estrada de ferro

  estrada de ferro


decerto não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

decerto não és hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas
bem cravados
a sustentar o ferro
na rota das vidas

wasil sacharuk


notas:

 "estrada de ferro" de Wasil Sacharuk oferece uma reflexão profunda sobre a materialidade e a funcionalidade de uma ferrovia, desprovida de qualquer vestígio de vida, emoção ou beleza. A linguagem é direta, quase descritiva, e o ritmo, marcado pela repetição e pela enumeração de elementos, simula a cadência monótona dos trilhos.

"decerto não és dormente". A palavra dormente, que no contexto ferroviário se refere à peça que sustenta os trilhos, é habilmente usada para evocar a ideia de algo que não sente dor, que não dorme, que não tem vida. Os elementos que compõem a ferrovia – "carris", "balastro", "cascalhos e pedra rolada" – são apresentados em sua crueza e inércia. A expressão "de ânimo ausente" reforça essa falta de vitalidade, atribuindo à própria ferrovia uma espécie de apatia. Não há vibração, não há alma, apenas a fria engenharia.

 "trilhos sem atalhos" A ausência de atalhos sugere uma rigidez, uma rota predeterminada sem desvios, sem liberdade. O "terrapleno sem sementes" é uma imagem poderosa da esterilidade, da incapacidade de gerar vida ou beleza. O poema declara explicitamente: "sem beleza ou poesia", demarcando a estrada de ferro como um espaço puramente utilitário, desprovido de qualquer valor estético ou inspirador. A "cama de britas" é apenas o suporte físico, sem adornos ou propósito além da função.

Na última estrofe, o eu-lírico novamente nega uma característica humana ou geográfica: "decerto não és hemisfério", reforçando a ideia de que a ferrovia não tem a complexidade ou a capacidade de abrigar vida como um hemisfério terrestre. Em vez disso, ela é definida pelos "tirafundos cansados" e pelas "gravilhas bem cravados", elementos que, embora exaustivos em sua função, são cruciais para "sustentar o ferro na rota das vidas". Essa é a grande ironia e a principal mensagem do poema: a ferrovia, em sua brutalidade e desumanização, é paradoxalmente o caminho que permite o fluxo e a continuidade das vidas, seja no transporte de pessoas, bens ou até mesmo sonhos e destinos. Ela não tem vida própria, mas é vital para a dinâmica da vida.

"estrada de ferro" se destaca pela sua abordagem minimalista e desglamourizada de um elemento tão presente na paisagem e na história humana. Wasil Sacharuk nos convida a olhar para o que está por trás do movimento e da funcionalidade, revelando a crueza e a ausência de alma em uma estrutura que, paradoxalmente, serve de suporte para a complexidade da existência humana.


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