domingo, 30 de novembro de 2025

apneia

 

Apneia 

Bolinei seu nariz com a pontinha do indicador. Surpresa, ela gentilmente invadiu profundezas do meu olhar e sorriu divertida, Ergueu sutilmente o cantinho da boca. Bem sei da frieza das noites em que ela adormeceu no jardim contando estrelas cadentes. Por isso sorri para ela também.

Corremos, dançamos e  mergulhamos desnudas numa gota de orvalho. Exploração infinita que durou uma apneia de sete segundos, minutos, anos. Depois, desafinadas cantamos.

Logo, toda molhada, ela se abriu toda, estrelada e lânguida. Assim percorri  meus dedos pela intimidade dos cachos dos seus cabelos que, enroscados num canto da lua, despencaram incertos pelo breu.

Generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinada,  entrei em seus olhos.

Jamais a esqueci, portanto a botei para morar bem dentro de mim, misturada com a poesia que corrompe  os fluidos e esculhamba os sentidos.

wasil sacharuk








magnífica

 magnífica 


desnutri os tolos preceitos
diluí a razão das temáticas
foste tu recoberta de tintas
ao torpor da frieza realista

encobri manchas fálicas
 cores primárias ao peito
capturas de formas e gestos
linguagem nua sem retórica

desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e pretas
desenhei uma fala drástica
nos lábios vermelhos sedentos

misturei nas tintas meus restos
derramei as vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te descrevi tão explícita
na orgia do meu manifesto
ventre aberto inconfesso
donde irrompes mulher magnífica

wasil sacharuk







bailarina das luas

   bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicando teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
os contornos abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em sua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda
revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk







pirofagia






pirofagia

sou bruxa mulher
e meu diabo só quer
minha queda em pecado

comer-me a alma perdida
degredada dos quadros
de qualquer remissão

bruxa mulher
meu diabo só quer
vibrar sobre a melodia
que minha língua recita
poesia inscrita
com sílabas poucas

sou mulher
bruxa mulher
meu diabo só quer
explodir o seu fogo
no céu da minha boca


wasil sacharuk






poesia dos desadornos

  poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram a pele
que podem voar ultraleve
mesmo na queda dura

ela toca sua rosa
sente os espinhos
a dor e a textura
as entregas gostosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
declamo sem ar
aos cumes do seu corpo
que expande e amingua 
na ponta da língua
desenho contornos

ela ouve os acordes
sinfônicos do violino
quando meus dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
quando o desejo ardente 
destrava os seus dentes
entreabre sua boca
e explora recônditos
 
poesia dos desadornos
que faz desaguar
 a ânsia das vertentes 
na ilha entre suas pernas
sua flor desabrocha
suplica que eu a contemple

wasil sacharuk







tateia

 tateia

nas pequenas mortes
o corpo festivo
não mais te pertence
tua mão sem cautela 
tateia 

 seiva vertente 
percorre-te os lábios
desabrochado botão 
teu olhar vidrado 
sorri 

nas pequenas mortes
o toque orvalhado contrai
o atrito da palma
precipitam os dedos
ao abandono dos ais

wasil sacharuk











sábado, 22 de novembro de 2025

religare

 religare


luz
tu que provéns
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante

religare, religare

ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida

é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado

religare, religare

com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo

o tal poço sem fundo
que é a normalidade

religare com a liberdade

wasil sacharuk



sol ensimesmado

 sol  ensimesmado 


o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
bicho selvagem alado
em disparada cabal
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
mas nunca desama
abraça a luz que encanta
quando o sol
fica ensimesmado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

o vento da noite abana
as águas que banham
os pés delicados
tilinta o cristal
e os lindos sapatos
decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado
a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

wasil sacharuk






bálsamo

 bálsamo (tristeza arraigada)


 sou apenas alguém 
simples tal a palavra
mas verdadeira amiga
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

vem, abre as asas
não deixa-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinha
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixa
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

e quando eu voltar
cantarei uma torta canção
no reverso da estrada
tentando esquecer o refrão
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk








jardim de espinhos

  jardim de espinhos


 o tempo das horas ⌛ estanca e a lua se espanta ä irrelevância do mar das respostas - tu andas sobre a firmeza dos passos engolindo as novidades que os ventos te sopram - não há efemérides nas crateras espaciais ✨ - tu amanheces - face molhada de orvalho - o sabor amargo dss gotas ainda refresca e os cristais congelam as vísceras - quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos? quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas  do teu lindo jardim de espinhos?

wasil sacharuk



vento baseado

 vento baseado 


 venho de longe
trago no alforje
um saco de pão
um pouco de mel
a garrafa de cana
meu livro de papel
e uns quarenta gramas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde formigas sucumbem
aos saltos dos sapatos
quando pisam as nuvens

vivo das vidas que vivem
e não assinam contratos
somente se servem
da tolice dos atos
dos ateus dos incréus
e dos crentes sacanas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde a ideia se nutre
da crueza dos fatos
derruba engana derrama

hoje comprei um pijama
que tem estampado
o instigante retrato
do chapolim colorado
e seu letal movimento
precisamente calculado

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
na efeméride dos tempos
na companhia do vento
enquanto vento baseado

wasil sacharuk



jazigo das orquídeas

 jazigo das orquídeas 


o verso faca afiada 
sem piedade sem dó
corta lanha entorta
revira o avesso
reduz ao pó
o sangue que verte de mim

verso ruína sem fim
coliseu das cinzas
desvelado jardineiro
das reminiscências híbridas
e negras orquídeas
estranhamente belas

wasil sacharuk






quarta-feira, 19 de novembro de 2025

máquina

   máquina

pinga respinga
repica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
murmuram marés
cinzentas de ocasos

a máquina de fazer chuva
 pode acionar as torrentes
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
 inflar oceanos
encher a concha das mãos

wasil sacharuk












clichê de outono

  clichê de outono

eles passam sequer reparam
a folha seca flanando suave
quando despenca da árvore

maldizem a noite de frio
os pingos gelados da chuva
praguejam ao contratempo
das mudanças de temperatura

não veem que o outono é feito
com nuanças de poesia
e tons sépia de cura
que o silêncio da melancolia
convida a dançar na rua

wasil sacharuk





águas claras

  águas claras

A maré é o desejo da lua
Gela a alma coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas das bocas das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceano
As ondas empurram as mágoas
Ribeirões estouram os canos
As correntes somente deságuam
Seus latentes instintos insanos

wasil sacharuk





sufoco do tempo

 sufoco do tempo


o tempo
anda perdido do tempo
sufoca nas ruas silentes
sucumbe ao assopro do vento
satura quarenta porcento
precisa ser intubado
repassa cenas do passado
escuta vozes distantes
perambula claudicante
dorme na rua cansado
 morto-vivo ao relento

wasil sacharuk












gotículas de sal

 gotículas de sal


epístolas do mal
tendes clemência de nós
os fiéis e os descrentes
ontem era só moral
mas agora é diferente

perdi a clareza da visão
prendi a consciência na cela
conquistei a cegueira da razão
a noção caiu pelas tabelas 

canícula e sol
que não queimem a nós
no fogo incandescente
ontem era tudo normal
mas agora o mundo sente

aprendi que chorar é bom
então quero chorar oceano
choro até se ouço o som
do choro que canta
o desprezo humano

gotículas de sal
derramadas de nós
renascente nascente
hoje terá temporal
e logo terá enchente 

wasil sacharuk





rosa vermelha orquídea negra

 rosa vermelha orquídea negra


enquanto dormes
contar-te-ei as novas
das mil e uma
longas longas longas
noites silenciosas

entenderás
os versos de distração
difusos nas ondas 
sobem sobem sobem
perpassam muros
da razão

sentirás
o velho sopro obscuro
frio anjo demônio
andejo dos umbrais

saberás dos tempos reais
e seus sonhos
artefatos de poesia
céus e infernos
algo para não acreditar
algo para esquecer
queimar os cadernos

rosa vermelha
orquídea negra
floreiras brancas do descanso
chamam alegria ao imenso jardim

a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 
nas cruzes
se o capim verde
cresce em volta

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 
pois a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

wasil sacharuk








terça-feira, 18 de novembro de 2025

mana

 mana


mana
uma presença diferente
senti junto a mim
pela noite silente
tocaia da lua minguante
fiat lux no meu abrigo

creias no que te digo
hoje todos viram luzes
por detrás das cruzes
iluminando as pedras
e criaturas estranhas
vindas de outras eras

mana, minhas ideias
são meras quimeras
ou tolices tamanhas
apenas em outras esferas
podem ser entendidas

em nossas distintas vidas
cruzamos as mesmas estradas
paramos nas mesmas paradas
trilhando o curso dos amantes
tão livres
tão claros
e distantes

hoje vi os caminhantes
andando depressa
carregando pastas negras
e via de regra
vi os meninos da vila
que fica aqui ao lado
queimando uma vela
dançando descamisados 
no estacionamento 
do supermercado

mana, um dia ensolarado
estará chamando por nós
com seus raios energizados
quentinhos de felicidade
a secar as poças nas ruas

mas se chegar nova lua
nesse canto da cidade
por onde eu ando sozinho
te direi da necessidade
de contar com teu carinho

wasil sacharuk





ana e os pombos

 Ana e os pombos


trago versos
em sementes de paz
imaculadas
se nao abarcar meus avessos
eu sou nada
além da poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

das questoes lanço sementes
aos pombos da paz e da pedra
vislumbro imagens da sorte
no vácuo entre vidas e mortes

procuro caminhos à senda
detrás dos traços aparentes
alma que clama faminta e urgente
por um universo que a entenda

quero saber os conceitos
conhecer os normais
e as fadas
tenho braços abertos
mas nao sou alada
apenas sou poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

o percurso das vidas é o mote
que me faz viva e forte
na fonte dos dias de contendas
conflitos de espécies diferentes

em cada aurora sigo em frente
já aprendi que nem sempre se acerta
que no aço afiado reside um corte
e nem todo louco é o Dom Quixote

estendo laços convexos
dou meu pao aos animais
nativos da minha calçada
de rumos incertos
e alma libertada
a colorir poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

quero capturar o signo das lendas
assim entender os desígnios da gente
encontrar as razoes do que se sente
imprimir um sorriso na alma serena

para me recriar poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

wasil sacharuk





lanterna dos luminares

 lanterna dos luminares 


aprende !
meu garoto
observa o poeta a declinar
 golpes de sensibilidade 
na completude do vazio

escuta versos repletos de silêncio 
escuta a música
 das águas do rio

entende 
meu gafanhoto
é preciso domesticar a dor 
e transmutá-la no peso morto 
que despenca da colina 
e esvanece na distância

e a poesia....

poesia se funda no dom 
de ver através da neblina 

sob a lanterna dos luminares

sente teu corpo
meu gafanhoto enquanto danças
em cascatas e desatinos

eis que no abismo das ânsias
as tuas escolhas 
serão sempre caminho

aprende!
meu gafanhoto

wasil sacharuk 





mãos dadas

 mãos dadas


Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
mas deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o velho trem corta a estrada

o bentevi na árvore 
quebra a calada da aurora
diz qualquer coisa bonita
conta heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
jambolões e butiás 
nos pomares do amor

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar certas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias

e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano
num canto extremo do sul
o outono leva as folhas 

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

wasil sacharuk




meus disfarces

 meus disfarces


meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

wasil sacharuk





farol do vagalume

 farol do vagalume


contornei a casca do mundo
no balão vagabundo
sob o farol do vagalume

vaguei sobre cumes
entre planícies e planaltos
voei bem baixo
voei bem alto

enfim meu amigo
isso não dói
já fui playboy
já sou mendigo
subestimando estimas
desritmando rimas
eu nem ligo

levei apenas um dia
tudo é possível em poesia
a gente inventa de tudo

deitei meu ânimo furibundo
encontrei uma graça
nos vendavais da fumaça

daí companheiro
andei assim
meio chinfrim
meio maneiro
colorindo cores
dolorindo dores
sem paradeiro

wasil sacharuk




sábado, 8 de novembro de 2025

crepúsculo

 crepúsculo


ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e até posso bem mais
porém isso é segredo

wasil sacharuk



guia de pilotagem

 guia de pilotagem


voar é talento 
de passarinho
já sai do ninho
batendo asas
ensaia rasantes
entre as casas

voar é desejo
de poeta
subverte as letras
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas

voar é mania
de maluco
inconsequente 
lançado às favas
decola imprudente
livre de amarras

que nem borboleta

wasil sacharuk







poema do fogo

 poema do fogo


hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias 

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual teu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

wasil sacharuk









reforma íntima

 reforma íntima


seja o livre artífice
senhor do próprio destino
escolha o melhor ceticismo
e desmistifique as crenças
porém que não seja cinismo
tampouco traga desavença
não venda falsa esperança 
contra dor e contra tristeza 
mas aniquile o determinismo
pois quem muito crê pouco pensa

wasil sacharuk






genuíno

  genuíno 

o meu avesso
tem tons desconexos
mas não tem gênero
não tem cor
nem sexo

é o melhor lugar
avesso de estar
avesso de ser
genuíno que é

o avesso de mim
é avesso em ti
de tão nosso
e o teu avesso
é o que de mim
eu mais gosto

wasil sacharuk






pela costa da laguna

 pela costa da laguna


venhas mulher anda comigo
          pela costa da laguna
     onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na tua cabeça

espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
 antes que me esqueças
            vê nas frestas da janela
            que essa noite espera
            que sejamos amantes

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
naquela torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma

ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
              duro de pedra

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

venhas mulher anda comigo
              pela costa do mar
a imprimir nossas pegadas
   junto ao  curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar

jardineiros das memórias
cataremos flores mortas
que viveram tão valentes
tal crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

wasil sacharuk




acaso chorares

 acaso chorares


moça
acaso chorares dia inteiro
usa meu lenço e meu travesseiro
de pena de ganso

moça
comprarei flores
um lírio-bandeira
perdoa minhas besteiras 
e qualquer contrassenso

moça
podes chorar amores 
os desvelos os desenganos 
os teus medos
teus desencantos

moça
acaso cantares canções do Wando
saibas que eu não ligo
ficarei assoviando um reggae antigo

e acaso não queiras 
mais desmazelos
 fica sempre comigo 
trocaremos segredos
entre amigos

wasil sacharuk




néctar

  néctar


corpo sim
de dentro para fora
tal orvalho na aurora
o sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel
desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
o assalto das vontades
desintegração dos poros

e os corpos
envoltos pela cintura
bailarinas loucas
serpentinas impuras
de livre poesia

a língua pronuncia
versos de néctar
plenitudes na boca

wasil sacharuk






sol escorpião

 sol escorpião ☀️


           viola as mucamas 
                  que te servem
        também aos deuses 
                            e diabos
           lambe-os ao fio bruto 
                           das mentiras
                  no leito ejaculado 
                      das coisas ditas

     estende o lençol de cetim
esconde sentenças malditas
                     separa as noites 
             desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem

derruba a parede 
 do imponente castelo
o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
pela casa de escorpião
não mora em ti ano inteiro

wasil sacharuk







poeta ao avesso

 poeta ao avesso 


 liberdade em cascatas 
despencam palavras
 fetiches e bravatas
 oferendas ao amor
 descrito em versos

        poeta ao avesso
 linhas do despudor
 penetra travesso 
               estocadas 
líricas e obscenas 

             tu
      poema
        acenas
 logo te peço 
    a passagem

 ventos da viagem 
         lambem as asas 
das borboletas e fadas
 recitam de cor 
poemas diversos

       poeta ao avesso
 rimas de esplendor
 penetram travessas 
               estocadas 
em música e letra

                          tu
               poesia
não esqueças
 sou apenas 
  passagem

 wasil sacharuk





maria pele de terra

 maria pele de terra 


maria pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos
nasce renasce  flor do campo
insistente no tempo

parturiente de intentos 
no signo dos dias
pois és poeta
engendra alquimia da dor
e transmuta em poesia

maria feita de vida
pele de terra olhar de saudade
o tempo desconta o lamento
o tempo não conta a idade

wasil sacharuk




água elemento

  água elemento


confessa à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
teu mar desconhece

és fluidez nas águas
deságuas pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
teu mar desconhece

passeias pelo céu
deitada numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
teu mar desconhece

navegas à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer meus anseios
teu mar desconhece

wasil sacharuk







anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...