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religare

 religare


luz
tu que provéns
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante

religare, religare

ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida

é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado

religare, religare

com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo

o tal poço sem fundo
que é a normalidade

religare com a liberdade

wasil sacharuk



sol ensimesmado

 sol  ensimesmado 


o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
bicho selvagem alado
em disparada cabal
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
mas nunca desama
abraça a luz que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

o vento da noite abana
as águas que banham
os pés delicados
tilinta o cristal
e os lindos sapatos
decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

wasil sacharuk






bálsamo

 bálsamo (tristeza arraigada)


 sou apenas alguém 
simples tal a palavra
mas verdadeira amiga
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

vem, abre as asas
não deixa-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinha
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixa
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

e quando eu voltar
cantarei uma torta canção
no reverso da estrada
tentando esquecer o refrão
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk








jardim de espinhos

  jardim de espinhos


 o tempo das horas ⌛ estanca e a lua se espanta ä irrelevância do mar das respostas - tu andas sobre a firmeza dos passos engolindo as novidades que os ventos te sopram - não há efemérides nas crateras espaciais ✨ - tu amanheces - face molhada de orvalho - o sabor amargo dss gotas ainda refresca e os cristais congelam as vísceras - quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos? quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas  do teu lindo jardim de espinhos?

wasil sacharuk



vento baseado

 vento baseado 


 venho de longe
trago no alforje
um saco de pão
um pouco de mel
a garrafa de cana
meu livro de papel
e uns quarenta gramas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde formigas sucumbem
aos saltos dos sapatos
quando pisam as nuvens

vivo das vidas que vivem
e não assinam contratos
somente se servem
da tolice dos atos
dos ateus dos incréus
e dos crentes sacanas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde a ideia se nutre
da crueza dos fatos
derruba engana derrama

hoje comprei um pijama
que tem estampado
o instigante retrato
do chapolim colorado
e seu letal movimento
precisamente calculado

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
na efeméride dos tempos
na companhia do vento
enquanto vento baseado

wasil sacharuk



jazigo das orquídeas

 jazigo das orquídeas 


o verso faca afiada 
sem piedade sem dó
corta lanha entorta
revira o avesso
reduz ao pó
o sangue que verte de mim

verso ruína sem fim
coliseu das cinzas
desvelado jardineiro
das reminiscências híbridas
e negras orquídeas
estranhamente belas

wasil sacharuk