terça-feira, 10 de março de 2026

os setembros

os setembros 


estive  debruçada à janela 
 a vigiar o teu quarto  
 verti sangue em poesia
 enquanto as supernovas
 guardavam teu sono 

 estive absorta
 em lembranças aleatórias
 dos contos de sherazade 
e outras tantas estórias 
que contaste pelos campos 
ou deitada na tua canoa
 sob o voo das garças 
 as brancas  as pardas
 e os martins-pescadores 

 certas marcas deixadas
 pelo açoite das dores 
reuniram dois oceanos 
e  arderam na fogueira 
das pupilas distantes 
até morrerem no arcano 
do teu olhar diamante 

contemplei tua dança
 aos demônios de um rito 
em resposta
 aos sonhos vermelhos 
escritos nos versos infinitos 
da minha premonição 

 recitei raridades  
acerca das flores
 e do cão no quintal 
e logo soprei 
sementes brotadas de ti 
 e das coisas todas 
que te pertencem 

 uma era sem nome
 tatuou os seus signos 
e perpetuou os setembros 
agora descanso solene 
sob o solo 
enfeitada de orquídeas

wasil sacharuk







mortes pequenas

 mortes pequenas 


a vida se apraz
  entre o mais puro ínfimo 
  onde a ponta da língua
suavemente risca
pontos energizados
e circuitos  espocam
desprendendo faíscas       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
    se entregam aos meios     
 angústia que se enrosca 
e  contorce sem freio 
 (e  contorce sem freio )         
no atrito sem corte
nas lambidas amenas
causam múltiplas mortes
 vivamente pequenas

wasil sacharuk



chuva e raio

 chuva e raio

nas alturas 
 ventos dançam 
livres

ela Chuva 
 desperta
 pinga cristalina

ele Raio
 corta céus febris
com luzes divinas 

ela Chuva 
desce mansa
 sensorial
beija folhas 

com ternura plena
derrama gotas 
perfumadas

ele Raio 
a contempla
 ser celestial
forja estrofes 
iluminadas 

água e eletricidade
amor em poesia

ela Chuva 
recita os versos 
como um cântico 

em noites de encanto
canta a melodia 
do amor infinito

ela chuva 
ele raio
água e eletricidade
amor em poesia

wasil sacharuk





angústia

 



angústia

os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

e não há deus que te guie
e não há deus que te salve

wasil sacharuk 



eu no mundo

 eu no mundo 


sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou

ente genuíno
ato puro 
"ente genuíno
ato puro" 
equivalência 
ao que dizem divino

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

sob minha casca
há razões suficientes
 fundamentos suspensos

meu apriorístico universo
descrevo no bloco 
de rascunhos
sobre a mesa 
das multiplas possibilidades
de ser eu no mundo

sou na verdade a potência 
de vir a ser
não há outra causa
para somente existir

sou potência
de vir a ser
não há outra razão
não há outra causa

wasil sacharuk







eu gosto de flor

 

eu gosto de flor

sabe
não é dissabor 
que meu ato encerra
 o fato 
é que gosto de flor
mas do tipo
 fincada na terra

flor de cerejeira
 doce mistério
flor de bagaceira
 fatal sedução
flor de carpideira
letal cemitério
flor de trepadeira 
 dá no verão 

sabe
não é desamor 
que meu trato anuncia
tão ingrato
de fato 
eu gosto de flor 
empetalando versos 
da poesia

wasil sacharuk




a bifurcação

 a bifurcação


a noite mal começara
e na estrada ouvi o chamado

cruzei atalhos de capim alto 
até vislumbrar a campina 
ampla tal lua cheia
à mancheia fartei-me de atmosfera

 interceptada pelo sol
a montanha

cruzei a viela de pedras
passo acima
uma a uma
ao ponto crítico da bifurcação

da trilha estreita
 vi a ponta da plataforma
um furo na pedra
uma gruta

na rocha
o reino de fogo
e tal lótus
 o homem velho o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
 e o espírito da terra ardeu em seus olhos

sua boca cuspiu signos

nessa noite 
ouvi sobre o fluido da vida
 que foi derramado no solo sagrado
das dores enterradas
das verdades mal contadas

refiz tantos caminhos
 investido da alma do mundo
daí me fiz poeta

e o velho
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo os signos ecoarem nas rochas

wasil sacharuk




poeta poeta

 poeta poeta 



poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

quando calas 
sinto-te presente
o silêncio das pedras
consigo escutar

poeta aparvalhado 
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
 de cor e salteado
sei teu jeito simplório
sei também teus intentos

permaneço abrindo poros
os meus e os teus
o sangue jorra vertente
sobre as folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

o silêncio das pedras
consigo escutar

wasil sacharuk





vórtice ascendente

 


vórtice ascendente

tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros

toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis

náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.

mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.

despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro

a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.

apenas certezas
transmutadas
em escombros

wasil sacharuk











brisa leve

 brisa leve

pela janela aberta
sou vento e invado
corujo 
toco 
acarinho
 tu gostas
 
tão delicada
sussurras coisas
encantos quentinhos
ao pé do meu ouvido

te moves tão crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa 
 
tão delicada
revolves as águas
invertes sentidos
eu canto baixinho

te moves nua
ao distante oriente
pelos cantos do mundo 
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa

wasil sacharuk




versículos

 Faltavam-lhe palavras.

...
Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
...
Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
...
Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
...
Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
...
Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
...
Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
...
As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
...
Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
...
Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.

wasil sacharuk










apocalipse

apocalipse

no derradeiro minuto
do dia último
soou o apito
o diabo vestia candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição dos mitos
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
eis que os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos

"os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos" 

wasil sacharuk







anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...