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mana

 mana


mana
uma presença diferente
senti junto a mim
pela noite silente
tocaia da lua minguante
fiat lux no meu abrigo

creias no que te digo
hoje todos viram luzes
por detrás das cruzes
iluminando as pedras
e criaturas estranhas
vindas de outras eras

mana, minhas ideias
são meras quimeras
ou tolices tamanhas
apenas em outras esferas
podem ser entendidas

em nossas distintas vidas
cruzamos as mesmas estradas
paramos nas mesmas paradas
trilhando o curso dos amantes
tão livres
tão claros
e distantes

hoje vi os caminhantes
andando depressa
carregando pastas negras
e via de regra
vi os meninos da vila
que fica aqui ao lado
queimando uma vela
dançando descamisados 
no estacionamento 
do supermercado

mana, um dia ensolarado
estará chamando por nós
com seus raios energizados
quentinhos de felicidade
a secar as poças nas ruas

mas se chegar nova lua
nesse canto da cidade
por onde eu ando sozinho
te direi da necessidade
de contar com teu carinho

wasil sacharuk





ana e os pombos

 Ana e os pombos


trago versos
em sementes de paz
imaculadas
se nao abarcar meus avessos
eu sou nada
além da poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

das questoes lanço sementes
aos pombos da paz e da pedra
vislumbro imagens da sorte
no vácuo entre vidas e mortes

procuro caminhos à senda
detrás dos traços aparentes
alma que clama faminta e urgente
por um universo que a entenda

quero saber os conceitos
conhecer os normais
e as fadas
tenho braços abertos
mas nao sou alada
apenas sou poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

o percurso das vidas é o mote
que me faz viva e forte
na fonte dos dias de contendas
conflitos de espécies diferentes

em cada aurora sigo em frente
já aprendi que nem sempre se acerta
que no aço afiado reside um corte
e nem todo louco é o Dom Quixote

estendo laços convexos
dou meu pao aos animais
nativos da minha calçada
de rumos incertos
e alma libertada
a colorir poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

quero capturar o signo das lendas
assim entender os desígnios da gente
encontrar as razoes do que se sente
imprimir um sorriso na alma serena

para me recriar poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

wasil sacharuk





lanterna dos luminares

 lanterna dos luminares 


aprende !
meu garoto
observa o poeta a declinar
 golpes de sensibilidade 
na completude do vazio

escuta versos repletos de silêncio 
escuta a música
 das águas do rio

entende 
meu gafanhoto
é preciso domesticar a dor 
e transmutá-la no peso morto 
que despenca da colina 
e esvanece na distância

e a poesia....

poesia se funda no dom 
de ver através da neblina 

sob a lanterna dos luminares

sente teu corpo
meu gafanhoto enquanto danças
em cascatas e desatinos

eis que no abismo das ânsias
as tuas escolhas 
serão sempre caminho

aprende!
meu gafanhoto

wasil sacharuk 





mãos dadas

 mãos dadas


Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
mas deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o velho trem corta a estrada

o bentevi na árvore 
quebra a calada da aurora
diz qualquer coisa bonita
conta heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
jambolões e butiás 
nos pomares do amor

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar certas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias

e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano
num canto extremo do sul
o outono leva as folhas 

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

wasil sacharuk




meus disfarces

 meus disfarces


meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

wasil sacharuk





farol do vagalume

 farol do vagalume


contornei a casca do mundo
no balão vagabundo
sob o farol do vagalume

vaguei sobre cumes
entre planícies e planaltos
voei bem baixo
voei bem alto

enfim meu amigo
isso não dói
já fui playboy
já sou mendigo
subestimando estimas
desritmando rimas
eu nem ligo

levei apenas um dia
tudo é possível em poesia
a gente inventa de tudo

deitei meu ânimo furibundo
encontrei uma graça
nos vendavais da fumaça

daí companheiro
andei assim
meio chinfrim
meio maneiro
colorindo cores
dolorindo dores
sem paradeiro

wasil sacharuk