os setembros

os setembros 


estive  debruçada à janela 
 a vigiar o teu quarto  
 verti sangue em poesia
 enquanto as supernovas
 guardavam teu sono 

 estive absorta
 em lembranças aleatórias
 dos contos de sherazade 
e outras tantas estórias 
que contaste pelos campos 
ou deitada na tua canoa
 sob o voo das garças 
 as brancas  as pardas
 e os martins-pescadores 

 certas marcas deixadas
 pelo açoite das dores 
reuniram dois oceanos 
e  arderam na fogueira 
das pupilas distantes 
até morrerem no arcano 
do teu olhar diamante 

contemplei tua dança
 aos demônios de um rito 
em resposta
 aos sonhos vermelhos 
escritos nos versos infinitos 
da minha premonição 

 recitei raridades  
acerca das flores
 e do cão no quintal 
e logo soprei 
sementes brotadas de ti 
 e das coisas todas 
que te pertencem 

 uma era sem nome
 tatuou os seus signos 
e perpetuou os setembros 
agora descanso solene 
sob o solo 
enfeitada de orquídeas

wasil sacharuk







mortes pequenas

 mortes pequenas 


a vida se apraz
  entre o mais puro ínfimo 
  onde a ponta da língua
suavemente risca
pontos energizados
e circuitos  espocam
desprendendo faíscas       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
    se entregam aos meios     
 angústia que se enrosca 
e  contorce sem freio 
 (e  contorce sem freio )         
no atrito sem corte
nas lambidas amenas
causam múltiplas mortes
 vivamente pequenas

wasil sacharuk



chuva e raio

 chuva e raio

nas alturas 
 ventos dançam 
livres

ela Chuva 
 desperta
 pinga cristalina

ele Raio
 corta céus febris
com luzes divinas 

ela Chuva 
desce mansa
 sensorial
beija folhas 

com ternura plena
derrama gotas 
perfumadas

ele Raio 
a contempla
 ser celestial
forja estrofes 
iluminadas 

água e eletricidade
amor em poesia

ela Chuva 
recita os versos 
como um cântico 

em noites de encanto
canta a melodia 
do amor infinito

ela chuva 
ele raio
água e eletricidade
amor em poesia

wasil sacharuk





angústia

 



angústia

os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

e não há deus que te guie
e não há deus que te salve

wasil sacharuk 



eu no mundo

 eu no mundo 


sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou

ente genuíno
ato puro 
"ente genuíno
ato puro" 
equivalência 
ao que dizem divino

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

sob minha casca
há razões suficientes
 fundamentos suspensos

meu apriorístico universo
descrevo no bloco 
de rascunhos
sobre a mesa 
das multiplas possibilidades
de ser eu no mundo

sou na verdade a potência 
de vir a ser
não há outra causa
para somente existir

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

wasil sacharuk







eu gosto de flor

 

eu gosto de flor

sabe
não é dissabor 
que meu ato encerra
 o fato 
é que gosto de flor
mas do tipo
 fincada na terra

flor de cerejeira
 doce mistério
flor de bagaceira
 fatal sedução
flor de carpideira
letal cemitério
flor de trepadeira 
 dá no verão 

sabe
não é desamor 
que meu trato anuncia
tão ingrato
de fato 
eu gosto de flor 
empetalando versos 
da poesia

wasil sacharuk