os setembros
terça-feira, 10 de março de 2026
os setembros
mortes pequenas
mortes pequenas
chuva e raio
chuva e raio
wasil sacharuk
angústia
angústia
os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo
sem desculpas
sequer refúgio
só angústia
tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade
sem desculpas
sequer refúgio
só angústia
e não há deus que te guie
e não há deus que te salve
eu no mundo
eu no mundo
wasil sacharuk
eu gosto de flor
eu gosto de florsabenão é dissaborque meu ato encerrao fatoé que gosto de flormas do tipofincada na terraflor de cerejeiradoce mistérioflor de bagaceirafatal seduçãoflor de carpideiraletal cemitérioflor de trepadeiradá no verãosabenão é desamorque meu trato anunciatão ingratode fatoeu gosto de florempetalando versosda poesiawasil sacharuk
a bifurcação
a bifurcação
wasil sacharuk
poeta poeta
poeta poeta
vórtice ascendente
vórtice ascendente
tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros
toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis
náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.
mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.
despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro
a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.
apenas certezas
transmutadas
em escombros
wasil sacharuk
brisa leve
brisa leve
wasil sacharuk
versículos
Faltavam-lhe palavras.
apocalipse
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
parteiras
parteiras
as mãos trazem signos
registros do destino
a memória das sinas
estigma-raio ametista
pureza em vertente
dedos e falanges
os fluidos quentes
nas mãos parteiras
queima a febre
revolução indomável
o enlace da corda
senso e silêncio
choro e grito
osso e sangue
cartada da sorte
a dor da passagem
cicatrizes na porta
as mãos parteiras
trazem a voz
os fachos da luz
o primeiro vento
a apontar o futuro
no fio do muro
entre as dicotomias
parteiras
as mãos impulsionam
nuvens de sonhos
bálsamo e espinho
a dureza dos calos
num eterno caminho
das mãos parteiras
a criação inaudita
a sutileza do corte
extenso e profundo
a mais nova viagem
de mais outro louco
que insiste em testar
os arcanos do mundo
wasil sacharuk
pacto de sangue
pacto de sangue
a mim tomaste
sem reservas
ao amor descabido
de estranheza
e loucura
nada pôde nos conter
nada!
no nosso inferno
fui tua
abriguei-te em mim
insólito amor
dos membros marcados
com dentes afiados
pacto de sangue
gotejou pelos cantos
das nossas bocas
selvagemente meu
e eu
deliciosamente tua
devoramos pedaços
ao assalto dos poros
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
foste a causa
da minha insanidade
amor desmedido
para ti me fiz linda
incandescência
deusa de carne
invadiste meus mundos
todos todos
plena entrega
tua voz úmida
inundou o meu olhar
ficou para sempre
criaste raiz
nas minhas células
fui tua mulher
semeei o teu nome
nos campos na lama
com dor e prazer
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos
wasil sacharuk
a cobiça
a cobiça
memórias em pó
memórias em pó
dor da saudade
dor da saudade
grãos de areia
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
a dor da saudade
sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
pulsando latente
debaixo da casca
da ferida
o tempo não apaga
o tempo não cura
somente acalanta
e ela anda silente
dentro da gente
sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
wasil sacharuk
vinho raro
vinho raro
wasil sacharuk
sábado, 31 de janeiro de 2026
contar estrelas
contar estrelas
dono das horas
flores de espera
flores de espera
amor abandono
amor abandono
ele desconheceu o impossível
desafiou tempo e espaço
Semeou no solo escasso
para provar seu poder
pelo simples saber fazer ser
a seu critério
lançou sementes
ao chão estéril
e logo fez chover
crescida
sua árvore do desejo
no tempo oportuno
gerou frutos doces
que lhe desceram
pela garganta
ao sobejo
a árvore esgotada
não mais o satisfez
nem sua intimidade
nem seu olhar
a árvore
do amor abandono
alheia à mão que a plantou
frutificou só por ser
sua natureza selvagem
vingou pelas matas
livre indiferente
silvestre
ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais
wasil sacharuk
meu doce diabo
meu doce diabo
destroços
destroços
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
camille
camille
ícaro negro
ícaro negro
facas de savanas
facas de savanas
minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto
e a pergunta é
devoro-te poeta?
mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora
devoro-te poeta?
ou me capturas?
entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor
sal e ferro
sal e ferro
wasil sacharuk
a unidade
a unidade
que nenhuma distância
separa dois corpos
no tempo e no espaço
surpreendeu-se
com as possibilidades
que falam línguas mortas
e perpassam sensações
percorrem caminhos insólitos
em trajes estranhos
a vida se estende além
do que rezam os livros
a natureza acomoda
grandezas incompreendidas
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
do seu quarto
ela viu e ouviu
provou os cheiros e gostos
das coisas distantes
com seus sentidos invisíveis
trocou olhares
com entes da floresta
conversou com as pedras
conheceu sua semelhança
com todas as coisas
e as coisas todas
a reconheceram
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
wasil sacharuk
um deus morre
um deus morre
um deus morre
ao abandono do íntimo
nas telas da publicidade
ao patrocínio das candidaturas
igrejas e nações
políticas e ditaduras
ao mote das facções
um deus morre
quando reside nas casas
entre códigos e domínios
ao conforto do trono
perante a servidão
quando crentes recitam
discursos medievais
um deus morre
cada vez mais
na fome no medo na dor
na corrupção no horror
onde não há um senhor
também não há satanás
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
um deus morre
pelos feixes de luz
que perpassam vitrais
e rebrilham no ouro
das paredes incrustadas
com as jóias de baal
um deus morre
na indiferença
das súplicas
à semelhança
dos súditos
mudo
mouco
em ruínas
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
wasil sacharuk
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
dama do xadrez
dama do xadrez
cunhã bailarinava
tal a dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez
seminua perambulava
descaminhos da noite
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite
ela dançava
tanto linda quanto louca
a sensual mímica da boca
entoava a toada
era ela e mais nada
índia mais linda da tribo
coisa mais sem sentido
morrer de morte matada
e seu canto
ninguém ouviu
seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite
cunhã bailarinava
dama do xadrez
a mais bela da tribo
dançava sem parar
coisa mais sem sentido
morrer depois de dançar
wasil sacharuk
vagos vinténs
vagos vinténs
vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!
ventos virão
virarão vendavais
valentes vertentes
varrerão vilipêndios
varrerão vilanias
vereis!
vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
vendendo vaginas
valendo vagos vinténs
vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!
vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs
vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
vomitarão verdades
ventos virão
virarão vendavais
vereis!
wasil sacharuk
autoamor singular
autoamor singular
desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco
finalmente entendeu
a Maria
que o amor
não quer desavenças
que quando
não tem poesia
é só simulacro
que a vida
não tem que ser dura
que o brilho
não deve ser fraco
cultivou novos dias
a maria
de um autoamor singular
que ocupa os espaços
pode cantar
pode dançar
sua melhor companhia
conduzir os seus passos
agora se encanta
a maria
do tanto que o amor
tornou-se vasto
desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco
esqueceu o desamor
que a matava
mentia e abraçava
só para lhe abusar
maria reinventada
liberta do sofrimento
deixou de viver de esperança
tornou-se empoderada
princesa de papel
ela era a princesa
do reino da freguesia
seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa
eu a via tão bela
no seu castelo de areia
sempre lá estava ela
a mais doce donzela
da minha aldeia
quiçá jogasse as tranças
se fosse a Rapunzel
logo eu teria esperança
de salvá-la da sua cadeia
de sonhos e devaneios
no seu mundo de papel
sempre a vejo princesa
saída dos livros e telas
fadinha ou Cinderela
sempre bela adormecida
a espera de um beijo
que a traga de volta à vida
esse conto de fadas
um dia irá terminar
da princesa aprisionada
passa a vida a sonhar
histórias sempre contadas
que todos sabem contar
wasil sacharuk
seriema avoada
seriema avoada
canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos
créé - créé
aninha-te em meu coração
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do meu firmamento
canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
anuncia chuvarada
em sons desgarrados
se o tempo
chorar seus lamentos
créé - créé
daqui te sinto
esvoaçante ao vento
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií
canta bonito
seriema avoada
ainda que a chuva
adentre a madrugada
daqui te ouço
teu canto teu grito
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií
wasil sacharuk
pesca artesanal
pesca artesanal
vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco
vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
sábado, 3 de janeiro de 2026
sentinela
sentinela
das tuas injúrias malditas
arquitetei teu calabouço
ofusquei a chama das velas
nas oportunidades distintas
que espreitei-te da janela
reinaste em meu hades
meu mestre
perdição e esperança
agora sou só espírito
a irromper pelas grades
sob a ira da vingança
deixo-te ir
afinal
à tua sorte miserável
rumo de passos aflitos
onde os desígnios do mal
arrancarão o teu último grito
daqui do meu quarto
ouvirei os badalos do sino
esperarei
sentinela
o encontro do fio do meu corte
com a linha do teu destino
wasil sacharuk
docemente
docemente
a morte beijou-lhe os lábios
tão docemente
o sangue verteu-se em regato
tão docemente
um demônio tomou-lhe o corpo
docemente
ao vento
seu último sopro
foi tão docemente
que o anjo entregou-a ao sábio
e o destino zombou tanto ingrato
o eterno atracou ao seu porto
a finitude lançou-a ao espaço
docemente
arrastaram-na sem correntes
a vida desfeita num laço
e ela pode partir
tão docemente
sem dor ou lamento
docemente
tão docemente
um beijo da vida
no ponto final
wasil sacharuk
anjos tocam falácias
anjos tocam falácias
jaz o silêncio instintivo
detrás da porta do quarto
jamais pergunte os motivos
jamais sentencie meus atos
arquiteto do mundo quadrado
imperfeito inexato e cativo
jamais me imprima em retratos
jamais tente ser meu alívio
nunca mais
nunca mais
suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas
não conto que você entenda
não espero a sua astúcia
não queira roubar minha graça
não drene a minha energia
suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas
wasil sacharuk
arcano zero
arcano zero
andarilho
bobo da corte
verso fútil no caminho
pedinte da própria sorte
de um parco naco de pão
e um cálice de vinho
arcano da branca rosa
da liberdade e da prosa
da trouxa de conhecimentos
ainda não conquistados
sob o firmamento
andarilho
bobo da corte
dos cães vadios enroscados
à barra das calças
engole borboletas
que anunciam a morte
sobrevoam a miséria
da vida obsoleta
sobre campos adubados
pelos restos da matéria
andarilho
pão e vinho
Bobo
engole borboletas,
morre de liberdade
morre de lamentos
wasil sacharuk
o leão
o leão
o leão corre insano pela noite
o leão corre insano pela noite
quando passa lento o tempo
troca minutos por sonhos
nas pegadas da insônia
tenho pernas cansadas
o felino esmaga gramíneas
ao entorno das savanas
quando eu tento respirar
refaço as linhas
caminho estelar
lá se unem os espaços
ao meu corpo astral
se chegar o ocaso
fecharei os olhos
para não ver o leão
quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir
o leão corre insano pela noite
quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir
eu já poderei ir
wasil sacharuk
tualma
tualma
textura de pedra
enfeita a ruína
amargura da sina
gosto de fogo
que a serpente desperta
abocanha rumina
desruga
desalma entrega
tualma
lembra café
frescor matutino
leite canela
capuccino
tal disse
o poeta vespertino
acerca da tua nudez
tualma
pedra e fogo
doçura e veneno
wasil sacharuk
anjos tocam falácias
anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...
-
anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...
-
vagos vinténs vaga vasta vivos vãos variante vacilo vácuo! ventos virão virarão vendavais valentes vertentes varrerão vilipêndios varrerão...
-
flores de espera tuas mãos riscam meu nome na areia o vento sopra aos meus olhos perdida ! perdida ao teu toque tua balada anuncia ...