insoneto
vi a alma pairar tal peça solta
a vagar pela casa de aluvião
vi o vento mexendo coisas mortas
no deserto das vidas sem razão
a vagar pela casa de aluvião
vi o vento mexendo coisas mortas
no deserto das vidas sem razão
vi o corpo morrer à banca rota
e dever uma vela ao cramulhão
vi o verso perder-se em vias tortas
num soneto perverso e aleijão
e dever uma vela ao cramulhão
vi o verso perder-se em vias tortas
num soneto perverso e aleijão
vi mistérios baterem à minha porta
a cobrar a dura conta da emoção
uma soma de angústia em várias notas
a cobrar a dura conta da emoção
uma soma de angústia em várias notas
vi fantasmas de assombro no salão
a arrastar as correntes e as botas
e matar-me de insônia sem perdão
a arrastar as correntes e as botas
e matar-me de insônia sem perdão
wasil sacharuk
"insoneto" de Wasil Sacharuk é um soneto irregular em termos de rimas e métrica, mas que mantém a estrutura de quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mergulha em uma atmosfera de desolação, angústia e desesperança. A linguagem é direta e imagética, evocando sensações de perda e vazio.
A estrofe inicial já estabelece o tom melancólico. A "alma pairar tal peça solta" sugere uma desconexão entre o eu e seu interior, uma alma sem rumo, perdida. A "casa de aluvião" é o corpo ou a própria existência, construída sobre bases instáveis e sujeita à desagregação. A imagem do "vento mexendo coisas mortas / no deserto das vidas sem razão" reforça a ideia de futilidade e vazio existencial, onde até o que resta é inanimado e sem propósito.
A expressão "dever uma vela ao cramulhão" é uma metáfora poderosa para uma dívida com o mal ou com o destino, uma alma vendida ou comprometida. A referência ao "verso perder-se em vias tortas / num soneto perverso e aleijão" é uma metalinguagem interessante. O próprio ato de escrever, de dar forma à dor, é corrompido, tornando-se "perverso e aleijão", talvez refletindo a deformidade da própria existência do eu lírico.
> vi mistérios baterem à minha porta
> a cobrar a dura conta da emoção
> uma soma de angústia em várias notas
Esta estrofe intensifica o sentimento de opressão. Os "mistérios" que batem à porta representam o confronto inevitável com as verdades dolorosas da vida, as questões sem resposta que atormentam a mente. A "dura conta da emoção" e a "soma de angústia em várias notas" evocam a ideia de um acúmulo de sofrimento, um débito emocional que precisa ser pago, uma carga insuportável de dor que se manifesta de diversas formas.
Os "fantasmas de assombro no salão" são as manifestações concretas dos medos, das culpas e das preocupações que assombram o eu lírico. As "correntes e as botas" sugerem o peso dessas aparições, a dificuldade de se libertar delas.
"insoneto" explora a profundidade da angústia existencial. A insônia não é meramente a ausência de sono, mas a consequência de uma alma em ruínas, assombrada por suas perdas, suas falhas e a inexorabilidade da dor. Wasil Sacharuk constrói uma atmosfera sufocante, onde o eu lírico se vê preso em um ciclo de tormento, sem esperança de redenção ou paz. O poema é um grito silencioso de desespero diante da insignificância da vida e da impossibilidade de escapar dos próprios fantasmas.
