quarta-feira, 8 de abril de 2026

récita I

001

tudo muda
em absoluto
mas nada se vai
as coisas
se reposicionam 
nos interstícios
do que fomos

wasil sacharuk


002

não sei chorar
pelo canto do olho
apenas sei
chorar pelo avesso
por aquilo que não consegue sair
pelo que fica preso na garganta
como uma ave que recusa o voo

wasil sacharuk


003     

más lembranças
já nascem corrompidas
já trazem em si
a própria putrefação...
boas lembranças
essas sim
exigem certo luto
enquanto morrem lentamente
dia após dia
enquanto fingimos
que ainda respiram

wasil sacharuk


004

ela peneirava a areia
eu observava que ao pó
não se separa
o pó se metaboliza
narinas adentro
incorporado ao processo
da respiração

wasil sacharuk


005 

no canto do quarto
vejo uma teia
que a aranha tece sem pressa
sem arrependimento
sabendo que cada fio é uma sentença

wasil sacharuk


006 

escrevemos lapsos poéticos
não para escapar da realidade
mas para habitá-la de forma diferente
como quem dança sobre cacos de vidro
e chama isso de liberdade

wasil sacharuk


007 

éramos Hera e Hades
numa foda sem hierarquia,
nem divindade....
o fogo que não precisa
de nomes razões e conceitos
para queimar....
grito salto loucura cadência
os sons que faz o corpo
quando se reconhece inteiro
em outro corpo


wasil sacharuk    

quando findar nossa maldita existência
não haverá resistência
porque já não há nada a resistir
seremos apenas o que sempre fomos:
duas estranhezas
que se tocaram uma vez
e passaram o resto da vida
tentando esquecer o gosto da verdade

wasil sacharuk 










anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...