segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

parteiras

 parteiras


as mãos trazem signos
registros do destino
a memória das sinas
estigma-raio ametista
pureza em vertente
dedos e falanges
os fluidos quentes

nas mãos parteiras
queima a febre
revolução indomável
o enlace da corda
senso e silêncio
choro e grito
osso e sangue
cartada da sorte
a dor da passagem
cicatrizes na porta

as mãos parteiras
trazem a voz
os fachos da luz
o primeiro vento
a apontar o futuro
no fio do muro
entre as dicotomias

parteiras
as mãos impulsionam
nuvens de sonhos
bálsamo e espinho
a dureza dos calos
num eterno caminho

das mãos parteiras
a criação inaudita
a sutileza do corte
extenso e profundo
a mais nova viagem
de mais outro louco
que insiste em testar
os arcanos do mundo

wasil sacharuk



pacto de sangue

 pacto de sangue 


a mim tomaste
sem reservas
ao amor descabido
de estranheza
e loucura
nada pôde nos conter
nada!

no nosso inferno
fui tua
abriguei-te em mim

insólito amor
dos membros marcados
com dentes afiados
pacto de sangue
gotejou pelos cantos
das nossas bocas

selvagemente meu
e eu
deliciosamente tua
devoramos pedaços
ao assalto dos poros

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

foste a causa
da minha insanidade
amor desmedido
para ti me fiz linda
incandescência
deusa de carne

invadiste meus mundos
todos todos
plena entrega
tua voz úmida
inundou o meu olhar
ficou para sempre
criaste raiz
nas minhas células

fui tua mulher
semeei o teu nome
nos campos na lama
com dor e prazer

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

wasil sacharuk



a cobiça

 a cobiça


já faz muito desde o sucedido
alguns não recordam mais nada
outros duvidam do acontecido

a meia-noite quebrou a calada
no grito da primeira badalada
lançada a sorte na noite de breu
eu estava lá quando tudo se deu:

em meio à mata, não sei bem ao certo
um rito secreto e uma estranha canção
o calor da fogueira ardia bem perto

construíram lá um grande portal
fundamentado em colunas de ouro
nele incrustado o amor ao metal
toda paixão p'ra compor o tesouro

a cobiça foi mãe da ira e da morte
da intolerância e do devir malogrado
os nativos insanos perderam o norte

ouviu-se som grave qual um trovão
que fez todo o povoado desperto
somente alguns poucos sabiam a razão
da queda de todos no limbo deserto

de nada adiantaram os meus mantras
sequer os apelos ao deus que esqueci
caíram por terra as crenças santas

todos arremessados no mundo abissal
por uma espiral no centro do estouro
jogados ao fogo mais quente infernal
reinado de um anjo coberto de louros

wasil sacharuk





memórias em pó

 memórias em pó 


outrora cheirosa
a roseira sem cor
lentamente suspende 
 fluidos minguantes
derradeiros espinhos 
lanças trágicas 
de haste dura 

sua  última rosa
secou esquálida
o perfeito sacrifício 
desintegra-se impertinente 
 condensada nas páginas 
do velho diário 
abandonado na estante

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

o mudo desvelo 
memórias em pó 
dos aromas perdidos
na esteira dos dias 

murcham as pétalas 
secam as razões 
a natureza  é a solitude 
que contempla a morte
e acalenta a poesia

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

há tempo de florescer 
e outro de perecer
pela linha entre o viço 
e a senilidade dos galhos
destila o orvalho 
que já não molha


wasil sacharuk







dor da saudade

 dor da saudade 


os olhos mareiam
grãos de areia
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
a dor da saudade

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
pulsando latente
debaixo da casca
da ferida

o tempo não apaga
o tempo não cura
somente acalanta
e ela anda silente
dentro da gente

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida

há mil tipos de dor
eu conheço o pior

wasil sacharuk



vinho raro

vinho raro


nosso vinho precioso
na delicadeza da sede
cai realmente gostoso 
desce quente sensorial 

cada gole essencial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

nosso amor tão raro
 embriaga além da pele
oferenda das texturas
nuanças e faro

transcendência do toque 
lembra teu cheiro 
teus calores e chuvas
teu gosto de uva

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

 vinho sagrado 
docemente apreciado 
no altar da cumplicidade
nosso mútuo sacrifício

 amor precioso 
rasga os véus
das melhores entregas

os corpos são taças 
 onde se fundem os poros
com fluidos e hálitos
derramam-se nos lençóis 

 vinho precioso
delicadeza da sede
 quente sensorial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

 tão raro
além da pele
 texturas e faro
calores e chuvas
gosto de uva

vinho sagrado 
docemente apreciado
fluidos e hálitos 
 nos lençóis
 em sacrifício

wasil sacharuk




anjos tocam falácias

  anjos tocam falácias jaz o silêncio instintivo detrás da porta do quarto jamais pergunte os motivos jamais sentencie meus atos arquiteto d...