apneia

 

Apneia 

Bolinei seu nariz com a pontinha do indicador. Surpresa, ela gentilmente invadiu profundezas do meu olhar e sorriu divertida, Ergueu sutilmente o cantinho da boca. Bem sei da frieza das noites em que ela adormeceu no jardim contando estrelas cadentes. Por isso sorri para ela também.

Corremos, dançamos e  mergulhamos desnudas numa gota de orvalho. Exploração infinita que durou uma apneia de sete segundos, minutos, anos. Depois, desafinadas cantamos.

Logo, toda molhada, ela se abriu toda, estrelada e lânguida. Assim percorri  meus dedos pela intimidade dos cachos dos seus cabelos que, enroscados num canto da lua, despencaram incertos pelo breu.

Generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinada,  entrei em seus olhos.

Jamais a esqueci, portanto a botei para morar bem dentro de mim, misturada com a poesia que corrompe  os fluidos e esculhamba os sentidos.

wasil sacharuk










magnífica

 magnífica 


desnutri os tolos preceitos
diluí a razão das temáticas
foste tu recoberta de tintas
ao torpor da frieza realista

encobri manchas fálicas
 cores primárias ao peito
capturas de formas e gestos
linguagem nua sem retórica

desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e pretas
desenhei uma fala drástica
nos lábios vermelhos sedentos

misturei nas tintas meus restos
derramei as vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te descrevi tão explícita
na orgia do meu manifesto
ventre aberto inconfesso
donde irrompes mulher magnífica

wasil sacharuk







bailarina das luas

   bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicando teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
os contornos abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em sua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda
revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk







pirofagia






pirofagia

sou bruxa mulher
e meu diabo só quer
minha queda em pecado

comer-me a alma perdida
degredada dos quadros
de qualquer remissão

bruxa mulher
meu diabo só quer
vibrar sobre a melodia
que minha língua recita
poesia inscrita
com sílabas poucas

sou mulher
bruxa mulher
meu diabo só quer
explodir o seu fogo
no céu da minha boca


wasil sacharuk






poesia dos desadornos

  poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram a pele
que podem voar ultraleve
mesmo na queda dura

ela toca sua rosa
sente os espinhos
a dor e a textura
as entregas gostosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
declamo sem ar
aos cumes do seu corpo
que expande e amingua 
na ponta da língua
desenho contornos

ela ouve os acordes
sinfônicos do violino
quando meus dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
quando o desejo ardente 
destrava os seus dentes
entreabre sua boca
e explora recônditos
 
poesia dos desadornos
que faz desaguar
 a ânsia das vertentes 
na ilha entre suas pernas
sua flor desabrocha
suplica que eu a contemple

wasil sacharuk







tateia

 tateia

nas pequenas mortes
o corpo festivo
não mais te pertence
tua mão sem cautela 
tateia 

 seiva vertente 
percorre-te os lábios
desabrochado botão 
teu olhar vidrado 
sorri 

nas pequenas mortes
o toque orvalhado contrai
o atrito da palma
precipitam os dedos
ao abandono dos ais

wasil sacharuk