domingo, 28 de setembro de 2025

lugar

 lugar


quando esse frio for embora
quando essa chuva passar
         entre as canecas de café
         haverá para nós um lugar

o mar deitará sobre as rochas
            e os pássaros voltarão a voar
no jardim das flores eternas

    tu correrás para o mar
            eu vou pegar uma estrela
para nós haverá um lugar

quando voltar o calor
quando passar essa dor
        poderemos de novo andar
       pelos parques e riachos

tu correrás para o mar
    eu vou pegar uma estrela

tu correrás para o mar
    eu vou pegar uma estrela

para nós haverá um lugar

quando passar essa dor
haverá para nós um lugar

wasil sacharuk







   

veneno

 


veneno

atenta-te aos riscos
acaso queiras brincar
arriscado que eu te risque
meu ferrão forte e rápido
 causa intensa dor
irradia pelo corpo

arriscado tatuar-me
em tua pele
de forma que jamais
queiras apagar-me

de forma que jamais
possas apagar-me

arriscado inocular-te veneno
do meu amor escorpião

wasil sacharuk



a alma com calma

 


a alma com calma

canto baixinho
sussurrando
amarro os sapatos
mas não ando
parei o relógio
num segundo
fazendo bolinhas
do que é grande
a alma com calma
quer que eu cante

ando calminho
acalmando
andando de lado
vagueando
trouxe o ilusório
pro meu mundo
fazendo a vidinha
doce instante
a alma com calma
quer que eu cante

santo cantinho
vou queimando
eu ando baseado
enrolando
sou um notório
viramundo
eis a vida minha
relevante
a alma com calma
quer que eu cante

wasil sacharuk



garça

 


garça

poisas para mim
em meus castelos jardins
tuas virtudes tão plácidas
diluídas nas curvas
e plasmadas nas sombras
com luzes cálidas

e tu riscas serpentes
sob o céu de penumbra
da minha mente esquálida
que perdida em escusas
e fogueiras folclóricas
verte a verve das musas
encharcada de vodka

sabes bailar graciosa
com incertas passadas
sabes voar ousadias
com tuas asas largas

pois eu sei ver a poesia
numa garça
estabanada

wasil sacharuk



heresia

 heresia


entre ser e essência
não há evidências
apenas os dogmas
sentenças e estigmas
forçosa doutrina
a mim não determina

pois prefiro a heresia
em vez da guerra fria
em nome das idolatrias

entre fé e descrença
não há diferença
apenas escolhas
escondidas vergonhas
de teor moralista
a mim não conquistam

pois prefiro a heresia
em vez da vã teoria
doutrina e teologia

entre crença e razão
não há argumentação
apenas falácia
nenhuma eficácia
sequer silogismo
à luz do tomismo

pois prefiro a heresia
a ver a Filosofia
ao fogo da inquisição

wasil sacharuk







lagarto de fogo

  lagarto de fogo

evita saber o mistério
das chamas que ardem
no meu império
não desafia aos exércitos
atenta ao pleno domínio
das legiões invisíveis

tenho três cabeças
de naturezas indivisíveis
são rendições à beleza
conduzirão-te rasteira
ao inferno das posses
e minhas pernas fortes
montarão as carapaças
de venenosos escorpiões

aos que me servem
sou desígnio da verve
da farta colheita
da grata vitória
da morte aos inimigos

rasgarei-te os pulsos
verterei do sangue
a mim consagrado
com felinas garras

e um lagarto de fogo
deslizará em teu corpo
a devorar sem amarras
e logo te curvará
ao meu eterno reinado

wasil sacharuk






quarta-feira, 24 de setembro de 2025

a mente dança

 a mente dança


a mente dança
o corpo dói
despencam harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
pés fincados no chão

conquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
a mente canta
no entanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
a mente nada
portanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia dolorida
entretanto convida 
e o corpo reclama remanso

wasil sacharuk


cansada de doer

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estrelas abismadas

 

estrelas abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
pouca bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
 teu ofício
os excessos os vícios
o tesão e as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

wasil sacharuk



amora molhada

 


amora molhada

saibas amora
eu não deveria
chover mais em ti
mas isso não importa
se usas guarda-chuva

saibas amora
eu não tenho capa
sequer uso luvas
saíram de moda

amora
e se te incomoda tu te apartas
dos pingos te resguardas
no abrigo
se minha chuva te molha

mas vai
vai amora 
leva a cadeira 
e teu maldito guarda-chuva
senta lá fora nua

mas naquela hora amada amora
eu bem sei que tu ficas louca
se eu mergulho nos teus olhos
em cântaros

amora vejo sóis
se chovo em tua boca

wasil sacharuk



estelares luminárias

 a menina dos olhos de deus 

(estelares luminárias)

a doce menina dos olhos de deus denota pureza aos auspícios da crença sob as luzes do espírito na fé e esperança
a doce menina dos olhos de deus irrompe estrela cadente risco fulminante mergulho de fumaça a perfurar oceanos
a doce menina dos olhos de deus carente de esperança quer saber não morrer quando apaga sua chama
certo dia o demônio das duas cabeças ofertou-lhe as filosofias cuspiu-lhe a política e recitou poesia
e após beijar-lhe os mamilos elogiou suas belezas e a suspendeu na gravidade do amor
a doce menina dos olhos de deus viu que crenças humanas são faíscas aleatórias na perspectiva das coisas
estelares luminárias lanternas toscas ofuscam-se as umas acendem-se as outras

wasil sacharuk



faces

  faces


havia cortes chanfrados
cuidadosos e laminados
brilhantemente polidos

estenderam-se tal lápides
espelhadas
cada qual com seus cantos
contornos e expressões

havia nuanças diversas
e milhares de olhos
pontiagudos
 matizes estranhos
em tons tergiversos

faces que delatavam belezas
juntadas às dores e tristezas
e além do possível
a fome de se fazer vida

faces vertentes de inexatidão
a linha tênue das crenças
e da satisfação

faces denotavam clichês
de amor e de ódio
pintadas de versos latentes
ideias escandalosas
e iluminuras
 formavam figuras
abstrações e palavras

havia faces ultrajadas
emoldurando sorrisos discretos
que pareciam felizes

havia faces e agora
vemos somente seus rostos
encravados
nas inexpressivas 
 cabeças imóveis

wasil sacharuk


domingo, 21 de setembro de 2025

oigalê

 oigalê


o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk





estrelas calaveras

  estrelas calaveras


no pampa estendido pela distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada afagando o guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
esquentar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
daquela chinoca bonita

um regalo escolhido a capricho
comprado lá na fronteira
um novo corte de chita
ou qualquer outra fazenda
que deixasse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já eu encilho o futuro
no más meu chapéu eu penduro
num prego pelo barbicacho
descanso a bombacha e as botas
tenteio o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

num trago eu afogo as queixas
já que a saudade não deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartaram dos velhos pelegos
a minha xirua faceira

wasil sacharuk 






prados longínquos

 

prados longínquos

nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

wasil sacharuk






bandas da saudade

 bandas da saudade


sessenta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para o índio assar solito
sem fumo 
sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
entorno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro
cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte
espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas
mas hoje a saudade não ganha
boto um liso de cana
ouvindo milongas do Plata
saudade cantada não mata

jogo no braseiro
tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote
espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte

wasil sacharuk






domingo, 14 de setembro de 2025

sopro de vento

 



sopro de vento 

a vida passa
tão rápida
surfa lépida
nas asas
do tempo

instantânea
intrépida
sopro de vento

mas
a vida passa
tão rápida
nas asas
do tempo
e passa
ainda mais rápida
se o coração
bate lento

wasil sacharuk





xote das belezas

 xote das belezas 


eu já fui caça
 e pássaro
também devassa 
e bálsamo
 fui água benta 
e maré instável
fui peçonhenta 
já fui amável

fui a Jocasta 
fui a Morgana
fui  mulher casta
 e mulher insana
bruxa e atriz
 princesa recatada 
ora fui meretriz 
ora fui a beata

já fui  moralista 
já fui obscena
fui Messalina 
fui Madalena
eu já fui vadia 
entre outras belezas
e também fui maria
mas não tenho certeza

wasil sacharuk







macambúzio

 

macambúzio    

o olho mareia
    a garganta entala
     mar revolto embala
              os grãos de areia
    a letra goteja palavras
palavras rebrotam mancheias
            o livro da vida se cala
a música engasga colcheias
   o sonho morre de fadiga
e o tempo tem falta de ar
 o vento assovia cantiga
  para a tristeza chorar

                wasil sacharuk









sakura

  sakura

quebradiço o galho
que suspende a existência
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
em transitória delicadeza

ouve  que o destino clama
a perecer tuas pétalas
ao chão do bosque copado
derrama nas dores humanas
teu aroma perfumado

floresço a ti com ardor
sakura amada
a esperança confiou-me o nome
e o empenho das madrugadas

assim um só seremos
no parque das cerejeiras
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
recria o espaço das certezas

wasil sacharuk





robin

  robin


quando a fortuna girou sua roda voei campo afora ave riscada em contornos de luz na moldura noturna

na aurora cantei com o robin e os outros pássaros sobre faixas de asfalto planícies planaltos bati  minhas asas pelos mares e praias matas fechadas até  janela da tua casa

voei junto aos pássaros carregando nos bicos sementes de sonhos e um punhado das belas palavras 

na árvore do parque meu nome escrito à faca

no quarto  bailavas vestindo vermelho tão linda ao espelho

voei junto aos pássaros carregando nos bicos sementes de sonhos e um punhado das belas palavras

wasil sacharuk






mágoa que cutuca

  mágoa que cutuca


nas cruzadas
por tua rua, a dor
dela bem sei de cor
o caminho
hesita no meu passo
a longa espera

a mágoa que cutuca
é tão crua, amor
espera pra ter de volta
o teu carinho
que da mágoa que cutuca
fez quimera

nas madrugadas
de poesia nua, amor
os pássaros
vez por outra fazem ninho
se a saudade desce a rua
e vai...

quem dera!

wasil sacharuk








sine qua non

 sine qua non 


ela é a condição 
sem a qual nada
 poderia ser
aprioristica razão
das coisas pensáveis
sine qua non
poderia a magia
lampejar as palavras
e as emanações imputáveis
a quem lhes deu causa

pois ela é a energia 
precipitada da poesia 
ou desprendida do sexo
com amor e verdade 

ela então é o nexo
da minha causalidade 

wasil sacharuk





atávico

 atávico 


ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitado passado
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
num dia abençoado
pelo sol da  poesia

ainda sei teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
pelos ciclos da lua
da travessia das ruas
nas rotas dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia

wasil sacharuk


ao meu pai



quid pro quo

 quid pro quo


cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

wasil sacharuk



quo vadis

  quo vadis

quero saber de ti 
o que cantas  com quem andas  
aonde vais  

não choramingo os ais 
sequer escrevo uma carta
dessa saudade que mata
o nó que não ata nunca mais

deixo para trás as ciências exatas
as premissas mais chatas
as verdades universais

pretendo nada demais
apenas a medida certa
onde a cabeça não esquenta
além dos níveis normais

quero saber de ti
o que cantas com quem andas
aonde vais

 só para trocar contigo
algumas palavras banais

wasil sacharuk




visionário

 

visionário

o instável momento precário
reluta mas pede a alforria
mas não passa de agrura
e prevalece a feroz criatura

para o ritual de todo o dia
colei uma foto no armário
ao lado do meu calendário
à esquerda dessa poesia

quero verdade mais pura
quero além da simples jura
quero uma doce rebeldia
quero toque mais refratário

nem sei se a mente depura
nem sei se tenho estrutura
nem sei se é outra mania
nem sei se me faço otário

aprendi a não ser solitário
e já sei consertar avaria
já sei cozinhar pra gastura
nem sei se a vida me atura

são as peças do meu relicário
instâncias de toda a ousadia
encantos de vã travessura
sem os toques da amargura

o que dizem que é utopia
fui buscar no meu dicionário
é um tipo de nó visionário
da mais perfeita alegria

wasil sacharuk





véu do mistério

 véu do mistério


despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio

wasil sacharuk

tudo o que te pertence

 tudo o que te pertence


o vento minuano
pronunciava teu nome
soprava leveza em minha face
sussurrava verdades
ora contava segredos

o vento minuano
atendia aos apelos
embalados no tempo e no espaço
sua mão abria verdades
sua mão fechava os segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantava-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contava vontades
minha voz cantava meus medos

o vento minuano
vertia-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrava vontades
meu ventre vingava meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

wasil sacharuk




negra

 não digas nada (negra)


preciso mergulhar aos confins
 desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível 
as três da manhã
ainda despencam 
pétalas das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
 batendo as asas

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
 serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

wasil sacharuk




chuva suave

 chuva suave 


no inverno
tão pouco chovias
sobre as igrejas
           só gotas frias

nas arenas
ruínas
chuva fina
chuva suave 
          só gotas frias

          só gotas frias
chuvas confetes
serpentinas
canivetes

não apresses o raio 
suave chuva 

non correre il raggio
pioggia gentile

que tua melodia
            seja livre

e nos dias
carentes
de poesia
viveste a ira
imponente dos raios

o céu
com poeira de estrelas
traçou outras linhas
horizontes do eu
pioggia gentile
chuva minha

que tua melodia
           seja livre

que tua melodia
           seja livre

wasil sacharuk



onde dorme oceano

 onde dorme oceano


onde dorme oceano
o vasto manto abraça
sou abduzido na dança
e não nego
quando dizes
te levo

te levo suavemente
te levo repousar na vertente
te levo onde dorme oceano

voar soberano sem rota
eu voo leve gaivota
costa do mar

lá enroscam fios de cabelos
aos cachos costa do mar

onde dorme oceano
o vasto manto abraça
sou abduzido na dança
e não nego quando dizes
te levo

te levo suavemente
te levo repousar na vertente
te levo onde dorme oceano

wasil sacharuk








viagem da gota serena

 


viagem da gota serena

ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira
guiei um cometa
nas dunas de areia

costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

wasil sacharuk




aprendiz de silêncios

 aprendiz de silêncios


 deixa-me quedar
no abismo das ânsias
para entender o luar
e as distâncias

ensina-me as nuanças
do silêncio que fala
e que não sei escutar

mas que preciso
mesmo que não digas nada
que eu seja
aprendiz de silêncios

deixa-me fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

deixa-me ser rio
que te cerca
e tenta
a costear as vivências

dissolver coerências
molhar teus cabelos
que voam fáceis

deixa-me na luz
da tua lua
tuas fases refletir
rio de ondas lilases

talvez em mim nades

deixa-me fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

afaga as dores
acalma meus ventos
me ensina a ouvir
teus silêncios
teus silêncios
teus silêncios
um a um

wasil sacharuk



antropófaga

 antropófaga


faminta
ela vinga nas matas
encara o vento
o olho do sol
mastiga raízes
engole os frutos absurdos
que repelem a dor

indelicada alquimia
dos elementos
esparadrapo e unguento
para chagas e cicatrizes

antropófaga
bebe um copo de sangue
e insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até uma próxima aurora
quando raiar novo amor

wasil sacharuk







bemóis

 


bemóis 

tu ave
    fá sol
     na primavera
   se bem sabes
esperas

tu nota
        faminta
      em bemóis
        na primavera
                     fás sóis
       sem entraves

         tu pautas
      fac simile
das urdiduras
         em claves
                  e tons

         imitas o som
           das coisas
       dos lugares
      do coração
das criaturas

wasil sacharuk





topografia

topografia


à espreita
olhos de sol
à noite são luas
iluminam a perfeição
das dunas
as digitais deslizam
círculos perfeitos
d'areias silenciosas
brancas e finas

pele tenra
frutos doces
pêssegos maduros
linhas contornam
desejos silvestres
pedem urgência
antes que o dia se rompa

flui a lagoa aberta
límpida potável
no declínio da sede
engasga o verbo
e sussurra
conjuga a língua
ao gerúndio das vontades

a brisa quente
chega do mar
viajando por córregos
beija as reentrâncias
trilhas clandestinas
encontra nos poros
versos de ouro
à fartura dos potes

wasil sacharuk





amor com Tchaikovsky

 amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
num dia perfeito 
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti 
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
a minguar-te inteira 
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
e acordes na boca 
para beijar os contornos
das tuas dunas de areia

wasil sacharuk








lua e mais nada

 

lua e mais nada

vejo novembro
sob o foco lunar
íris de ouro e prata
tom nostalgia
luzindo a noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo envolto ao véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
na cegueira dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
enquanto dorme a lua

wasil sacharuk





colcha de margaridas

  colcha de margaridas


teu umbigo é um ótimo abrigo
onde quero morar
e os mamilos tão equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés desinteressadas

teus cabelos quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo a sorrir divertidos

eu te desadorno eu te desenfeito
desrascunho e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí tão linda
nudez em relevo sobre o plano
da velha colcha de margaridas

wasil sacharuk






o corte

  o corte


conheço o corte 
das espadas
das batalhas de línguas 
nas janelas
vejo cores ocultas
sob as telas
navego nas rimas
enquanto nadas

conheço os atalhos 
das estradas
sobrevivo aos desvios
e mazelas
sou heroico nas lutas
e nas guerras
meu inferno faz frio
enquanto queimas

conheço o intento 
das palavras
sei andar nas tabelas
da retórica
leio a chama das velas
diabólicas
jogo flores nas covas
enquanto cavas

wasil sacharuk





flor bruta

 flor bruta 

resta a seca
e a vida agoniza
sua dor espinhosa
com coragem 

resta a seca
após a estiagem
quando despencam
pingos esquálidos

resta a seca
nos restos pálidos 
a penúria dos rios
chora vertentes
de versos áridos

mas tu
flor bruta
do mandacaru 
quando a lua te mira
irrompes atrevida
 teu cálice perfumado
do verde botão 

mas tu
flor bruta
do mandacaru 
guarda seiva da vida
efêmera e linda
do cacto indelicado 
irrompido
do sertão 

wasil sacharuk 




infernos que jorram de ti

 infernos que jorram de ti


que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde plantarás flores
daquele tipo que brota
das sementes sagradas
dos medos rancores
verdades remotas
nessas tuas catarses

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se insere
no espelho da lua
enquanto brilhas
nos vãos das galaxias
mundos abissais
que se formam
nos cruzeiros das ruas
nos teus puteiros 
e nas tuas catedrais

que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde lapidarás cores
nas nuanças mais brutas
das tuas pedras lascadas
teus rochedos, temores
entidades mortas
que não mostram a face

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se reflete
nas palavras mais cruas
enquanto teces
versos a revelia
sobre as cores do dia
que se formam
quando o sol se insinua
talvez dia inteiro
ou talvez nunca mais

wasil sacharuk








cortejo das falenas

 cortejo das falenas


avistei tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
junto às borboletas falenas

ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
e o seio de mamas gêmeas
enfeitiçou-me aos olhos

seguiram desde os ombros
ao mar de areias morenas
aos teus gentis territórios
adentrei com gana pirata

poesia lasciva e obscena
vertida da boca insensata
lavou-te as feições sarracenas
com partículas de luzes aladas

ocultei nas palavras serenas
tuas tantas belezas fartas
dos encantos de formas helenas
descrevi figuras abstratas

wasil sacharuk





desconstrução

  desconstrução

andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos areia e cimento

andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas

wasil sacharuk






sábado, 13 de setembro de 2025

casulo

casulo

o monstro que mora 
dentro de mim
nunca o vi
mas o reconheço
ele é meu fim
sou seu começo

que venha e seja
revele-se e me assuste
que me mate
ou me mude

que eu me renda
ao monstro que mora 
dentro de mim

wasil sacharuk





mil palavras mudas

 mil palavras mudas


silêncios que emergem
da nascente das almas
onde palavras são tantas
sobre ideias insanas

silêncios salvam
silêncios servem
trabalham e se divertem
tanto sofrem quanto amam

são mudos quando plantam
bananeiras sem bananas
entre poemas sem mensagem
e tantas outras faltas

silêncios cavam
silêncios cobrem
se afogam depois emergem
tanto correm quanto andam

são mudos se debatem
significações exatas
às percepções mais humanas
contextos e artimanhas

silêncios falam
silêncios ouvem
pensam enquanto sentem
tanto morrem quanto calam

wasil sacharuk







anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...