terça-feira, 10 de março de 2026

os setembros

os setembros 


estive  debruçada à janela 
 a vigiar o teu quarto  
 verti sangue em poesia
 enquanto as supernovas
 guardavam teu sono 

 estive absorta
 em lembranças aleatórias
 dos contos de sherazade 
e outras tantas estórias 
que contaste pelos campos 
ou deitada na tua canoa
 sob o voo das garças 
 as brancas  as pardas
 e os martins-pescadores 

 certas marcas deixadas
 pelo açoite das dores 
reuniram dois oceanos 
e  arderam na fogueira 
das pupilas distantes 
até morrerem no arcano 
do teu olhar diamante 

contemplei tua dança
 aos demônios de um rito 
em resposta
 aos sonhos vermelhos 
escritos nos versos infinitos 
da minha premonição 

 recitei raridades  
acerca das flores
 e do cão no quintal 
e logo soprei 
sementes brotadas de ti 
 e das coisas todas 
que te pertencem 

 uma era sem nome
 tatuou os seus signos 
e perpetuou os setembros 
agora descanso solene 
sob o solo 
enfeitada de orquídeas

wasil sacharuk







mortes pequenas

 mortes pequenas 


a vida se apraz
  entre o mais puro ínfimo 
  onde a ponta da língua
suavemente risca
pontos energizados
e circuitos  espocam
desprendendo faíscas       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
    se entregam aos meios     
 angústia que se enrosca 
e  contorce sem freio 
 (e  contorce sem freio )         
no atrito sem corte
nas lambidas amenas
causam múltiplas mortes
 vivamente pequenas

wasil sacharuk



chuva e raio

 chuva e raio

nas alturas 
 ventos dançam 
livres

ela Chuva 
 desperta
 pinga cristalina

ele Raio
 corta céus febris
com luzes divinas 

ela Chuva 
desce mansa
 sensorial
beija folhas 

com ternura plena
derrama gotas 
perfumadas

ele Raio 
a contempla
 ser celestial
forja estrofes 
iluminadas 

água e eletricidade
amor em poesia

ela Chuva 
recita os versos 
como um cântico 

em noites de encanto
canta a melodia 
do amor infinito

ela chuva 
ele raio
água e eletricidade
amor em poesia

wasil sacharuk





angústia

 



angústia

os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

e não há deus que te guie
e não há deus que te salve

wasil sacharuk 



eu no mundo

 eu no mundo 


sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou

ente genuíno
ato puro 
"ente genuíno
ato puro" 
equivalência 
ao que dizem divino

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

sob minha casca
há razões suficientes
 fundamentos suspensos

meu apriorístico universo
descrevo no bloco 
de rascunhos
sobre a mesa 
das multiplas possibilidades
de ser eu no mundo

sou na verdade a potência 
de vir a ser
não há outra causa
para somente existir

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

wasil sacharuk







eu gosto de flor

 

eu gosto de flor

sabe
não é dissabor 
que meu ato encerra
 o fato 
é que gosto de flor
mas do tipo
 fincada na terra

flor de cerejeira
 doce mistério
flor de bagaceira
 fatal sedução
flor de carpideira
letal cemitério
flor de trepadeira 
 dá no verão 

sabe
não é desamor 
que meu trato anuncia
tão ingrato
de fato 
eu gosto de flor 
empetalando versos 
da poesia

wasil sacharuk




a bifurcação

 a bifurcação


a noite mal começara
e na estrada ouvi o chamado

cruzei atalhos de capim alto 
até vislumbrar a campina 
ampla tal lua cheia
à mancheia fartei-me de atmosfera

 interceptada pelo sol
a montanha

cruzei a viela de pedras
passo acima
uma a uma
ao ponto crítico da bifurcação

da trilha estreita
 vi a ponta da plataforma
um furo na pedra
uma gruta

na rocha
o reino de fogo
e tal lótus
 o homem velho o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
 e o espírito da terra ardeu em seus olhos

sua boca cuspiu signos

nessa noite 
ouvi sobre o fluido da vida
 que foi derramado no solo sagrado
das dores enterradas
das verdades mal contadas

refiz tantos caminhos
 investido da alma do mundo
daí me fiz poeta

e o velho
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo os signos ecoarem nas rochas

wasil sacharuk




poeta poeta

 poeta poeta 



poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

quando calas 
sinto-te presente
o silêncio das pedras
consigo escutar

poeta aparvalhado 
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
 de cor e salteado
sei teu jeito simplório
sei também teus intentos

permaneço abrindo poros
os meus e os teus
o sangue jorra vertente
sobre as folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

o silêncio das pedras
consigo escutar

wasil sacharuk





vórtice ascendente

 


vórtice ascendente

tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros

toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis

náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.

mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.

despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro

a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.

apenas certezas
transmutadas
em escombros

wasil sacharuk











brisa leve

 brisa leve

pela janela aberta
sou vento e invado
corujo 
toco 
acarinho
 tu gostas
 
tão delicada
sussurras coisas
encantos quentinhos
ao pé do meu ouvido

te moves tão crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa 
 
tão delicada
revolves as águas
invertes sentidos
eu canto baixinho

te moves nua
ao distante oriente
pelos cantos do mundo 
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa

wasil sacharuk




versículos

 Faltavam-lhe palavras.

...
Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
...
Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
...
Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
...
Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
...
Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
...
Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
...
As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
...
Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
...
Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.

wasil sacharuk










apocalipse

apocalipse

no derradeiro minuto
do dia último
soou o apito
o diabo vestia candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição dos mitos
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
eis que os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos

"os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos" 

wasil sacharuk







segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

parteiras

 parteiras


as mãos trazem signos
registros do destino
a memória das sinas
estigma-raio ametista
pureza em vertente
dedos e falanges
os fluidos quentes

nas mãos parteiras
queima a febre
revolução indomável
o enlace da corda
senso e silêncio
choro e grito
osso e sangue
cartada da sorte
a dor da passagem
cicatrizes na porta

as mãos parteiras
trazem a voz
os fachos da luz
o primeiro vento
a apontar o futuro
no fio do muro
entre as dicotomias

parteiras
as mãos impulsionam
nuvens de sonhos
bálsamo e espinho
a dureza dos calos
num eterno caminho

das mãos parteiras
a criação inaudita
a sutileza do corte
extenso e profundo
a mais nova viagem
de mais outro louco
que insiste em testar
os arcanos do mundo

wasil sacharuk



pacto de sangue

 pacto de sangue 


a mim tomaste
sem reservas
ao amor descabido
de estranheza
e loucura
nada pôde nos conter
nada!

no nosso inferno
fui tua
abriguei-te em mim

insólito amor
dos membros marcados
com dentes afiados
pacto de sangue
gotejou pelos cantos
das nossas bocas

selvagemente meu
e eu
deliciosamente tua
devoramos pedaços
ao assalto dos poros

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

foste a causa
da minha insanidade
amor desmedido
para ti me fiz linda
incandescência
deusa de carne

invadiste meus mundos
todos todos
plena entrega
tua voz úmida
inundou o meu olhar
ficou para sempre
criaste raiz
nas minhas células

fui tua mulher
semeei o teu nome
nos campos na lama
com dor e prazer

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

wasil sacharuk



a cobiça

 a cobiça


já faz muito desde o sucedido
alguns não recordam mais nada
outros duvidam do acontecido

a meia-noite quebrou a calada
no grito da primeira badalada
lançada a sorte na noite de breu
eu estava lá quando tudo se deu:

em meio à mata, não sei bem ao certo
um rito secreto e uma estranha canção
o calor da fogueira ardia bem perto

construíram lá um grande portal
fundamentado em colunas de ouro
nele incrustado o amor ao metal
toda paixão p'ra compor o tesouro

a cobiça foi mãe da ira e da morte
da intolerância e do devir malogrado
os nativos insanos perderam o norte

ouviu-se som grave qual um trovão
que fez todo o povoado desperto
somente alguns poucos sabiam a razão
da queda de todos no limbo deserto

de nada adiantaram os meus mantras
sequer os apelos ao deus que esqueci
caíram por terra as crenças santas

todos arremessados no mundo abissal
por uma espiral no centro do estouro
jogados ao fogo mais quente infernal
reinado de um anjo coberto de louros

wasil sacharuk





memórias em pó

 memórias em pó 


outrora cheirosa
a roseira sem cor
lentamente suspende 
 fluidos minguantes
derradeiros espinhos 
lanças trágicas 
de haste dura 

sua  última rosa
secou esquálida
o perfeito sacrifício 
desintegra-se impertinente 
 condensada nas páginas 
do velho diário 
abandonado na estante

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

o mudo desvelo 
memórias em pó 
dos aromas perdidos
na esteira dos dias 

murcham as pétalas 
secam as razões 
a natureza  é a solitude 
que contempla a morte
e acalenta a poesia

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

há tempo de florescer 
e outro de perecer
pela linha entre o viço 
e a senilidade dos galhos
destila o orvalho 
que já não molha


wasil sacharuk







dor da saudade

 dor da saudade 


os olhos mareiam
grãos de areia
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
a dor da saudade

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
pulsando latente
debaixo da casca
da ferida

o tempo não apaga
o tempo não cura
somente acalanta
e ela anda silente
dentro da gente

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida

há mil tipos de dor
eu conheço o pior

wasil sacharuk



vinho raro

vinho raro


nosso vinho precioso
na delicadeza da sede
cai realmente gostoso 
desce quente sensorial 

cada gole essencial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

nosso amor tão raro
 embriaga além da pele
oferenda das texturas
nuanças e faro

transcendência do toque 
lembra teu cheiro 
teus calores e chuvas
teu gosto de uva

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

 vinho sagrado 
docemente apreciado 
no altar da cumplicidade
nosso mútuo sacrifício

 amor precioso 
rasga os véus
das melhores entregas

os corpos são taças 
 onde se fundem os poros
com fluidos e hálitos
derramam-se nos lençóis 

 vinho precioso
delicadeza da sede
 quente sensorial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

 tão raro
além da pele
 texturas e faro
calores e chuvas
gosto de uva

vinho sagrado 
docemente apreciado
fluidos e hálitos 
 nos lençóis
 em sacrifício

wasil sacharuk




sábado, 31 de janeiro de 2026

contar estrelas

 contar estrelas 


maravilhoso é contar estrelas
mas onde estou 
vejo apenas uma
 quando o céu ajuda
as quatro e trinta 
quando saio para o trabalho 

é Vênus
eu acho
no céu tão bonito!

eu passaria  horas 
e horas a fio
 só contando estrelas
 quando me perdesse
voltaria a contar

ficaria todo tempo do mundo 
deitada ao teu lado 
 faríamos assim
eu contava uma estrela 
e catava
 te dava
teríamos um balaio

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo tão limitados
de poeira 
e de enfados

 batizo as estrelas 
com nomes inventados
Astez
Moriè
 Ezon
Zúritë
E Yadz
são nomes lindos 
sei que preferes
 Sebastiana
 Gertrudes
Esther 

 Salinna será minha  preferida
nascida à beira-mar
 luzirá no céu de cima
 espocando solene
para nossa intimidade 
com o universo 

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo limitados
de poeira 
e de  enfados

wasil sacharuk 



dono das horas

 

dono das horas 

és ave carnívora
que bica até verter sangue
mutila
devora
arranca os meus pedaços
para depois engoli-los

e tudo a ti pertence
 o norte
 o Sul
 o sol que nasce 
o sol que se põe
 dono das horas

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

logo odeio-te!
a partir de hoje
terás meu desprezo
terás o meu ódio!
nunca mais me procura!
vai para as outras!

esquece a mulher que sou
 que não mereces
e jamais voltarás a ter
 na tua cama!

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

não mais te pertenço
não mais me dominas
nunca mais me verás 
não mais não mais 
não mereces mulher como eu!

mas antes
ama-me mais outra vez

mas antes
ama-me mais outra vez

wasil sacharuk 



flores de espera

 flores de espera 


tuas mãos riscam
 meu nome na areia 
o vento sopra 
 aos meus olhos

 perdida !
perdida ao teu toque 
tua balada
 anuncia sonhos
 amor e harmonia
vibram as cordas  
nossa melodia 
(vibram as cordas  
nossa melodia)

logo entras
sorrateiro
me habitas 
te demoras

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

agora digas
do que  és feito
flores de espera
orquídeas talvez 
à espera 
da primavera
(flores de espera
orquídeas talvez)

queima  e arde
o  meu sal
 bebi a lágrima
do adeus 
e não fui

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

wasil sacharuk 



amor abandono

 amor abandono


ele desconheceu o impossível
desafiou tempo e espaço
Semeou no solo escasso
para provar seu poder
pelo simples saber fazer ser

a seu critério
lançou sementes
ao chão estéril
e logo fez chover

crescida
sua árvore do desejo
no tempo oportuno
gerou frutos doces
que lhe desceram
pela garganta
ao sobejo

a árvore esgotada
não mais o satisfez
nem sua intimidade
nem seu olhar

a árvore
do amor abandono
alheia à mão que a plantou
frutificou só por ser
sua natureza selvagem
vingou pelas matas
livre indiferente
silvestre

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

wasil sacharuk



meu doce diabo

 meu doce diabo 


meu doce diabo
já não me sabes nada
 não me manipulas mais
sequer me controlas
tampouco me roubas
já nem me sangras

eu não sinto mais medo 
e danço no teu inferno
aos som dos gritos e ritos 
cada cicatriz que conheço 

amo profanar teus altares
amo invadir o teu corpo 
gosto mesmo do que me dói 
 gosto mesmo do que te fere
teu toque arde em minha pele

teu amor me machuca
teu fogo me queima
teu desejo me marca
brasa viva que devora

wasil sacharuk 



destroços

 destroços 


quis saber o que ocorre na mente 
então deixei sementes brotarem 
para contemplar a expressão 

cada oportunidade conquistada 
e cada verdade submetida 
ao crivo da razão

foram tantas tentativas 
quantas possíveis 
em todos os níveis do discernimento 

esgotei meus argumentos  
 dediquei instantes significativos 
a provar do semblante aflitivo 
e do grito por solução

meditação e observação 
estive obcecada pela questão 
 qual nascente das atitudes
 de onde brotam pensamentos? 
para onde vão 
depois que passam por aqui?

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

mantive na mira o controle da ira
 nada religioso ou sobrenatural 
era busca do gozo pelo domínio mental

trouxe a dinâmica na guia
 e o escrutínio de raciocínios insanos 
jogados em meio 
às reações e anseios
 comi dos restos junto aos cães

fingi  pensar
 flagrei-me pensada 
 atolada na lama das pré-concepções 

mergulhada no centro 
da chama das ilusões 
 no intento o cotidiano clamou socorro 
 perdeu o curso sereno 
tudo revirado tão depressa

das soluções caducas
 perdidas em hesitação 
o mundo ficou cheio 
e nem tentou fazer as pazes 
foi apenas um sistema esclerosado 
e portanto decadente 

os dentes da engrenagem 
não suportaram tantas resoluções 
complexamente abstratas

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

wasil sacharuk









sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

camille

 camille


recria-me
Camille
reinventa minha ilha
no eco dos versos

recria
na pedra mais fria
 o meu universo
repara minhas rugas
com gesso

tu vês?
Camille

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

certo dia
desvendarás poesia
nos esculpidos retratos
do meu olhar introspecto
faminto de sanidade
ou qualquer outra fé

e a perfeição do teu pé
contém meu nome gravado
sumariamente entalhado
pelo cinzel dos avessos

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

wasil sacharuk







ícaro negro

 ícaro negro 


 madrugada
teus cabelos ocultos
pelo capuz negro
tu avançaste
pelas ruelas
escuras alagadas 

despencaram as águas 
 no chão de pedras
 um sopro de vento
 contou mistérios 
 ao silêncio dissonante 

por breve instante
 cessou todo o medo
fundiu os lados 
nem dentro 
nem fora 

surgiste
 plena de glória
 da margem do precipício
  asas abertas ao mundo 
 corajoso pássaro
desafiou as alturas
em nome da liberdade

madrugada
teus véus noturnos
 deslizaram entre becos
lâminas de chuva 
e sombra  

 serpentearam as águas 
sussurraram as pedras 
quando o vento entoou
cânticos ocultos
o silêncio pulsou 

o instante eterno
  o medo dissolvido 
diluiu as fronteiras
nem céu
nem chão 
 
e então...  

[Refrão]
surgiste! 
tal Ícaro negro
das brumas do abismo
asas de ébano
 e de fogo rasgaram
 a noite infinita

nenhuma corrente
 te prendeu
mais nenhum véu
 te cobriu
quando a liberdade
finalmente ecoou 
no vazio

wasil sacharuk 



facas de savanas

 facas de savanas 


minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto

e a pergunta é
devoro-te poeta?

mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora

devoro-te poeta?
ou me capturas?

entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor

wasil sacharuk   



sal e ferro

 sal e ferro 


liberta-te 
se a vida verter
pela última vez 
nave em vertigem 
venhas comigo 
com gosto

beijo-te o umbigo 
e te risco um maldito
rasgo na pele
meus dentes
 minhas garras 
perfuram teus olhos
e meu reflexo 
queimando em desejo

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas

plantei na tua fronte 
sementes de escuta
que ouvem silêncios 
dos sentimentos e sentidos
para germinar-me em ti
agora desfalecida 
vê o que plantamos 
ao escolhermos a dor

tua garganta
 tuas vísceras
são altar e desgraça
e nua tu danças
 sobre a cadeira
de pulsos abertos
gotas em minha boca
sal e ferro 
e assim eu te tenho 
inerte e livre

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas 

wasil sacharuk






a unidade

 a unidade 


ela entendeu
que nenhuma distância
separa dois corpos
no tempo e no espaço

surpreendeu-se
com as possibilidades
que falam línguas mortas
e perpassam sensações
percorrem caminhos insólitos
em trajes estranhos

a vida se estende além
do que rezam os livros
a natureza acomoda
grandezas incompreendidas

então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade

do seu quarto
ela viu e ouviu
provou os cheiros e gostos
das coisas distantes
com seus sentidos invisíveis

trocou olhares
com entes da floresta
conversou com as pedras
conheceu sua semelhança
com todas as coisas
e as coisas todas
a reconheceram

então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade

wasil sacharuk



um deus morre



um deus morre

um deus morre
ao abandono do íntimo
nas telas da publicidade
ao patrocínio das candidaturas
igrejas e nações
políticas e ditaduras
ao mote das facções

um deus morre
quando reside nas casas
entre códigos e domínios
ao conforto do trono
perante a servidão
quando crentes recitam
discursos medievais

um deus morre
cada vez mais
na fome no medo na dor
na corrupção no horror
onde não há um senhor
também não há satanás

um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos 

um deus morre
pelos feixes de luz
que perpassam vitrais
e rebrilham no ouro
das paredes incrustadas
com as jóias de baal

um deus morre
na indiferença
das súplicas
à semelhança
dos súditos
mudo
mouco
em ruínas

um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos


wasil sacharuk



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

dama do xadrez

 dama do xadrez 


cunhã bailarinava
tal a dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite

ela dançava
tanto linda quanto louca
a sensual mímica da boca
entoava a toada

era ela e mais nada
índia mais linda da tribo
coisa mais sem sentido
morrer de morte matada

e seu canto
ninguém ouviu

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite

cunhã bailarinava
dama do xadrez
a mais bela da tribo
dançava sem parar
coisa mais sem sentido
morrer depois de dançar

wasil sacharuk



vagos vinténs

 



vagos vinténs

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!

ventos virão
virarão vendavais
valentes vertentes
varrerão vilipêndios
varrerão vilanias
vereis!

vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
vendendo vaginas
valendo vagos vinténs

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!

vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs

vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
vomitarão verdades

ventos virão
virarão vendavais
vereis!

wasil sacharuk






autoamor singular

 



autoamor singular


desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco

finalmente entendeu
a Maria
que o amor
não quer desavenças
que quando
não tem poesia
é só simulacro
que a vida
não tem que ser dura
que o brilho
não deve ser fraco

cultivou novos dias
a maria
de um autoamor singular

que ocupa os espaços
pode cantar
pode dançar
sua melhor companhia
conduzir os seus passos

agora se encanta
a maria
do tanto que o amor
tornou-se vasto

desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco

esqueceu o desamor
que a matava
mentia e abraçava
só para lhe abusar

maria reinventada
liberta do sofrimento
deixou de viver de esperança
tornou-se empoderada

wasil sacharuk 



princesa de papel


princesa de papel

ela era a princesa
do reino da freguesia
seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a via tão bela
no seu castelo de areia
sempre lá estava ela
a mais doce donzela
da minha aldeia

quiçá jogasse as tranças
se fosse a Rapunzel
logo eu teria esperança
de salvá-la da sua cadeia
de sonhos e devaneios
no seu mundo de papel

sempre a vejo princesa
saída dos livros e telas
fadinha ou Cinderela
sempre bela adormecida
a espera de um beijo
que a traga de volta à vida

esse conto de fadas
um dia irá terminar
da princesa aprisionada
passa a vida a sonhar
histórias sempre contadas
que todos sabem contar

wasil sacharuk


 

seriema avoada

 



seriema avoada

canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos
créé - créé

aninha-te em meu coração
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do meu firmamento

canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
anuncia chuvarada
em sons desgarrados
se o tempo
chorar seus lamentos
créé - créé

daqui te sinto
esvoaçante ao vento
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií

canta bonito
seriema avoada
ainda que a chuva
adentre a madrugada

daqui te ouço
teu canto teu grito
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií

wasil sacharuk



pesca artesanal

 pesca artesanal 


vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
na madrugada
 lua inteira
espelho d'água
que corre ligeira

peixe salta
peixe brilha
 beira do rio
 beira do chão
peixe pequeno
peixe metido

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco

wasil sacharuk 





sábado, 3 de janeiro de 2026

sentinela

 sentinela


das tuas injúrias malditas
arquitetei teu calabouço
ofusquei a chama das velas
nas oportunidades distintas
que espreitei-te da janela

reinaste em meu hades
meu mestre
perdição e esperança
agora sou só espírito
a irromper pelas grades
sob a ira da vingança

deixo-te ir
afinal
à tua sorte miserável
rumo de passos aflitos
onde os desígnios do mal
arrancarão o teu último grito

daqui do meu quarto
ouvirei os badalos do sino
esperarei
sentinela
o encontro do fio do meu corte
com a linha do teu destino

wasil sacharuk



docemente

 


docemente

a morte beijou-lhe os lábios
tão docemente

o sangue verteu-se em regato
tão docemente

um demônio tomou-lhe o corpo
docemente
ao vento
seu último sopro

foi tão docemente

que o anjo entregou-a ao sábio
e o destino zombou tanto ingrato
o eterno atracou ao seu porto
a finitude lançou-a ao espaço

docemente
arrastaram-na sem correntes
a vida desfeita num laço

e ela pode partir
tão docemente

sem dor ou lamento
docemente
tão docemente
um beijo da vida
no ponto final

wasil sacharuk



anjos tocam falácias

 






anjos tocam falácias

jaz o silêncio instintivo
detrás da porta do quarto
jamais pergunte os motivos
jamais sentencie meus atos

arquiteto do mundo quadrado
imperfeito inexato e cativo
jamais me imprima em retratos
jamais tente ser meu alívio

nunca mais
nunca mais

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

não conto que você entenda
não espero a sua astúcia
não queira roubar minha graça
não drene a minha energia

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

wasil sacharuk



arcano zero

 



arcano zero

andarilho
bobo da corte
verso fútil no caminho
pedinte da própria sorte
de um parco naco de pão
e um cálice de vinho

arcano da branca rosa
da liberdade e da prosa
da trouxa de conhecimentos
ainda não conquistados
sob o firmamento

andarilho
bobo da corte
dos cães vadios enroscados
à barra das calças

engole borboletas
que anunciam a morte
sobrevoam a miséria
da vida obsoleta
sobre campos adubados
pelos restos da matéria

andarilho
pão e vinho
Bobo
engole borboletas,
morre de liberdade
morre de lamentos

wasil sacharuk


 



o leão

 



o leão

o leão corre insano pela noite
o leão corre insano pela noite
quando passa lento o tempo
troca minutos por sonhos
nas pegadas da insônia

tenho pernas cansadas
o felino esmaga gramíneas
ao entorno das savanas

quando eu tento respirar

refaço as linhas
caminho estelar
lá se unem os espaços
ao meu corpo astral

se chegar o ocaso
fecharei os olhos
para não ver o leão

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

o leão corre insano pela noite

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

eu já poderei ir

wasil sacharuk



tualma

 tualma


textura de pedra
enfeita a ruína
amargura da sina
gosto de fogo
que a serpente desperta
abocanha rumina
desruga
desalma entrega

tualma
lembra café
frescor matutino
leite canela
capuccino
tal disse
o poeta vespertino
acerca da tua nudez

tualma
pedra e fogo
doçura e veneno

wasil sacharuk


 

anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...