completamente lua

 completamente lua 🌔


ela revolve mares de sal
e se oculta no beco 
ao final da minha rua
enquanto o sol
ainda veste pijama
ela  vem e me ama
completamente lua

wasil sacharuk



algoritmo

 

algoritmo

por detrás da minha face ninguém sabe meus intentos todas coisas que eu penso todas coisas que eu sinto
não sabem dos artefatos que jamais serão usados minha prece ao oceano em silêncio desvelado
e não podem ver as ruas os saraus onde eu estive meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
também não veem o sangue que escorre das feridas desconsideram os medos cimentados nas paredes
e são cegos para as sombras quando iludem a visão misturadas às penumbras traçam minha intuição
até tentam ver a lua onde vive a solidão meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
não entendem quando a dor se esconde sob a pele e não falam o dialeto os subterfúgios da mente
jamais podem flagrar nuas minhas musas eloquentes e meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma

wasil sacharuk





🤯 ALGORITMO DA ALMA: Será que alguém nos conhece de verdade? 🤯

Em uma era dominada por algoritmos que tentam nos decifrar, o poeta Wasil Sacharuk nos brinda com um poema que nos convida a uma reflexão profunda e, ao mesmo tempo, libertadora: "algoritmo".

Ele nos lembra que, por trás da face que mostramos ao mundo, existe um universo inteiro de:

✨ "intentos"

✨ "coisas que eu penso, coisas que eu sinto" ✨ "artefatos que jamais serão usados" ✨ "minha prece ao oceano em silêncio desvelado"

O que realmente nos move? Quais são os saraus da nossa alma, os rios de lágrimas invisíveis, os medos cimentados nas paredes internas? 

Cada um de nós é um sistema complexo, guiado por um "algoritmo d'alma" único e intransferível. Ninguém pode realmente "flagrar nuas" nossas musas ou entender os "subterfúgios da mente". E talvez essa seja a beleza maior: a nossa essência, a nossa verdade mais profunda, reside nesse espaço sagrado e intocável. 💫

Qual parte do seu "algoritmo d'alma" você sente que é a mais secreta e poderosa? Compartilhe nos comentários! 👇

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passava e pensava

 passava e pensava


eu passava roupa
e pensava a ferro
ele assistia
sexo e futebol
e me tratava por louca

eu só queria amor
miséria pouca
é bobagem
eu passava
e pensava
em arrumar a bagagem

eu passava
diante dos olhos
ele não me via
e eu pensava
em morrer todo dia

eu pensava
ele não passava
e sempre dizia:
poetisa pretensa
só pensas em poesia

wasil sacharuk





hiato iluminado



hiato iluminado

Fecharia meus olhos
Enquanto meu tato
Colorisse teu universo;
Haveriam contornos
Assimétricos abstratos
Ritmando meus versos

Olhos fechados
Salvaguardados mistérios

Olharia encantado
Linces olhos etéreos
Hiato iluminado
Olharia teus olhos
Seduzindo meus versos

wasil sacharuk

corrupio

corrupio 

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk






bromato



bromato

plantarei o trigo em solo fecundo
a ostentar a alva pele de cordeiro
quiçá limparei os pecados do mundo
da massa fermentada serei padeiro

espírito servido ao café da manhã
que sacia o amor no estilo caseiro
com hóstias, brioches e croissants
o divino calor que emana do cheiro

da casquinha crocante da eucaristia
vou sovar cereal com força e poesia
terei água e sal em plena comunhão

na mistura de letras dessa ladainha
o bromato se eleva sutil na farinha
engendra o milagre da multiplicação

wasil sacharuk 



alavanca

alavanca

alavanca as asas
alma aberta
assemelhada
a astuta ave

afugenta!
as algias atemporais
arfantes a
ssombrosas
alternam arghs
alternam ais

aparta!
acabrunha a asinha
abaixando as abas
assustadas
altiva
aparta

aposenta analgésicos
aspirinas
apoios abalizadores
ardentes assustadores
a atmosfera abafadiça

alto!
abaixa as armas
assegura a alma
alçada ao amor

arriscado?
aceita!

apenas abre as asas!

wasil sacharuk 







perséfone diva

 perséfone diva 


linda dama enfeitada ♀️
doce perséfone diva
exibe frutos maduros
sinuosidades renascentistas
sob as madeixas cascatas
 sonha o conto de fadas
  o príncipe sabe de nada
 o dragão é o protagonista 🐲

wasil sacharuk







pequeno

 pequeno


eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno
        se te amo tão vasto

wasil sacharuk








asa quebrada

asa quebrada 

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
se bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
evidentemente importantes
com o  que se ocupar 

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
resolver sair em revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que não consegue alcançar

wasil sacharuk 



SACHARUK - ASA QUEBRADA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK  - ASA QUEBRADA 

Wasil Sacharuk entre o Sagrado e o Profano

 Uma jornada sensorial onde a voz se torna o fio condutor de uma mitologia pessoal, cruzando o tempo, a devoção e as sombras do Hades.

As  performances  exploram a condição humana em suas múltiplas facetas. Desde a "retirada do poeta" , em Asas quebradas— uma reflexão sobre a invisibilidade e a busca pela paz — até a complexidade do amor em "pequeno", onde o eu lírico se assume como um "velho demônio soberano do Hades". A obra de Wasil Sacharuk transita entre extremos. 

A figura de Perséfone surge como uma musa renascentista, subvertendo o papel do herói ao colocar o "dragão como protagonista".

Em um dos momentos mais fortes, a poesia se funde ao ofício do padeiro, transformando o trigo e o suor na própria eucaristia da vida.

"Se algum desses dias qualquer distinto poeta se bater em retirada, que ninguém se preocupe. Não é mais que nada quando há coisas mais evidentemente importantes com o que se ocupar."

"Tudo é tão pequeno se te amo tão vasto."

"O príncipe sabe de nada. O dragão é o protagonista."

"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas."

"Da casquinha crocante da Eucaristia. Vou sovar cereal. Com força e poesia terei água e sal em plena comunhão."

"O tempo, sempre o tempo. Rodas espirais, agruras de vento... Depois chora ruínas no jazigo dos lamentos."

Vale a oportunidade de ver a língua portuguesa ser moldada com tamanha plasticidade e emoção, lembrando-nos de que a poesia não é apenas texto, mas um sopro vital que alavanca asas. É Spoken Word em sua essência: ritmo, alma e entrega.

"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas." 🕊️

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lagarto de fogo

  lagarto de fogo

evita saber o mistério
das chamas que ardem
no meu império
não desafia aos exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

tenho três cabeças
de naturezas indivisíveis
são rendições à beleza
conduzirão-te rasteira
ao inferno das posses
e minhas pernas fortes
montarão as carapaças
de venenosos escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória
da morte aos inimigos

rasgarei-te os pulsos
verterei do sangue
a mim consagrado
com felinas garras

e um lagarto de fogo
deslizará em teu corpo
a devorar sem amarras
e logo te curvará
ao meu eterno reinado

wasil sacharuk








luz de amizade

 

luz de amizade

eu aprendi
bem pequenino
cruzar estradas
cortar caminhos
assim eu cresci
quando aprendi
a rodar moinhos

não sei parar
eu rodo sozinho
não sei parar
estou tão cansado
tão cansado

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
 pra casa

traduzi em poesia
as coisas confusas
que escutei do silêncio
na areia eu dormi
já morri de amor
e de amor já vivi
conheci os mistérios
contei luas cheias
nossa luz de amizade 

não sei parar 
estou tão cansado
cansado 

pronuncio teu nome
e ainda te procuro
pelos cantos do mundo
pela nossa lealdade
pelos nossos dias
amigo te peço 
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

pronuncio teu nome
estendo a minha mão
vejo na escuridão
nossa luz de amizade
pelos nossos dias 
amigo te peço:
me leva pra casa

pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pai
me leva pra casa
pra casa

amigo te peço 
amigo te peço 
pai
me leva pra casa 


wasil sacharuk







de tanto voar

 de tanto voar


ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

wasil sacharuk






nereida de gesso

 nereida de gesso 


Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcações 
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais

wasil sacharuk





meus demônios

 

meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

wasil sacharuk















fui princesa

  fui princesa 

certa vez eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém
 não foi o meu fim 

decerto custou a delicadeza 
bem
ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa

wasil sacharuk




SACHARUK - SIGNOS Full - poesia falada spoken word

 


tsunami

  tsunami

eu quis inventar a canção
porém tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

wasil sacharuk









vagalumando

 vagalumando 


habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas piscantes
espocando pela orla

wasil sacharuk