sentinela

 sentinela


das tuas injúrias malditas
arquitetei teu calabouço
ofusquei a chama das velas
nas oportunidades distintas
que espreitei-te da janela

reinaste em meu hades
meu mestre
perdição e esperança
agora sou só espírito
a irromper pelas grades
sob a ira da vingança

deixo-te ir
afinal
à tua sorte miserável
rumo de passos aflitos
onde os desígnios do mal
arrancarão o teu último grito

daqui do meu quarto
ouvirei os badalos do sino
esperarei
sentinela
o encontro do fio do meu corte
com a linha do teu destino

wasil sacharuk



docemente

 


docemente

a morte beijou-lhe os lábios
tão docemente

o sangue verteu-se em regato
tão docemente

um demônio tomou-lhe o corpo
docemente
ao vento
seu último sopro

foi tão docemente

que o anjo entregou-a ao sábio
e o destino zombou tanto ingrato
o eterno atracou ao seu porto
a finitude lançou-a ao espaço

docemente
arrastaram-na sem correntes
a vida desfeita num laço

e ela pode partir
tão docemente

sem dor ou lamento
docemente
tão docemente
um beijo da vida
no ponto final

wasil sacharuk



anjos tocam falácias

 






anjos tocam falácias

jaz o silêncio instintivo
detrás da porta do quarto
jamais pergunte os motivos
jamais sentencie meus atos

arquiteto do mundo quadrado
imperfeito inexato e cativo
jamais me imprima em retratos
jamais tente ser meu alívio

nunca mais
nunca mais

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

não conto que você entenda
não espero a sua astúcia
não queira roubar minha graça
não drene a minha energia

suas leis declinam eficácia
minhas leis são meras promessas
os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

os anjos tocam falácias
desafinadas nas suas trombetas

wasil sacharuk



arcano zero

 



arcano zero

andarilho
bobo da corte
verso fútil no caminho
pedinte da própria sorte
de um parco naco de pão
e um cálice de vinho

arcano da branca rosa
da liberdade e da prosa
da trouxa de conhecimentos
ainda não conquistados
sob o firmamento

andarilho
bobo da corte
dos cães vadios enroscados
à barra das calças

engole borboletas
que anunciam a morte
sobrevoam a miséria
da vida obsoleta
sobre campos adubados
pelos restos da matéria

andarilho
pão e vinho
Bobo
engole borboletas,
morre de liberdade
morre de lamentos

wasil sacharuk


 



o leão

 



o leão

o leão corre insano pela noite
o leão corre insano pela noite
quando passa lento o tempo
troca minutos por sonhos
nas pegadas da insônia

tenho pernas cansadas
o felino esmaga gramíneas
ao entorno das savanas

quando eu tento respirar

refaço as linhas
caminho estelar
lá se unem os espaços
ao meu corpo astral

se chegar o ocaso
fecharei os olhos
para não ver o leão

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

o leão corre insano pela noite

quando as forças da terra
anunciarem o dia
eu já poderei ir

eu já poderei ir

wasil sacharuk



tualma

 tualma


textura de pedra
enfeita a ruína
amargura da sina
gosto de fogo
que a serpente desperta
abocanha rumina
desruga
desalma entrega

tualma
lembra café
frescor matutino
leite canela
capuccino
tal disse
o poeta vespertino
acerca da tua nudez

tualma
pedra e fogo
doçura e veneno

wasil sacharuk