contar estrelas

 contar estrelas 


maravilhoso é contar estrelas
mas onde estou 
vejo apenas uma
 quando o céu ajuda
as quatro e trinta 
quando saio para o trabalho 

é Vênus
eu acho
no céu tão bonito!

eu passaria  horas 
e horas a fio
 só contando estrelas
 quando me perdesse
voltaria a contar

ficaria todo tempo do mundo 
deitada ao teu lado 
 faríamos assim
eu contava uma estrela 
e catava
 te dava
teríamos um balaio

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo tão limitados
de poeira 
e de enfados

 batizo as estrelas 
com nomes inventados
Astez
Moriè
 Ezon
Zúritë
E Yadz
são nomes lindos 
sei que preferes
 Sebastiana
 Gertrudes
Esther 

 Salinna será minha  preferida
nascida à beira-mar
 luzirá no céu de cima
 espocando solene
para nossa intimidade 
com o universo 

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo limitados
de poeira 
e de  enfados

wasil sacharuk 



dono das horas

 

dono das horas 

és ave carnívora
que bica até verter sangue
mutila
devora
arranca os meus pedaços
para depois engoli-los

e tudo a ti pertence
 o norte
 o Sul
 o sol que nasce 
o sol que se põe
 dono das horas

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

logo odeio-te!
a partir de hoje
terás meu desprezo
terás o meu ódio!
nunca mais me procura!
vai para as outras!

esquece a mulher que sou
 que não mereces
e jamais voltarás a ter
 na tua cama!

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

não mais te pertenço
não mais me dominas
nunca mais me verás 
não mais não mais 
não mereces mulher como eu!

mas antes
ama-me mais outra vez

mas antes
ama-me mais outra vez

wasil sacharuk 



flores de espera

 flores de espera 


tuas mãos riscam
 meu nome na areia 
o vento sopra 
 aos meus olhos

 perdida !
perdida ao teu toque 
tua balada
 anuncia sonhos
 amor e harmonia
vibram as cordas  
nossa melodia 
(vibram as cordas  
nossa melodia)

logo entras
sorrateiro
me habitas 
te demoras

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

agora digas
do que  és feito
flores de espera
orquídeas talvez 
à espera 
da primavera
(flores de espera
orquídeas talvez)

queima  e arde
o  meu sal
 bebi a lágrima
do adeus 
e não fui

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

wasil sacharuk 



amor abandono

 amor abandono


ele desconheceu o impossível
desafiou tempo e espaço
Semeou no solo escasso
para provar seu poder
pelo simples saber fazer ser

a seu critério
lançou sementes
ao chão estéril
e logo fez chover

crescida
sua árvore do desejo
no tempo oportuno
gerou frutos doces
que lhe desceram
pela garganta
ao sobejo

a árvore esgotada
não mais o satisfez
nem sua intimidade
nem seu olhar

a árvore
do amor abandono
alheia à mão que a plantou
frutificou só por ser
sua natureza selvagem
vingou pelas matas
livre indiferente
silvestre

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

wasil sacharuk



meu doce diabo

 meu doce diabo 


meu doce diabo
já não me sabes nada
 não me manipulas mais
sequer me controlas
tampouco me roubas
já nem me sangras

eu não sinto mais medo 
e danço no teu inferno
aos som dos gritos e ritos 
cada cicatriz que conheço 

amo profanar teus altares
amo invadir o teu corpo 
gosto mesmo do que me dói 
 gosto mesmo do que te fere
teu toque arde em minha pele

teu amor me machuca
teu fogo me queima
teu desejo me marca
brasa viva que devora

wasil sacharuk 



destroços

 destroços 


quis saber o que ocorre na mente 
então deixei sementes brotarem 
para contemplar a expressão 

cada oportunidade conquistada 
e cada verdade submetida 
ao crivo da razão

foram tantas tentativas 
quantas possíveis 
em todos os níveis do discernimento 

esgotei meus argumentos  
 dediquei instantes significativos 
a provar do semblante aflitivo 
e do grito por solução

meditação e observação 
estive obcecada pela questão 
 qual nascente das atitudes
 de onde brotam pensamentos? 
para onde vão 
depois que passam por aqui?

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

mantive na mira o controle da ira
 nada religioso ou sobrenatural 
era busca do gozo pelo domínio mental

trouxe a dinâmica na guia
 e o escrutínio de raciocínios insanos 
jogados em meio 
às reações e anseios
 comi dos restos junto aos cães

fingi  pensar
 flagrei-me pensada 
 atolada na lama das pré-concepções 

mergulhada no centro 
da chama das ilusões 
 no intento o cotidiano clamou socorro 
 perdeu o curso sereno 
tudo revirado tão depressa

das soluções caducas
 perdidas em hesitação 
o mundo ficou cheio 
e nem tentou fazer as pazes 
foi apenas um sistema esclerosado 
e portanto decadente 

os dentes da engrenagem 
não suportaram tantas resoluções 
complexamente abstratas

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

wasil sacharuk