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branca

 



Branca 

Branca coberta em seus andrajos
sua tez reluzente fiel porcelana
flertava com as musas no parnaso
mas não era promessa soberana

Branca mimava aos farrapos
desembaraçadores das minas
tão donzela cosia os trapos
e nutria os animais na campina

Branca sequer quis ser princesa
e seu algoz abdicou da certeza
descansou sua faca na bainha

Branca renunciou à nobreza
sua vida dedicada a pobreza
consagrou-a  eterna rainha

wasil sacharuk



quebranto

 quebranto


se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras

pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando  amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta

wasil sacharuk







linha de frente

 




linha de frente

vejam toda essa gente
gado apartado em travessia
procissão de eus enfileirados
fracos espíritos domesticados

a vida quer ser revelia
necessita ser insurgente
ter os brios na linha de frente
para desbravar novas vias

levante!
é hora de acordar
em frente!
o mundo precisa mudar

sempre os mesmos resultados
repetidos atos malfadados
mergulho das almas vazias
no rio das coisas indiferentes

é preciso ver noutra lente
resgatar a ideia e a poesia
aprender as lições do passado
deixar todo medo de lado

levante!
é hora de acordar
em frente!
o mundo precisa mudar

e quando acender novo dia
as coisas serão diferentes
há muito chão pela frente
ao encontro da sabedoria

wasil sacharuk




crescer por amor

  crescer por amor 


quando eu era criança
na casa havia goteiras
pingavam noites inteiras
e ritmavam a dança
dos sorrisos no quintal 

nada eu sabia acerca do mal
na esteira do tempo que avança
só o bem ficou na lembrança
onde ele é o imortal
guardião da inocência 

eu conheci as carências
entendi o destino natural
entre as luzes e o mundo abissal
e dessas experiências
colhi vitórias e desatinos 

agora não sou mais menino
tenho novas referências
das tecnologias à obsolescência
mas preservo o sentido genuíno
de querer crescer por amor

wasil sacharuk





perverso e vivo

 perverso e vivo


Tudo o que fiz foi insinuar distâncias, era eu e era o sol lá e cá. Joguei na terra, nas adjacências do caminho, turvas imagens de cores e espinhos. Retirei o sal, esfreguei nos meus braços a fome do oceano. Num mergulho inusitado, rasguei uma fenda na terra e separei o vale do pântano. Do alto do monte vislumbrei minha obra. Artefinalizei ideias secas espargidas pelos prados verdes. Cobri o ódio com um pano negro e, no interior de uma caixa, fiz meu reduto. Agora o chão ferve a chuva de ontem. Campos mortos nos tempos sem horas. Meu nome escrito na lousa anuncia um tempo de náuseas. Desço os degraus do submundo. Quebro as lâmpadas. Arranco as torneiras. Quando o tempo não sabe mais andar sobre as pernas. Quando a palavra conta as misérias e a perversão. Ando nu pela crosta a desvendar a rapinagem das aves. Ando assim, perverso e vivo.

wasil sacharuk








amores líquidos

 amores líquidos🎼🎻


amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que perece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

wasil sacharuk