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demais

 

demais

aquilo que julgam demais não me consome
pois sempre vem, me tenta e depois some
contudo, não fica atracado em meu cais

não devaneio em barracos ou catedrais
não temo as valentias ou bulas papais
encontrei minha bússula na felicidade

não, não desejo comprar nenhuma verdade
só atendo aos chamados da minha vontade
e só o que sinto considero demais...

tenho o foco naquilo que sinto
e só o que sinto para mim é demais

wasil sacharuk






signo

 

 signo 

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

wasil sacharuk



balanço das roupas

   

balanço das roupas

a disposição era torta
contemporânea instalação
exposta em qualquer bienal
numa concepção universal

pendiam sarrafos do chão
tal atlas das roupas rotas
uma jazida de células mortas
oculta nos poros de um blusão

das brisas que sopram varal
ventam roupas em cor desigual
pingos pingados na imensidão
numa organização tão incerta

pediam por uma área aberta
para poder arejar o colchão
e secar os fluidos ao sol
esfregados com branco total

com gancho grampo e cordão
penduravam um mar de gotas
de limpas cheirosas e fofas
tramas têxteis de ilusão

wasil sacharuk






sais de banho

 sais de banho


subtraio-te os pensamentos
rasgo-te as roupas
arranco-te promessas
desde as singelas
até as mais loucas
misturo aos sais do teu banho 
partículas ocultas de mim

subtraio-te os vícios
teus fins teus inícios
drogas e culpas
invado domínios
subjugo o arbítrio
aos recônditos sinistros 
dos escondidos segredos
e dos ossos do medo

subtraio teu baú de artifícios
obscuros diamantes
lapidados na mente
 hades latente de fogo e lama

subtraio-te a liberdade 
se minha crueldade 
 te prende na cama

de novo e de novo

o que de ti subtraio
logo mais eu devolvo

wasil sacharuk




alívio

 alívio 

busca o alívio
pelo sangue que jorra
dos buracos de faca
nesse mar gosma verde
nesse século de sede
num dia de ressaca

busca o alívio
dessa dor que ataca
que judia que fere
a dor que te adoece
é a mesma que mata

busca o alívio
na crença ingrata
que te pede e promete
outro milênio
de novas bravatas

busca o alívio
numa letra de hino
nas ciências exatas
nos sistemas de ensino
na pintura abstrata

busca o alívio
nas ideias compradas
filosofias baratas
nas sentenças mais curtas
nas comidas em lata

busca o alívio
nas vivências passadas
nas certezas já prontas
que jamais dizem nada

wasil sacharuk



jardineiro

 


jardineiro

visitou o jardim
pousou a mão
sobre a indelicada
rosa vermelha

tão linda
abriu-se inteira
desejosa
exibiu sua beleza

o jardineiro
feito abelha
deslizou satisfeito
pela seiva

toques cálidos
resvalaram vontades
com paciência
com paixão
nos úmidos humores
da lírica flor

sucumbiram as pétalas
de tanto calor
lânguida rosa
indecorosa
liberta e plena
feito poesia

wasil sacharuk



SACHARUK - VARAL Full - poesia falada spoken word



SACHARUK - VARAL

A vida é feita de pedaços, VARAL é onde a gente pendura cada um.

VARAL já está no ar — e cada poema é uma história pendurada ao vento, pronta para tocar o que você sente.

poesia de WASIL SACHARUK

Entre o erotismo e a angústia existencial, o poeta constrói um manifesto sobre a autenticidade do sentir. numa sequência poética que funciona como montanha-russa emocional, explorando diferentes facetas da condição humana.

VARAL se inicia com uma forte carga de sensualidade e lirismo, utilizando a metáfora da "rosa vermelha" e do "jardineiro feito abelha" para falar de desejo e entrega. Em seguida, o tom escurece e ganha contornos de possessão e intensidade arrebatadora ("Subtraio-te os pensamentos, rasgo-te as roupas").

O ponto de virada ocorre quando a paixão cede espaço para a angústia existencial. O eu lírico busca desesperadamente um alívio para a dor em um "século de sede", criticando a superficialidade das "ideias compradas" e das "filosofias baratas". Há também um olhar melancólico para a rotina e a finitude, culminando em um desfecho libertador: a recusa em se adequar aos julgamentos alheios e a escolha pela própria verdade.

"Languida rosa indecorosa, liberta e plena. Feito poesia."

"Busco o alívio nas ideias compradas, filosofias baratas, nas certezas já prontas, que jamais dizem nada."

"Encontrei minha bússola na felicidade. Não, não desejo comprar nenhuma verdade."

Wasil Sacharuk não pede licença para tocar em feridas abertas ou expor desejos profundos. É uma obra para quem aprecia uma poesia que não apenas é lida, mas que respira, sangra e se liberta em voz alta.

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