dama do xadrez

 dama do xadrez 


cunhã bailarinava
tal a dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite

ela dançava
tanto linda quanto louca
a sensual mímica da boca
entoava a toada

era ela e mais nada
índia mais linda da tribo
coisa mais sem sentido
morrer de morte matada

e seu canto
ninguém ouviu

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens
dos brios rachados
e dos toques gelados
vergão de açoite

cunhã bailarinava
dama do xadrez
a mais bela da tribo
dançava sem parar
coisa mais sem sentido
morrer depois de dançar

wasil sacharuk



vagos vinténs

 



vagos vinténs

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!

ventos virão
virarão vendavais
valentes vertentes
varrerão vilipêndios
varrerão vilanias
vereis!

vacas vadias
visitarão vossas várzeas
vossos vales verdejantes
virão vorazes
vendendo vaginas
valendo vagos vinténs

vaga vasta
vivos vãos
variante vacilo
vácuo!

vários viventes
venerarão vagabundos
vândalos vampiros
venderão votos
valendo vagos vinténs

vosso veneno
vacina viral
vossos vermes
vomitarão verdades

ventos virão
virarão vendavais
vereis!

wasil sacharuk






autoamor singular

 



autoamor singular


desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco

finalmente entendeu
a Maria
que o amor
não quer desavenças
que quando
não tem poesia
é só simulacro
que a vida
não tem que ser dura
que o brilho
não deve ser fraco

cultivou novos dias
a maria
de um autoamor singular

que ocupa os espaços
pode cantar
pode dançar
sua melhor companhia
conduzir os seus passos

agora se encanta
a maria
do tanto que o amor
tornou-se vasto

desatou-se das dores
a maria
expulsou a amargura
e a violência
para longe
do seu barraco

esqueceu o desamor
que a matava
mentia e abraçava
só para lhe abusar

maria reinventada
liberta do sofrimento
deixou de viver de esperança
tornou-se empoderada

wasil sacharuk 



princesa de papel


princesa de papel

ela era a princesa
do reino da freguesia
seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a via tão bela
no seu castelo de areia
sempre lá estava ela
a mais doce donzela
da minha aldeia

quiçá jogasse as tranças
se fosse a Rapunzel
logo eu teria esperança
de salvá-la da sua cadeia
de sonhos e devaneios
no seu mundo de papel

sempre a vejo princesa
saída dos livros e telas
fadinha ou Cinderela
sempre bela adormecida
a espera de um beijo
que a traga de volta à vida

esse conto de fadas
um dia irá terminar
da princesa aprisionada
passa a vida a sonhar
histórias sempre contadas
que todos sabem contar

wasil sacharuk


 

seriema avoada

 



seriema avoada

canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos
créé - créé

aninha-te em meu coração
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do meu firmamento

canta bonito
seriema avoada
criii - criiii - criiiiii
anuncia chuvarada
em sons desgarrados
se o tempo
chorar seus lamentos
créé - créé

daqui te sinto
esvoaçante ao vento
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií

canta bonito
seriema avoada
ainda que a chuva
adentre a madrugada

daqui te ouço
teu canto teu grito
imprimindo pegadas
no meu infinito
priií-priií / priií-priií

wasil sacharuk



pesca artesanal

 pesca artesanal 


vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
pega peixe pequeno
que corre na beira
pega peixe metido
que corre arisco

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco
na madrugada
 lua inteira
espelho d'água
que corre ligeira

peixe salta
peixe brilha
 beira do rio
 beira do chão
peixe pequeno
peixe metido

vara madura
de pitombeira
linha de nylon
vintecinco

wasil sacharuk