Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras.
Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude.
O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade.
Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
pensei em sangrar os meus pulsos pensei em cortar os meus cabelos escrever uma carta pela última vez registrar minhas letras
porém das lembranças que terei do futuro de mim voarão borboletas cintilantes estrelas no céu mais escuro
dos murros dos muros e das incertezas desses jogos confusos
então quero viver pintar aves nos céus amainar asperezas negociar com os sonhos perdoar as mentiras e morrer natural pelos dias lentos aprender a sorrir eu quero viver
pensei em conter meus impulsos pensei em contar meus segredos pensei palavras exatas dissecar minha tristeza em poesia
mas as certezas que eu ainda tinha migrarão tal andorinhas e outras novas belezas tomarão seu lugar
então quero viver e poisar no papel as lágrimas belas do universo tristonho entender diferenças e morrer bem normal sem meus lamentos aprender a viver eu quero viver
se te fazes -morena- tão ninfácea - és nenúfar que se destaca doutros nenúfares do azul jardim - se te quero possuir e espero que sim - escalo montanhas alucino nas curvas em total sincronismo entre a estrada e o fio do abismo
empresta tuas águas às enxurradas sob o olhar de Jaci a agarrar o firmamento - espero o momento de beijar-te morena - teus lábios rosados ao pordossol ciumento
A navegação pelas águas turvas da dor e o grito de resistência na poesia falada. Um grito de sobrevivência e um abraço para quem precisa de esperança. Recomendo muito que tirem alguns minutos do dia para assistir e absorver cada palavra dessa performance.
Poesia de WASIL SACHARUK
DESTINOS TACANHOS é de uma crueza emocionante. O autor não esconde a dor, admitindo: "Pensei em sangrar os meus pulsos. Pensei em cortar os meus cabelos, escrever uma carta pela última vez". No entanto, é exatamente no fundo desse poço emocional que a poesia encontra sua maior força. A narrativa se transforma em um manifesto de resiliência, onde a vontade de existir fala mais alto, culminando no poderoso refrão: "Então, quero viver, pintar aves nos céus, amainar as perezas [...] Eu quero viver".
A performance ganha contornos épicos ao abordar as cicatrizes do tempo e as escolhas erradas ("Naveguei tantos mares, explorei outras terras... Abandonei causas velhas, pisei na fome e na bosta"), mostrando que a aceitação da vida inclui abraçar seus fracassos e os sonhos que ficaram pelo caminho.
DESTINOS TACANHOS toca na ferida da saúde mental sem romantizar a dor, mas oferecendo uma saída luminosa. A repetição do "Eu quero viver" funciona como um mantra de cura. É uma performance necessária para quem já se sentiu perdido e precisa lembrar que, apesar de tudo, "a vida é dura, mas tem encantos. Não é utopia a felicidade".
Você já sentiu que a vida é uma navegação por águas incertas, onde às vezes perdemos a direção? 🌊