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acaso chorares

 acaso chorares


moça
acaso chorares dia inteiro
usa meu lenço e meu travesseiro
de pena de ganso

moça
comprarei flores
um lírio-bandeira
perdoa minhas besteiras 
e qualquer contrassenso

moça
podes chorar amores 
os desvelos os desenganos 
os teus medos
teus desencantos

moça
acaso cantares canções do Wando
saibas que eu não ligo
ficarei assoviando um reggae antigo

e acaso não queiras 
mais desmazelos
 fica sempre comigo 
trocaremos segredos
entre amigos

wasil sacharuk




néctar

  néctar


corpo sim
de dentro para fora
tal orvalho na aurora
o sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel
desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
o assalto das vontades
desintegração dos poros

e os corpos
envoltos pela cintura
bailarinas loucas
serpentinas impuras
de livre poesia

a língua pronuncia
versos de néctar
plenitudes na boca

wasil sacharuk






sol escorpião

 sol escorpião ☀️


           viola as mucamas 
                  que te servem
        também aos deuses 
                            e diabos
           lambe-os ao fio bruto 
                           das mentiras
                  no leito ejaculado 
                      das coisas ditas

     estende o lençol de cetim
esconde sentenças malditas
                     separa as noites 
             desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem

derruba a parede 
 do imponente castelo
o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
pela casa de escorpião
não mora em ti ano inteiro

wasil sacharuk







poeta ao avesso

 poeta ao avesso 


 liberdade em cascatas 
despencam palavras
 fetiches e bravatas
 oferendas ao amor
 descrito em versos

        poeta ao avesso
 linhas do despudor
 penetra travesso 
               estocadas 
líricas e obscenas 

             tu
      poema
        acenas
 logo te peço 
    a passagem

 ventos da viagem 
         lambem as asas 
das borboletas e fadas
 recitam de cor 
poemas diversos

       poeta ao avesso
 rimas de esplendor
 penetram travessas 
               estocadas 
em música e letra

                          tu
               poesia
não esqueças
 sou apenas 
  passagem

 wasil sacharuk





maria pele de terra

 maria pele de terra 


maria pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos
nasce renasce  flor do campo
insistente no tempo

parturiente de intentos 
no signo dos dias
pois és poeta
engendra alquimia da dor
e transmuta em poesia

maria feita de vida
pele de terra olhar de saudade
o tempo desconta o lamento
o tempo não conta a idade

wasil sacharuk




água elemento

  água elemento


confessa à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
teu mar desconhece

és fluidez nas águas
deságuas pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
teu mar desconhece

passeias pelo céu
deitada numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
teu mar desconhece

navegas à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer meus anseios
teu mar desconhece

wasil sacharuk