pétalas afastadas
e nos grãos
 falsos dentes 
falsos dedos
livres desvelos 
ao entorno

malva papoila
bailarina tão louca
e o poeta borboleta 
guarda na boca 
seu néctar

wasil sacharuk







flores n'água

 flores n'água


falsos amores bizarros
seduzidos e consumidos
nenhum deles foi caro
perecíveis tal flores
fugazes como os sabores
facilmente esquecidos
depois de provados

falsos amores frustrados
dilacerados rendidos
serviram como escravos
minha alcova de horrores
só ingênuos impostores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

convencidos e fascinados
tanto heróis ou bandidos
no fundo meros atores
canastrões amadores
 parasitas nocivos
e foram só patrocínio
de subvenções e agrados

as flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
no vaso regado de mágoas
catando a luz pelo ar

wasil sacharuk










SACHARUK - MURCHAFLOR Full - poesia falada spoken word





SACHARUK - MURCHAFLOR

MURCHAFLOR já está no ar — e não sai da cabeça

Sabe aquele álbum que você dá play “só pra ver” e, quando percebe, já decorou os refrões? É o MURCHAFLOR. Camadas de voz, batidas que grudam e letras que apertam o peito na medida certa. É pop? É alternativo? É você no volume máximo. Melodias que abraçam, versos que cutucam e replay garantido.

Uma poética profunda, marcada por uma melancolia reflexiva e uma crítica social contundente através de metáforas urbanas e existenciais.

"As Dores de Toda a Gente" e a Estética do Desalento

A obra se inicia com uma poderosa metáfora da "janela aberta", que não oferece uma vista bucólica, mas sim os "nós do cotidiano". O eu lírico observa a realidade urbana como uma "natureza morta", onde o sofrimento humano é banalizado e consumido como espetáculo ("para o deleite humano").

🏙️ A letra é implacável ao descrever o cenário das cidades: cabeças tontas, semblantes indiferentes e a convivência grotesca entre "pessoas andando lentas" e "ratos saindo dos canos". Há uma denúncia clara da negligência afetiva e social, exemplificada nas "crianças correndo soltas em busca dos pais ausentes". O ambiente é de carência, pensamentos insanos e conversas "vazias e baratas", pintando um quadro de uma sociedade emocionalmente exausta e eticamente perdida.

🧠 O Embate Metafísico

Em um segundo momento, a poesia mergulha na crise intelectual do indivíduo. O autor transita entre a metafísica, a ética e a lógica, mas confessa que a realidade é "insana, cruel e estrambótica". Existe um desejo latente por um "apelo holístico" e "silogístico", uma busca por sentido que esbarra na dor física e emocional (enxaqueca, gastrite e incompreensão). A frase "a fé é uma falácia" resume o ceticismo diante de um mundo onde a verdade é inventada por "colagens de fragmentos".

🥀 Simbolismo e Desfecho

O uso de símbolos como a "laranjeira cultivada em vaso" ilustra o potencial humano podado pela estrutura social — algo que deveria ser gigante em um "grande prado", mas cresce pequeno e limitado.

O álbum termina com uma aceitação da solitude ("a solitude da minha ilha"), onde a poesia nasce não do brilho ou da mágica, mas da "estranha energia" das mágoas e do "broto dos medos".

🎯 O conteúdo é um convite ao inconformismo dialético. Não é uma obra de fácil digestão; ela obriga o espectador a encarar as "dores de toda a gente" que muitas vezes tentamos ignorar. É uma expressão artística crua sobre a dificuldade de manter a sanidade e a sensibilidade em um mundo que privilegia o "escambo entre o sim e o não" em vez da profundidade humana.

Assista agora e me diga qual faixa te pegou primeiro:

Poesia de WASIL SACHARUK

1. dores de toda gente
2. malva papoila
3. flores n'água
4. enxaqueca
5. laranjeira
6. murchaflor

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