corrupio
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
corrupio
bromato
bromato
a ostentar a alva pele de cordeiro
quiçá limparei os pecados do mundo
da massa fermentada serei padeiro
espírito servido ao café da manhã
que sacia o amor no estilo caseiro
com hóstias, brioches e croissants
o divino calor que emana do cheiro
da casquinha crocante da eucaristia
vou sovar cereal com força e poesia
terei água e sal em plena comunhão
na mistura de letras dessa ladainha
o bromato se eleva sutil na farinha
engendra o milagre da multiplicação
alavanca
alavanca as asas
alma aberta
assemelhada
a astuta ave
afugenta!
as algias atemporais
arfantes a
ssombrosas
alternam arghs
alternam ais
aparta!
acabrunha a asinha
abaixando as abas
assustadas
altiva
aparta
aposenta analgésicos
aspirinas
apoios abalizadores
ardentes assustadores
a atmosfera abafadiça
alto!
abaixa as armas
assegura a alma
alçada ao amor
arriscado?
aceita!
apenas abre as asas!
perséfone diva
perséfone diva
linda dama enfeitada ♀️
doce perséfone diva
exibe frutos maduros
sinuosidades renascentistas
sob as madeixas cascatas
sonha o conto de fadas
o príncipe sabe de nada
o dragão é o protagonista 🐲
wasil sacharuk
pequeno
pequeno
asa quebrada
SACHARUK - ASA QUEBRADA Full - poesia falada spoken word
SACHARUK - ASA QUEBRADA
Wasil Sacharuk entre o Sagrado e o Profano
Uma jornada sensorial onde a voz se torna o fio condutor de uma mitologia pessoal, cruzando o tempo, a devoção e as sombras do Hades.
As performances exploram a condição humana em suas múltiplas facetas. Desde a "retirada do poeta" , em Asas quebradas— uma reflexão sobre a invisibilidade e a busca pela paz — até a complexidade do amor em "pequeno", onde o eu lírico se assume como um "velho demônio soberano do Hades". A obra de Wasil Sacharuk transita entre extremos.
A figura de Perséfone surge como uma musa renascentista, subvertendo o papel do herói ao colocar o "dragão como protagonista".
Em um dos momentos mais fortes, a poesia se funde ao ofício do padeiro, transformando o trigo e o suor na própria eucaristia da vida.
"Se algum desses dias qualquer distinto poeta se bater em retirada, que ninguém se preocupe. Não é mais que nada quando há coisas mais evidentemente importantes com o que se ocupar."
"Tudo é tão pequeno se te amo tão vasto."
"O príncipe sabe de nada. O dragão é o protagonista."
"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas."
"Da casquinha crocante da Eucaristia. Vou sovar cereal. Com força e poesia terei água e sal em plena comunhão."
"O tempo, sempre o tempo. Rodas espirais, agruras de vento... Depois chora ruínas no jazigo dos lamentos."
Vale a oportunidade de ver a língua portuguesa ser moldada com tamanha plasticidade e emoção, lembrando-nos de que a poesia não é apenas texto, mas um sopro vital que alavanca asas. É Spoken Word em sua essência: ritmo, alma e entrega.
"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas." 🕊️
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