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crepúsculo

 crepúsculo


ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e até posso bem mais
porém isso é segredo

wasil sacharuk



guia de pilotagem

 guia de pilotagem


voar é talento 
de passarinho
já sai do ninho
batendo asas
ensaia rasantes
entre as casas

voar é desejo
de poeta
subverte as letras
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas

voar é mania
de maluco
inconsequente 
lançado às favas
decola imprudente
livre de amarras

que nem borboleta

wasil sacharuk







poema do fogo

 poema do fogo


hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias 

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual teu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

wasil sacharuk









reforma íntima

 reforma íntima


seja o livre artífice
senhor do próprio destino
escolha o melhor ceticismo
e desmistifique as crenças
porém que não seja cinismo
tampouco traga desavença
não venda falsa esperança 
contra dor e contra tristeza 
mas aniquile o determinismo
pois quem muito crê pouco pensa

wasil sacharuk






genuíno

  genuíno 

o meu avesso
tem tons desconexos
mas não tem gênero
não tem cor
nem sexo

é o melhor lugar
avesso de estar
avesso de ser
genuíno que é

o avesso de mim
é avesso em ti
de tão nosso
e o teu avesso
é o que de mim
eu mais gosto

wasil sacharuk






pela costa da laguna

 pela costa da laguna


venhas mulher anda comigo
          pela costa da laguna
     onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na tua cabeça

espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
 antes que me esqueças
            vê nas frestas da janela
            que essa noite espera
            que sejamos amantes

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
naquela torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma

ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
              duro de pedra

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

venhas mulher anda comigo
              pela costa do mar
a imprimir nossas pegadas
   junto ao  curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar

jardineiros das memórias
cataremos flores mortas
que viveram tão valentes
tal crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

wasil sacharuk