Faltavam-lhe palavras.
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Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
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Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
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Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
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Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
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Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
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Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
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As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
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Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
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Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.
wasil sacharuk