a bifurcação

 a bifurcação


a noite mal começara
e na estrada ouvi o chamado

cruzei atalhos de capim alto 
até vislumbrar a campina 
ampla tal lua cheia
à mancheia fartei-me de atmosfera

 interceptada pelo sol
a montanha

cruzei a viela de pedras
passo acima
uma a uma
ao ponto crítico da bifurcação

da trilha estreita
 vi a ponta da plataforma
um furo na pedra
uma gruta

na rocha
o reino de fogo
e tal lótus
 o homem velho o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
 e o espírito da terra ardeu em seus olhos

sua boca cuspiu signos

nessa noite 
ouvi sobre o fluido da vida
 que foi derramado no solo sagrado
das dores enterradas
das verdades mal contadas

refiz tantos caminhos
 investido da alma do mundo
daí me fiz poeta

e o velho
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo os signos ecoarem nas rochas

wasil sacharuk




poeta poeta

 poeta poeta 



poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

quando calas 
sinto-te presente
o silêncio das pedras
consigo escutar

poeta aparvalhado 
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
 de cor e salteado
sei teu jeito simplório
sei também teus intentos

permaneço abrindo poros
os meus e os teus
o sangue jorra vertente
sobre as folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

o silêncio das pedras
consigo escutar

wasil sacharuk





vórtice ascendente

 


vórtice ascendente

tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros

toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis

náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.

mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.

despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro

a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.

apenas certezas
transmutadas
em escombros

wasil sacharuk











brisa leve

 brisa leve

pela janela aberta
sou vento e invado
corujo 
toco 
acarinho
 tu gostas
 
tão delicada
sussurras coisas
encantos quentinhos
ao pé do meu ouvido

te moves tão crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa 
 
tão delicada
revolves as águas
invertes sentidos
eu canto baixinho

te moves nua
ao distante oriente
pelos cantos do mundo 
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa

wasil sacharuk




versículos

 Faltavam-lhe palavras.

...
Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
...
Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
...
Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
...
Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
...
Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
...
Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
...
As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
...
Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
...
Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.

wasil sacharuk










apocalipse

apocalipse

no derradeiro minuto
do dia último
soou o apito
o diabo vestia candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição dos mitos
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
eis que os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos

"os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos" 

wasil sacharuk