Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
cansada de doer
vambora
vambora
estelares luminárias
a menina dos olhos de deus
amora molhada
amora molhada
saibas amora
eu não deveria
mas isso não importa
se usas guarda-chuva
saibas amora
eu não tenho capa
sequer uso luvas
saíram de moda
amora
dos pingos te resguardas
no abrigo
se minha chuva te molha
mas vai
vai amora
leva a cadeira
senta lá fora nua
mas naquela hora amada amora
eu bem sei que tu ficas louca
se eu mergulho nos teus olhos
em cântaros
amora vejo sóis
se chovo em tua boca
wasil sacharuk
flor bruta
flor bruta
resta a secae a vida agoniza
resta a seca
após a estiagem
quando despencam
pingos esquálidos
resta a seca
nos restos pálidos
a penúria dos rios
de versos áridos
SACHARUK - LEITMOTIV
Onde a Flor Bruta Encontra o Mar: A Poesia de Wasil Sacharuk
Você já sentiu que a vida, às vezes, é como o mandacaru? Espinhosa por fora, mas guardando uma seiva preciosa de vida por dentro? 🌵✨
No vídeo de hoje, mergulhamos na obra de Wasil Sacharuk, um poeta que transforma a dor em beleza e o sertão em oceano. Seus versos tocam em feridas comuns, mas com uma delicadeza que só quem entende a "gravidade do amor" consegue expressar.
Com a sofisticação das angústias humanas, o poeta Wasil Sacharuk nos conduz por um labirinto de metáforas onde a dor e a beleza coabitam o mesmo verso.
"Mas tu, flor bruta do mandacaru, guarda seiva da vida."
"Vejo sóis se chovo em tua boca."
"Certo dia o demônio das duas cabeças ofertou-lhe as filosofias, cuspiu-lhe a política e recitou poesia."
"Vivo cansada de doer por teu amor."
"Nós somos mares de marés confusas."
Sacharuk fala sobre a resiliência ("resta seca e a vida agoniza"), sobre o desejo ("vejo sóis se chovo em tua boca") e sobre a complexidade das nossas crenças e amores. É impossível não se identificar com a força de suas palavras e a entrega em sua performance.
Vale assistir a este vídeo não apenas pela qualidade literária, mas pela experiência sensorial. Wasil Sacharuk prova que a poesia não é apenas para ser lida, mas para ser sentida em cada respiração e pausa. É um convite para olhar para nossas próprias "marés confusas".
É poesia para fechar os olhos e deixar a voz nos guiar.
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